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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Natal em Belém

Leandro Tocantins

Festa de santo popular na Amazônia requer muito foguetório, arraial, leilão de prendas, danças, cantorias. É uma herança dos tempos de colônia, em que se misturam traços culturais do português conquistador, do missionário evangelizador e do indígena.

O naturalista inglês Alfred Russel Wallace, que visitou Belém no ano de 1848, ficou impressionado com os festejos religiosos, onde a tônica era menos a parte propriamente litúrgica do que o ritual popular de fazer barulho.

Toda espécie de barulho para culminar nos foguetes, que são parte essencial das cerimônias, sendo considerado como um ato religioso, notou o fleumático súdito da rainha Vitória, gloriosamente reinante.

"Três coisa são do agrado do povo amazônico: música, barulho e foguetes", ele conclui, relembrando que teve de suportar tudo isso durante quinze dias nas festas do Espírito Santo e da Trindade. E ainda por cima "tiros de espingarda, de garrucha, de canhão, que eram disparados desde madrugada até a noite".

Para provar que essa evasão de regozijos continua a presidir as celebrações dos santos populares, ai está o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, uma estrepitosa manifestação de rua onde a Torre de Babel de milhares de vozes humanas confunde-se com o pipocar incessante dos foguetes e com o bulício colorido do arraial.

Os festejos natalinos, porém, fogem a essa regra geral. Não se nota, neles, alegrias dionisíacas, nem ritualismos sensuais, nem algaravia de multidões, nem estouro de foguetes. Há um clima de paz de quase silêncio, de encanto místico descendo mansamente do céu.

Enquanto no Nordeste o povo leva à cena nas praças públicas o auto buliçoso das marujadas, das cheganças, dos reisados, em Belém a população prefere recolher-se aos lares na noite de Natal. E são servidas ceias à maneira portuguesa, sem faltar os pratos típicos regionais. Visita-se presépios em casa de amigos ou nas igrejas, e, naturalmente, vai-se à Missa do Galo sempre muito concorrida.

O dia de Natal é, assim, desprovido daquela expansão de alegrias meio pagãs, meio religiosas, em ruas e arraiais, tão comuns, na festa dos santos populares.

Nas cidades de Bragança e Quatipuru, pequenos centros localizados na zona da estrada de ferro, vizinha a Belém, ocorre um divertimento popular conhecido pelo nome de marujada, que atravessa o dia do nascimento do Salvador, sem, contudo, pertencer ao ciclo de festa natalinas. A marujada liga-se às comemorações de São Benedito, que começam no dia 12 de dezembro e terminam a 26, cumprindo a tradição quinzenária seguida pelos festejos religioso-populares da Amazônia.

A marujada nordestina é um auto pertencente ao ciclo natalino, a marujada paraense que só acontece em Bragança e Quatipuru, é um cortejo de rua, ligado ao ciclo beneditino, com tipos e figurações de inspiração marítima, no que estudiosos, como Vicente Sales — paraense integrado na equipe da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, dirigida pelo professor Edison Carneiro — vêem a repetição do famoso cortejo do escaler, que a partir de 1835 se integrou no Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em cumprimento de promessa feita à santa por um grupo de náufragos do brigue São João Batista, nas costas da Guiana Francesa.

O ritual ortodoxo do escaler desapareceu, há muitos anos do Círio de Nazaré. As medidas saneadoras do espírito demasiadamente pagão que dominava a consciência dos fiéis eliminaram-no do préstito, embora hoje o escaler ainda continue presente, mas de forma bastante atenuada. Então o povo o teria recriado dentro de suas ousadias e vozes primitivas no cortejo da marujada de Bragança.

Os festejos natalinos em Belém não mudaram através dos tempos. Sempre foram tocados por um impulso de confraternização, de humildade cristã, de certa quietude de espírito — um castiço espírito de Natal. O naturalista inglês Henry Walter Bates, descreveu o seu primeiro 25 de dezembro amazônico num pequeno lugarejo, perto de Belém: a fazenda Caripi. Tudo se impregnava de uma "solicitude de sonho", poetiza o viajante britânico.

Não havia barulho, nem confusão. À meia-noite de 24 todos se reuniram na capela da fazenda, enfeitada com flores e atapetada com folhas de laranjeira, para rezar a ladainha e adorar o Menino-Deus em seu presépio. "Era uma singela cerimônia, conduzida com respeito e devoção", recordou Bates em seu livro. Os fiéis entoavam hinos "cheios de beleza":

Virgem soberana
Do céu o esplendor
Oh, mãe amorosa
Do meu redentor

Mas o Natal belenense também tem pastorinhas. Elas estiveram em grande voga até mais ou menos o início da Segunda Grande Guerra. Hoje são poucos os grupos que persistem na boa tradição de encená-las. No entanto, a Campanha da Defesa do Folclore Brasileiro espera no próximo ano criar um serviço no Pará destinado ao estímulo e preservação do folclore paraense, dentro de sua pureza original, o que muito vai enobrecer, no julgamento dos amazônicos, a administração de seu presidente Edison Carneiro. E as pastorinhas serão reavivadas com o mesmo aspecto que as tornou famosas em outras épocas.

É dado como origem das pastorinhas o auto que Gil Vicente dedicou a rainha dona Maria de Portugal, filha dos reis católicos Fernando e Isabel. O poeta luso recitou em espanhol o Monólogo da visitação, logrando o aplauso unânime da Corte. Das câmaras reais o auto transferiu-se para os meios populares e aí adquiriu uma nova dramatização e se enriqueceu com outras figuras e enredos ligados ao divino acontecimento. O povo denominou-o de pastoril ou lapinha. Chegando ao Grão-Pará o mel da natureza adoçou-lhe o nome: a pastorinha.

Que encanto, sobretudo para as crianças, a representação das pastorinhas! Encenadas nas casas residenciais elas chegaram até aos teatros da cidade, tal o interesse da população em vê-las e aplaudi-las.

Lembro-me de meu tempo de menino nessa quadra suave da vida belenense: vários conjuntos, na casa de dona Fulana e na casa de dona Beltrana, querendo sobrepujar uns aos outros na riqueza dos cenários, nas canções delicadas, no guarda-roupa colorido dos anjos e dos santos, nas túnicas sóbrias dos pastores apoiados em seus cajados, na faceirice das ciganas, com seus colares, brincos e saias berrantes, nas impropriedades dos diabinhos.

Depois, as crianças repetiam as cançonetas das pastorinhas:

Eu sou o pastor Ezequiel
Que caminha noite e dia
À procura do Menino
Filho da Virgem Maria.

Ao invés de barulhos e foguetes as festas de Natal belemenses exalam perfumes de incenso e mirra, como se evocassem o nome da cidade e o seu nascimento ao Forte Presépio de Belém, naquele longínquo 12 de janeiro de 1616.

 

(Tocantins, Leandro. "Natal em Belém". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1963)
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