Há um velho e bom costume que não deve desaparecer. É aquele de se levantar o copo à saúde de alguém ou do grupo todo que se senta à mesa de um bar ou uma refeição. É amável e a gente deve ser sempre amável, quando se procura a companhia de outros.
Esse costume, às vezes, vai um pouco mais longe. Nos países nórdicos, o anfitrião levantará o seu copo tantas vezes quanto o número de suas convidadas. Verdade seja que — em compensação — estas convidadas não têm o direito de levar o copo aos lábios, sem que sejam provocadas pela saudação de um convidado. Se alguma delas tocar no copo e olhar para algum convidado, este deve perceber que ela está com sede e convidá-la a beberem juntos um trago.
Há centenas de maneiras de se beber à saúde de alguém. Cada povo tem mais do que uma palavra para isso. Algumas dessas expressões são corriqueiras e não precisam ser citadas. Outras são pitorescas.
Os ingleses — além de seus cheers de praxe — dizem muitas vezes Good bless you ou Happy days. A senhora Jorge da Silva Prado prefere dizer Happy Nights, porque acha que as noites é que devem ser felizes e não os dias.
Conheci uma amiga que, quando saudava em francês, preferia um Vive l'amour! ao chin-chin, que reproduz onopatopaicamente o bater dos cristais.
Encontrei-me certa vez em Londres com um inglês que tinha passado algum tempo no Brasil. As únicas palavras que aprendera em português eram estas: — À saúde de nossas boas qualidades e das qualidades de nossas boas.
No napolitano há uma expressão que acho uma delícia: salute e figli maschi. O sueco diz skoll, que é sinônimo de skull em inglês. Nós temos a palavra escalpelar que tem a mesma origem. É que os velhos suecos costumavam beber no crânio de seus adversários mortos em combate. E quando alguém quer dar assim ares poliglotas pode até dizer: Time skoll, mine skoll, ala vaquer flik skoll, "À sua saúde, à minha saúde, à saúde de todas as mulheres bonitas". Claro que não é assim que se escreve em sueco, mas acho melhor escrever foneticamente em português.
O árabe diz: Sah-ten, igual a duas vezes saúde.
Tudo isso não impede que cada qual tenha seu próprio estilo no levantar o copo. O gesto é o principal. O resto não importa muito.
Reproduzido de Assim falava Baco, p.35-36