Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 98
Janeiro de 2007
Artigos deste mês em
Colher de Pau
As doceiras, por Daniel Bicudo

Chá do Paraguai (mate), por Oscar Canstatt

A saúde final, por Paulo de Verbena (Marcelino de Carvalho)



Veja também

Realejo

Rádio Realejo

Como vovó dizia

No Estradão

Amigos da Jangada
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

A saúde final

Paulo de Verbena (Marcelino de Carvalho)

Há um velho e bom costume que não deve desaparecer. É aquele de se levantar o copo à saúde de alguém ou do grupo todo que se senta à mesa de um bar ou uma refeição. É amável e a gente deve ser sempre amável, quando se procura a companhia de outros.

Esse costume, às vezes, vai um pouco mais longe. Nos países nórdicos, o anfitrião levantará o seu copo tantas vezes quanto o número de suas convidadas. Verdade seja que — em compensação — estas convidadas não têm o direito de levar o copo aos lábios, sem que sejam provocadas pela saudação de um convidado. Se alguma delas tocar no copo e olhar para algum convidado, este deve perceber que ela está com sede e convidá-la a beberem juntos um trago.

Há centenas de maneiras de se beber à saúde de alguém. Cada povo tem mais do que uma palavra para isso. Algumas dessas expressões são corriqueiras e não precisam ser citadas. Outras são pitorescas.

Os ingleses — além de seus cheers de praxe — dizem muitas vezes Good bless you ou Happy days. A senhora Jorge da Silva Prado prefere dizer Happy Nights, porque acha que as noites é que devem ser felizes e não os dias.

Conheci uma amiga que, quando saudava em francês, preferia um Vive l'amour! ao chin-chin, que reproduz onopatopaicamente o bater dos cristais.

Encontrei-me certa vez em Londres com um inglês que tinha passado algum tempo no Brasil. As únicas palavras que aprendera em português eram estas: — À saúde de nossas boas qualidades e das qualidades de nossas boas.

No napolitano há uma expressão que acho uma delícia: salute e figli maschi. O sueco diz skoll, que é sinônimo de skull em inglês. Nós temos a palavra escalpelar que tem a mesma origem. É que os velhos suecos costumavam beber no crânio de seus adversários mortos em combate. E quando alguém quer dar assim ares poliglotas pode até dizer: Time skoll, mine skoll, ala vaquer flik skoll, "À sua saúde, à minha saúde, à saúde de todas as mulheres bonitas". Claro que não é assim que se escreve em sueco, mas acho melhor escrever foneticamente em português.

O árabe diz: Sah-ten, igual a duas vezes saúde.

Tudo isso não impede que cada qual tenha seu próprio estilo no levantar o copo. O gesto é o principal. O resto não importa muito.

 

Reproduzido de Assim falava Baco, p.35-36

 

Em Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil. Rio de Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005