Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 98
Janeiro de 2007
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Chá do Paraguai (mate)

Oscar Canstatt

Não podendo ser confundido com o chá procedente da China e por isto conhecido por esse nome, de origem chinesa, o chá do Paraguai (erva-mate) é o produto natural mais importante do comércio regional. Esta planta, porém, só medra no sul do Brasil. No entanto o chá do Paraguai faz parte das principais necessidades de grande parte das populações sul-americanas e seu uso não se limita só ao Brasil; está, antes, muito espalhado por toda esta parte do mundo.

Quando tratei das florestas virgens, já foi dita a árvore de que é tirado, a congonha, como a chamam os brasileiros. Os jesuítas foram os primeiros a cultivar essa árvore tão útil, nas suas missões no Paraguai, até que no ano de 1823 o célebre naturalista Bompland, amigo e companheiro de viagem de Alexandre von Humboldt, devotou quase toda a vida à cultura da congonha. A experiência tem mostrado que as folhas da árvore silvestre são tão boas para a alimentação quanto as dos renovos, mas em geral se constatou que os renovos cultivados dão chá melhor. É também singular que as congonhas cultivadas nos ervais atingem maior tamanho que no estado selvático. Para o preparo do chá empregam-se só as folhas e os talos tenros, e como é na época da maturação dos frutos que as folhas estão mais suculentas, essa é a época da colheita, que se realiza entre janeiro e março e às vezes se prolonga até junho e julho. Essa operação é muito simples. Os rebentos e talos novos são cortados, secados a fogo lento e novamente torrados numa espécie de andaime por cima do fogo. Esta operação requer cuidado para que as folhas não fiquem secas demais, queimem-se e percam o sabor agradável. No fogo também não se deve empregar madeira úmida ou resinosa, por que o fumo estragaria o mate. Até aí o preparo é feito na floresta, por pessoal especializado. Depois desse primeiro preparo as folhas são ensacadas e transportadas, no dorso de mulas, para os moinhos (moinhos de erva-mate). É nesses moinhos que o mate é completamente pulverizado. Para o transporte acondicionam-no cosendo-o em grandes couros de boi, para protegê-lo da umidade do ar e conservar seu aroma agradável. Vai tão comprimido nesses sacos de couro, que estes ficam duros como pedra.

Toma-se o mate em pequenas cabaças, ou cuias, tendo um orifício do lado de cima. Põe-se dentro uma mancheia de mate com uma colher de açúcar, enche-se de água fervente, deixa-se corar e chupa-se por um tubo de prata fechado com um crivo embaixo (bomba). Seu sabor sem açúcar é muito amargo e a princípio raramente agrada ao europeu, mas devido às suas qualidades saudáveis, correspondentes ao clima, o estrangeiro se habitua facilmente ao uso dessa bebida, comum na região. O mate está ainda mais generalizado nos países da região do Prata que no Brasil. De lá recebeu uma vez o rei da Prússia como presente do famoso ditador López do Paraguai grande quantidade de fardos de mate, com o qual os soldados do exército prussiano se regalaram por algum tempo, a título de experiência.

A exportação de chá do Paraguai nos anos de 1860 e 1861 montou a 6.803.056 kg no valor de 2.700.000 marcos; de 1871 a 1872 a 9.507.086 kg, no valor de quatro milhões e meio de marcos; de 1869 a 1874, a 15.717.503 kg, no valor de 7.449.750 marcos. 

[1871]

 

(Canstatt, Oscar. Brasil: terra e gente 1871. Brasília, Senado Federal, 2002 (O Brasil visto por estrangeiros), p.123-125)
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