Os convites são feitos sem nenhuma etiqueta porque um pagode é uma festa onde não cabe a preocupação por esses detalhes, pelas formalidades. Expliquemos o que é um pagode: é uma dança popular muito conhecida no estado de Alagoas, dança de gente pobre, da gente mais pobre que habita as pontas de rua dos povoados ou as cabanas de palha dos engenhos de açúcar; gente que desconhece as danças sofisticadas dos salões, mas que sabe "pisar" num pagode.
Fomos ver um, e para tanto não precisamos ser convidados porque toda a vila de Tanque Darca (município de Anadia, Alagoas), falava do pagode do Zé da Lucinda. Era um sábado dia de feira, Zé da Lucinda simplesmente avisara que ia dar a festa, e em pouco tempo toda a rapaziada estava falando na festa do Lucinda. Logo a noitinha começaram a passar pelo "quadro" (praça), onde se localizam as casas dos chamados ricos do lugar, os grupos vindo das ponta de rua. Destino: "chá-de-cacos", a mais pobre das ruas de Tanque Darca, onde se realizam os melhores pagodes da terra.
Em tempo de "Valseleta"
Inicialmente, é pouca a animação. Os dançadores deixam-se ficar no terreiro, encostados na parede, enquanto alguns rapazolas mais afoitos vão convidando as mocinhas para dançar. Os dois "poetas" (assim são chamados os cantadores) atacam algumas músicas conhecidas, na maioria marchinhas carnavalescas as quais dão interpretação toda especial. Essas marchinhas são chamadas de "valseleta" e sempre são cantadas no início do pagode, enquanto a turma não "esquenta". Apenas alguns poucos pares rodopiam no salão de barro batido. No terreiro, os dançadores que são tidos como bambas rodeiam um tabuleiro onde uma preta velha vende cachaça e pequenos pedaços de queijo (tira-gosto). Preparam-se para cair no salão. Os "poetas" -— Zé da Lucinda e Manuel Veríssimo — ainda cantam, e acompanham-se com os seus pandeiros, algumas marchinhas, entre outras que anotamos:
"A gente toma o bonde, depois a lotação.
Fala um pouco arto é farta d'oducação
Chegando num buteco pra tomá um "paraná"
Oi, tem nego bebo aí, tem nego bebo aí".
Sem dúvida, o carnaval ainda não conseguiu estragar de todo os cantadores de pagode de Tanque Darca...
Em tempo de pagode mesmo
Zé da Lucinda, que nas rodas de dança também é conhecido como "Galo", para de bater o pandeiro, chega até a porta e "mede" a disposição do pessoal do terreiro. Volta como quem tira uma conclusão importante pega o pandeiro e abre as goelas:
— Ei... lá!
O meu pandero, pandero, pandero
Imediatamente, o salão fica apinhado e os dançadores disputam as cabrochas. O pagode está começado, Manuel Veríssimo ataca:
"Não há home qui conheça da ciença da abeia..."
E Lucinda responde:
"Nem há duro qui num ceia no batê do meu mourão"
O mote lançado por Veríssimo passa a ser dito por Zé da Lucinda, ao passo que aquele diz a resposta, e assim se vão revezando, cada qual se esmerando mais nos improvisos, que é o que revela as qualidades de um cantador de pagode.
Estouramos o nosso primeiro flash, Lucinda para, pergunta qualquer coisa a um cidadão ao seu lado, cochicha no ouvido de Veríssimo e larga o mote:
"Seu Odálio é reportista, tira retrato."
Veríssimo responde:
"Ele é um moço espiciá."
Lucinda volta e improvisa:
"Eu sei qui ele é decente, é verdadero
Trabalha nas revistas, é jornalero
E eu sendo repentista, vou pubricá
Qui ele é bom e grato
Seu Odálio é reportista, tira retrato
Ele é um moço espiciá."
Os motes vão surgindo um após outro, alguns já consagrados e cantado em qualquer pagode que se preze, e outros ao sabor do momento como esse do "seu Odálio é reportista". "tirado" na hora, para homenagear o repórter. Mas aos pares que se comprimem no salão, batendo furiosamente os pés no barro, o que mais importa é a batida ritmada dos pandeiros. Os "poetas" são incansáveis e permanecem horas e horas cantando, enquanto os dançadores, em formidável tropel, deixam que o suor escorra em bicas e se misture com a poeira que se levanta do chão.
Os que ficam de fora, observando os pares que dançam, fazem o papel de vigias, e quando alguém, cansado, modera o passo, todos fritam ao mesmo tempo:
"Oi, esse 'chipapá'!"
"Chipapá" significa dança arrastada, macia. E ninguém admite que se dance macio num pagode.
A disposição dos cantadores é cada vez maior, com Zé da Lucinda conduzindo. Um negro velho observa da janela, quando alguém grita:
"Entre prá dentro, seu Badé, qui o negoço tá começando a ficá bom!"
Seu Badé aceita o convite e cai na dança, furiosamente. A preta velha que vende cachaça chega-se a janela e comenta:
"Isso é qui é sé dançadô de pagode! Esses rapais de hoje em dia num sabe o qui é dançá não..."
Pisa, cabra da peste!
Pagode, é dança de pobre, de gente miúda. Numa noite de tropel, de suor e poeira entre um e outro gole de cachaça, são esquecidas todas as tristezas. Não é só a "branquinha" que embriaga; o micróbio da dança frenética penetra no corpo e na alma, alegra as criaturas que comumente vivem tristes.
Tanto os que dançam como os que ficam apreciando se divertem a valer. No terreiro e nas demais dependências da casa, os que não dançam bebem cachaça ou refresco de frutas. Alguns se divertem dizendo gracejos ou fazendo críticas aos que estão dançando:
"Vamo acabá cum isso, João Bolinha! Dance duma vêiz o pagode inteiço!" Uma negra volumosa passa pisando forte, caprichando no passo e se derretendo com o cavalheiro, um caboclo agigantado. Logo, outra negra que desde o começo da festa está encostada na parede, sem dançar, comenta:
"Ô Fulora, coidado qui tu vai se desmanchá..." E a outra responde, maliciosa:
"Tu tá mais é ruendo..."
E assim, em meio aos comentários dos assistentes e o entusiasmo dos dançadores, o pagode vai varando a noite, num bater continuo de pés contra o chão. Várias modalidades de passo são executados: "pinicadinho", "rebatido", "travessão".
Alta madrugada, quando em todas as casas de Tanque Darca os fijós já estão apagados, na "chá-de-cacos" ainda há luz. E há, sobretudo, alegria. Mesmo quando Zé da Lucinda canta um improviso algo nostálgico:
"No meu sertão vejo um carro piá.
Pego a chorá lembrando do meu lugá
Pois o carrero bota o gado na canga
Pega o carro sem munganga
E na rodage vai andá."
Todos estão felizes, principalmente Zé da Lucinda, que é dono do pagode e é poeta e por isso gosta de cantar. É ele também quem não deixa a dança "esfriar" e incentiva:
"Pisa, cabra da peste, qui eu aguento o rojão!"