Um estampido furou o silêncio noturno e se foi retoçando de canhada em canhada. O sangue coloriu sobre o pelo negro e luzidio. Biroca foi baleado. O sangue coloriu sobre o pêlo negro e luzidio. Bider seu crime.
E a noite se enrolou na treva e adormeceu de novo...
Biroca, um cachorrão de pêlo preto e bem lustroso, viera ao mundo às margens de um arroio que se chama Ibirocaí, afluente do Ibicuí, na margem esquerda e situado na divisa de Alegrete e Uruguaiana. O seu nome em casa, era chamado de Biroca. Não sei quem foi que o trouxe para o povo. Sei, contudo, que foi sempre bem tratado e se tornou um cachorro lindo e bem mandado.
Em Uruguaiana, o ano que marcou a Revolução, beirava o fim. Voltava a calma a dominar aquelas bandas que também dera um piquete para apoiar Getúlio Vargas.
Era o "Buraco Tapado", naquele tempo, um centro de movimentos e de grande atividade. O nome, eu imagino, é por ter sido aterrado em outros tempos. Situado em frente ao riacho ali aportavam barcos com laranjas, melancias e outras frutas. Vinham balsas com madeira e lenha, do Alto Uruguai, que ainda traziam rapadura e canha. Atracavam "chatas" sempre carregadas de mercadorias (vinham da Argentina).
Se chamava "changa" o descarregamento de mercadorias (geralmente sacos de farinha e arroz) e "changador" aquele que fazia o trabalho.
Por esse tempo apareceu no "porto" sem se saber de onde, um castelhano por de nome Aguirre, changa e foi ficando no lugar. Sem mais tardança o changador Aguirre fez muita amizade com os companheiros. E daí que veio a se saber, um dia, ele fora outrora, em San Tomé, Argentina, um comissário rico. Mas por desgostos com família, o pobre viera bater com os costados por ali.
Nos fundo do bolicho que sortia os changadores havia um galpão, e lá foi se acomodar o Aguirre. Foi lá que se encontrou com o Biroca e logo se entenderam mais que dois viventes humanos, porque estes ainda brigam e eles não brigavam nunca. E ficaram muito amigos, um do outro.
À noite, dom Aguirre saía a carpetear no rancheiro; e "orelhava" bem um ás de espadas, pois ganhava sempre. Biroca não ficava. Era o seu companheiro. E enquanto ele jogava e ia bebendo, Biroca o aguardava.
Quando, ao clarear do dia, regressava trazia já, consigo, a carne para o churrasco. Mas invariavelmente tropicava no portal e a carne voava pelos ares, longe. Ninguém se aproximava da "costela" nunca. Biroca não deixava!
Depois que "refrescava" um pouco, o "comissário" fazia fogo e atirava a carne sobre as labaredas. Mal-mal esta tostava, já cortava um naco e dava outro para Biroca, com estas palavras:
— Toma Biroca, está bueno Biroca...
E se atracava logo a devorar a carne chamuscada.
Um dia, depois de uma feijoada, foi changear no riacho, carregando lenha de uma balsa e teve uma bruta congestão. Durou mui pouco.
Biroca se chegou, cheirou o morto e se foi triste; como que rodilhar-se num canto do galpão. E, desde então andou abichornado sempre até que aquela noite um estampido furou o silêncio e se foi retoçando de canhada em canhada. A bala entrou no vazio. No outro dia, Biroca já não mais vivia.
Nunca se soube quem o baleou. Mais tarde alguém falou que tinha sido um tal de Sales. Porém nunca se soube de certeza.
(de uma história verídica)