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Remeiros do São Francisco

Antônio Gonçalves

As águas do São Francisco estão querendo ir embora, mais as coisas bonitas que nele há, permanecem estáveis. São cantigas, são histórias, são poesias remeiras. Sobre cada lugar, cada cidade, um punhado de histórias que sai da boca dos remeiros. Daqueles que levam a barca aonde querem, subindo ou descendo, de vara no peito. Os remeiros e os marinheiros nos ensinaram muita coisa, pois estes, com aqueles, é que aprenderam a desencalhar os vapores. Os remeiros não choram a desgraça, cantam-na em versos, bebendo cachaça e comendo rapadura, daí a falsa impressão de felicidade entre eles.

Contam que o pessoal de Juazeiro é da lordeza. Primam pelo vestir bem, pouco importa o número de outras necessidades. Em Santana só dá cascalho. Impera a carestia em Riacho (atual Casa Nova), Em Sento-Sé há uma família muito nobre e uma tribo de índios pacíficos, ambas denominadas Sento-Sé. Muita desgraça em Pilão Arcado, onde duas famílias, a Franklin e a Leobas, dispõem de corajosos jagunços. Em Xiquexique há uma família muito grande, cujos membros tem ancas avantajadas. Icatu (atual Biraba) fabrica uma cachaça podre, de que não tomam os remeiros. Queixam-se da Barra, terra do barão de Cotegipe, salvo engano. Quando a barca atraca no porto da Barra, o ladrão, à noite, vem de anzol roubar o cobertor do remeiro. A família dos Marianos, muito rica, dona da vila, não permite a construção de casa de telha, só de palha, em Morpará (Ex-Casa de Palha ou Casa Velha), há lindas mulheres em Bom Jardim (hoje Ibotirama), razão pela qual os remeiros cantam "Bom Jardim da rica flor", Em Santa Cruz (hoje Paratinga), um velho cruzeiro constantemente cheio de urubus. Na Lapa, roubam durante a festa e ficam sem nada fazer até a romaria seguinte. Sempre foram bonitas Carinhanha e Malhada. O posto fiscal é em Jacaré (hoje Itacarambi). Os remeiros que sobem o rio com destino a Januária, consideram-se mais homens que os remeiros que descem o rio, de Januária a Santa Maria e a Barreiras, onde dá uma rapadura que é purgante para os remeiros. Quando nasce um em São Romão, a parteira joga-o à parede. Se cair será ladrão; se se agarrar à parede, feiticeiro. Em Remanso, quando dois se desentendem, amarram-se as camisas, o covarde não pode correr, morrem juntos. O cais de pedra à frente da igreja em São Francisco é obra da natureza: "São Francisco é pedraria".

Em toda comunidade há sempre um poeta. Entre os remeiros também há um, que sabe resumir, cantando:

ABC ou cantiga dos remeiros

Juazeiro é da lordeza,
Santana do cascalho,
Riacho da carestia,
Sento-Sé da nobreza.
Remanso da valentia.

Pilão Arcado, da desgraça.
Xiquexique dos bundão.
Icatu, cachaça podre.
A Barra só dá barão.

Morpará, casa de palha.
Bom Jardim da rica flor.
Urubu da Santa Cruz
Triste povo da Lapa
Se não fosse o Bom Jesus.

Carinhanha é bonitinha
Malhada também é
Passa manga e Morrinhos
Paga imposto em Jacaré.

Januária é carreira grande,
Corrente é meia carreira.
Bate o prego em Santa Rita
E caga mole em Barreira.

Januária só dá cachaça
Maria da Cruz, algodão.
São Francisco é pedraria.
Feiticeiro em São Romão.

Pirapora é terra da lama.
Quando não é poeira é lama.

 

(Gonçalves, Antônio. "Remeiros do São Francisco". Folclore. 01 de agosto de 1971)
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