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Candango

Francisco Pereira da Silva

No seu livro Brasil, capital Brasília, Osvaldo Orico abre todo um capítulo para discutir o gentílico com que se designará em definitivo o indivíduo que nasce em Brasília, novo Distrito Federal.

Entende o referido escritor, e com razão bastante, que "brasiliense" não vinga em virtude do cunho pedantesco de erudição, com que não compadece a índole do nosso povo.

"Brasiliano", embora talhado à feição e gosto popular, teve o curso embaraçado por "brasilino" (aliás em antropônimo) inventado por certo jornalista no auge da campanha impatriótica movida contra a interiorização da capital do país.

Assim, foi-se generalizando a tendência à admissão do termo "candango". A palavra teve, ao tempo do Brasil-Colônia, sentido pejorativo. Significava, para o africano, o tipo odioso do português que preava o negro para o trabalho da escravidão. Mais tarde passou a designar todo indivíduo deselegante e mal-ajambrado, como eram os forasteiros e retirantes que, no Planalto Central brasileiro, se empenharam no serviço pesado de construção da Novacap. A aceitação geral do nome como gentílico, não serve de empecilho a intenção depreciativa que lhe vem da própria origem. A semântica está cansada de nobilitar um sem-número de palavras de cujo primitivo sentido indecente, grosseiro ou ultrajante o curso dos anos fez esquecer. Pode, portanto, chamar-se candango o natural de Brasília, sem que haja nisto qualquer desluzimento.

Agora, o que me parece enfática pabulagem de Osvaldo Orico é afiançar que foi ele quem pôs de novo em circulação a velha palavra "extraviada e esquecida no sertão".

Fundou-se Brasília em 1960. Quem anteriormente viajasse por esse mundo de Deus teria ensejo de ouvir repetidas vezes o vocábulo corrente nas conversas dos próprios tabaréus e retirantes. Em artigo inserido em O Vale Paraibano, de 21 de julho de 1953, informei ter ouvido freqüentemente o termo aplicado ao pau-de-arara durante viagem terrestre que realizei pelos estados de Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. E os matutos nos permutávamos aquele tratamento de candango, sem que ninguém se julgasse ofendido.

Já no município fluminense de Cabo Frio, quando se instalava a Companhia Nacional de Álcalis, concorreu aos trabalhos rudes da construção o mesmo tipo de trabalhadores brasileiros, ali igualmente apelidados de camdango. Foi justamente sobre a vida em um núcleo desses valorosos patrícios instalados na referida localidade que o operário Acioly Lopes urdiu a trama de seu romance intitulado Candango no Arraial do Cabo.

Também aqui em nosso estado, não é de hoje que se conhece o vocábulo. Bem anteriores à fundação de Brasília, foram as obras de variantes da Estrada de Ferro Central do Brasil. E já por essa ocasião integravam nas turmas, empenhadas naquele serviço, tanto arigós como os nossos bravos candangos. Havia, aliás, curiosa classificação dos homens que se rebentavam naquele trabalho ferroviário. O meio letrado, apontador ou chefe da turma era arigó de penacho. Arigó de estrada dizia-se do operário que adquirira quase uma especialização no setor da conservação e abertura de caminhos. Havia ainda o arigó andante. Era expressão com que se designava o trabalhador traquejado, porém inconstante; espécie de "cama-de-vara" conhecido no Nordeste; que está hoje aqui, amanhã acolá. E no meio deles mourejava o candango, vindo de longe, humilde, sem habilidades específicas, pau-para-toda-obra.

Serve tudo isso de demonstrar que o termo "candango" não emergiu abruptamente dos socavãos de um passado longínquo para uma aparição triunfante nas planícies de Brasília. É muito mais provável que ele se venha enobrecendo lentamente, como se vai polindo o seixo rolado na correnteza.

 

(Silva, Francisco Pereira da. "Candango". Nossa Escola. São José dos Campos, junho de 1964)
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