Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Janeiro 2007 - Ano X - nº 98


Sumário

Festança
A alma simples do povo numa noite de pagode
Audálio Dantas

Festa de São Benedito
Auguste François Biard

Natal em Belém
Leandro Tocantins

Cancioneiro
Zé Marcolino, o poeta injustiçado
José Medeiros de Lacerda

Tapejara

No seio da Virgem Mãe
Guilherme Santos Neves

Imaginário
História do Jesus mendigo
Carmen Dolores

Biroca
Luíz Alberto Ibarra

A bondade da aranha
Roberto Martins

Colher de Pau
As doceiras
Daniel Bicudo

Chá do Paraguai (mate)
Oscar Canstatt

A saúde final
Paulo de Verbena (Marcelino de Carvalho)

Oficina
Candango
Francisco Pereira da Silva

Remeiros do São Francisco
Antônio Gonçalves

Vendedores ambulantes e pregões da cidade
Luiz Edmundo

Palhoça
Gíria e escritores
Eneida

Dez curiosidades folclóricas natalinas
João Chiarini

Moleque comprador de tempero
Hildegardes Vianna

Panacéia
Penitentes e sua origem folclórica
Luíz Róseo

Folclore português: Benzimentos
Elisa Vilares Cepeda

Chá de buraco
Terezinha Caldas

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A bondade da aranha

Roberto Martins

Encontra-se com freqüência, nas mais variadas manifestações folclóricas, um desejo manifesto de reabilitar criaturas humanas marcadas pela antipatia coletiva, ou mesmo bichos repulsivos, detestados pelos homens. É uma forma de se exteriorizar o lado bom do coração humano, a parte sensível do espírito do povo.

Não há bicho mais feio do que o sapo. Vendo-o desengonçado e nojento, a sabedoria popular não alcança quanto é a grande sua utilidade. Não chegando a imaginar uma lenda consoladora que o redima, consegue, assim mesmo, afirmar resignadamente, como quem descobre um jeito misericordioso de justificar tanta feiúra: "Sapo não pula por boniteza, pula por precisão".

Outro bicho horroroso, sem jeito de ser agradável a ninguém, é a aranha. Pois o povo arranjou maneira de a fazer profundamente simpática, através de uma lenda.

José e Maria levavam Jesus para o Egito, fugindo à matança de meninos ordenada por Herodes, numa edição velha e encardida do nazismo de Hitler. Caminhava a família sagrada, com seu burrinho paciente, através de desertos, sob um sol implacável. Aos agentes de Herodes chegara a denúncia de que um menino, justamente aquele perigoso, exatamente o que fizera brilhar a estrela dos Magos, era levado pela família para os lados do Egito. E um piquete de soldados, em cavalos fortes e velozes, saiu-lhe no encalço.

Os fugitivos, no meio de uma tempestade de areia, debaixo de um sol inclemente, entraram numa gruta à margem do caminho, à espera de que o tempo melhorasse. Lá no fundo, no escuro, brotava um escasso fio d'água, formando uma pocinha avara, onde o burro se pôs a beber. Horas depois, descansados e refeitos, São José se dirigia, despreocupado, para a porta, a ver se abrandara a tempestade lá fora, quando percebeu uma aranha tecendo sua teia na entrada da caverna. Impressionado com a movimentação quase desesperada com que ela trançava seus fios, quedou ali a observá-la, durante largos minutos, enquanto a mãe e a criança dormiam lá no fundo.

Foi quando escutou tropel de cavalos e percebeu que estacavam nas proximidades da gruta. Ouviu descerem os soldados e um deles afirmar:

— O rasto do homem já está coberto, mas os cascos do burro chegam até aqui.

Outra voz interrompeu, cortante:

— Estão na gruta! Custou mas...

Outro companheiro retrucou porém:

— Deixe de bobagem! Olhe a teia de aranha. Aqui que não há ninguém.

Rondaram os soldados por ali largos minutos, desorientados, até que o chefe ordenasse:

— Já não há rastros daqui para a frente. A areia tudo cobriu. Com um tempo destes, é impossível segui-los. Só nos resta voltar.

E desandaram o caminho a galope, debruçados sobre as crinas, fustigados pela areia do deserto.

Por isso é a aranha um bicho abençoado. Salvou Nosso Senhor.

(Martins, Roberto. "A bondade da aranha". Jornal de Piracicaba. 28 de julho de 1963)

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