Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 98
Janeiro de 2007
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As doceiras

Daniel Bicudo

A cidade pequenina e em paz inalterada (sem vaidade ostensiva na divisa inscrita no seu brasão. "Bandeirantes gens mea") contava em seu meio ativo com os ramos vulgares do comércio estabelecido para o consumo local. À ilharga desse modesto comércio, em moldes interioranos, vigorava uma outra atividade particular, muito comum nas localidades provincianas. Era a indústria caseira dos doces, quitutes e biscoitos. Doces secos, em pedaços arredondados e ovais, de: abóbora, batata roxa e amarela, cidra, mamão, coco, banana; cocada branca e escura, talhadinhas de mel, farinha e gengibre; queijadinhas em forma redonda e recortada em bicos; broinhas de polvilho e leite, oblongas e vincadas de açúcar queimado; fio de ovos em pirâmides cor de ouro; balas de leite, mel e chocolate, envoltas em papel colorido e estampado nas pontas; pamonhas de milho verde, atada na própria folha; pães de cará e biscoitos de goma.

A menção aqui desses biscoitos de goma, pede dizer que eram aros unidos e dispostos à maneira de rótula: e uma rótula de biscoitos nas mãos, uma coisa indisfarçável. Uma velha cena ainda nos recorda o conterrâneo nhô Chico Totico, ao sol do largo da Mateir, empenhado em encaldar no bolso traseiro da sobrecasaca os dois palmos por dois de uma rótula de biscoitos comprada. Parecia-nos impossível, mas não foi, bolsa era... e acabou engolindo o volumoso carreto quadrangular. E só por isso, não esqueceríamos mais a figura, gorducha e miúda, de nhô Chico Totico, que foi o primeiro titular do registro civil em Mogi, recém-criado então no país.

A clientela das doceiras dividia-se em duas classes conforme o hábito, havia os fregueses que eram atendidos a domicílio, por encomendas prévias, e havia a freguesia anônima, das ruas. Tabuleiros, forrados e atoalhados, alvejavam na cabeça erguida de moleques espertos, à porta das igrejas, nas feiras e na estação. E as guloseimas recomendavam-se implicitamente, pelo conhecimento geral dos nomes das preparadoras, que eram duas: nhá Fina, e a sociedade familiar das irmãs Pachecas.

Uma observação comparativa das individualidades de Nhá Fina e das Pachecas é interessante. Ao contrário do que seria de esperar naquele ambiente de limitação manifesta, elas exerciam a profissão e a valorizavam com os próprios dotes naturais, sempre em harmonia e com recíproca lealdade. A qualidade dos doces, de cada uma das duas procedências, era coisa que apenas a preferência dos fregueses sabia e julgava, sem nenhuma influência pessoal delas, com o espírito de concorrência. Supomos que nhá Fina precedeu as Pachecas, e, como doceira mais antiga, dispunha de razões favoráveis. E sua índole boa, as reforçava. Mas, de sua parte, nunca se valeu, disse que as vozes que ouvia, acalmava com o rifão.

— O sol nasce para todos...

A discrição das Pachecas era fria e invariável, conforme o próprio gênio, de poucas falas, neres de rifães. Jamais se abriram a respeito da obreira rival, senão para lhe atestar a competência ativa.

Nhá Fina, e as Pachecas como está visto, eram oficiais do mesmo ofício, que viviam entre si com dignidade. Era não obstante, absoluta a carência de afinidades entre elas, a partir do fato que nhá Fina era ela só, industrialmente falando, e as Pachecas eram três, tal como a Santíssima Trindade, três pessoas distintas numa só verdadeira, consubstanciada em doceirismo. Três irmãs solteironas, a morarem juntas trabalhando, compravam, fabricavam, manipulavam, vendiam, indistintamente. Mas sempre juntas as três almas fraternas.

Outra diferença, nhá Fina era mulher donairosa e bonita, várias vezes casada e com filhos. As Pachecas, sob o véu de Santa Catarina, eram magras, razoavelmente feias e iguais nos vestidos escuros e na altura. Uma doceira esbelta e corada, por natureza: as três outras, desgraciosas e sardentas, sem culpa.

E enquanto nhá Fina, entrando para a missa dominical e depois se retirando, era uma cristã entre outras no movimento colorido, já as Pachecas, também cristãs, que não perdiam missa aos domingos, não eram a mesma coisa, inconfundíveis no triplo vulto de criaturas iguais, igualmentes trajadas, não com intenção mas por hábito elas não se misturavam com os fiéis, e deslizavam sozinhas e solenes. Enfim, o quanto tinha Nhá Fina de simpática e expansiva, tinham as Pachecas de esquisitonas e fugidias. Elas se igualaram, no entanto, as doceiras de Mogi de outrora — na sua arte de doçuras gustativas que encantaram velhos paladares. Não deixaram, que saibamos, substitutas de sua altura.

E por isso é que já não se fala mais no sortilégio mogiano dos doces caseiros, cujo aroma — era sabido — foi o aroma dos ares benéficos da pequenina cidade. Eis porque nos demos ao gosto de catalogar as duas doceiras, entre as impressões singelas de nossa distanciada meninice.

 

(Bicudo, Daniel. "As doceiras". A Tribuna. Santos, 05 de setembro de 1965)
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