Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 98
Janeiro de 2007
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Biroca

Luíz Alberto Ibarra

Um estampido furou o silêncio noturno e se foi retoçando de canhada em canhada. O sangue coloriu sobre o pelo negro e luzidio. Biroca foi baleado. O sangue coloriu sobre o pêlo negro e luzidio. Bider seu crime.

E a noite se enrolou na treva e adormeceu de novo...

Biroca, um cachorrão de pêlo preto e bem lustroso, viera ao mundo às margens de um arroio que se chama Ibirocaí, afluente do Ibicuí, na margem esquerda e situado na divisa de Alegrete e Uruguaiana. O seu nome em casa, era chamado de Biroca. Não sei quem foi que o trouxe para o povo. Sei, contudo, que foi sempre bem tratado e se tornou um cachorro lindo e bem mandado.

Em Uruguaiana, o ano que marcou a Revolução, beirava o fim. Voltava a calma a dominar aquelas bandas que também dera um piquete para apoiar Getúlio Vargas.

Era o "Buraco Tapado", naquele tempo, um centro de movimentos e de grande atividade. O nome, eu imagino, é por ter sido aterrado em outros tempos. Situado em frente ao riacho ali aportavam barcos com laranjas, melancias e outras frutas. Vinham balsas com madeira e lenha, do Alto Uruguai, que ainda traziam rapadura e canha. Atracavam "chatas" sempre carregadas de mercadorias (vinham da Argentina).

Se chamava "changa" o descarregamento de mercadorias (geralmente sacos de farinha e arroz) e "changador" aquele que fazia o trabalho.

Por esse tempo apareceu no "porto" sem se saber de onde, um castelhano por de nome Aguirre, changa e foi ficando no lugar. Sem mais tardança o changador Aguirre fez muita amizade com os companheiros. E daí que veio a se saber, um dia, ele fora outrora, em San Tomé, Argentina, um comissário rico. Mas por desgostos com família, o pobre viera bater com os costados por ali.

Nos fundo do bolicho que sortia os changadores havia um galpão, e lá foi se acomodar o Aguirre. Foi lá que se encontrou com o Biroca e logo se entenderam mais que dois viventes humanos, porque estes ainda brigam e eles não brigavam nunca. E ficaram muito amigos, um do outro.

À noite, dom Aguirre saía a carpetear no rancheiro; e "orelhava" bem um ás de espadas, pois ganhava sempre. Biroca não ficava. Era o seu companheiro. E enquanto ele jogava e ia bebendo, Biroca o aguardava.

Quando, ao clarear do dia, regressava trazia já, consigo, a carne para o churrasco. Mas invariavelmente tropicava no portal e a carne voava pelos ares, longe. Ninguém se aproximava da "costela" nunca. Biroca não deixava!

Depois que "refrescava" um pouco, o "comissário" fazia fogo e atirava a carne sobre as labaredas. Mal-mal esta tostava, já cortava um naco e dava outro para Biroca, com estas palavras:

— Toma Biroca, está bueno Biroca...

E se atracava logo a devorar a carne chamuscada.

Um dia, depois de uma feijoada, foi changear no riacho, carregando lenha de uma balsa e teve uma bruta congestão. Durou mui pouco.

Biroca se chegou, cheirou o morto e se foi triste; como que rodilhar-se num canto do galpão. E, desde então andou abichornado sempre até que aquela noite um estampido furou o silêncio e se foi retoçando de canhada em canhada. A bala entrou no vazio. No outro dia, Biroca já não mais vivia.

Nunca se soube quem o baleou. Mais tarde alguém falou que tinha sido um tal de Sales. Porém nunca se soube de certeza.

(de uma história verídica)

 

(Ibarra, Luís Alberto. "Biroca". Diário de Notícias. Porto Alegre, 11 de maio de 1958)
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