Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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No seio da Virgem Mãe

Guilherme Santos Neves

É a medo que verso aqui, neste dia de Natal, o velho assunto, o mesmo tema que interessou a inteligência e a cultura de que, de fato, podia estudá-lo: Carolina Michaelis, Leite de Vasconcelos, Cláudio Basto, Luís Chaves e os Pires de Lima, além de outros. Todos eles se encantaram com a delicada trovinha popular que, com tão precisa concisão, refere o assombroso mistério da Conceição de Maria:

No seio da Virgem Mãe
Encarnou divina graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça

Nosso objetivo aqui é apenas o de registrar, mais uma vez, a variante capixaba da formosa quadrinha, confrontando algumas das versões conhecidas, quer lusas, quer brasileiras. Longe de nós, pois (não suba o cavaleiro...) longe de nós a presunção de tentar o exame do tema, perquirindo-lhe a origem, ou fazendo do mesmo assunto para divagações de análise literária ou dogmática.

Ninguém como o povo para falar por imagens ou por comparações. A associação de idéias lhe é tão fácil e freqüente, que para tudo e para todos acha ele o seu símile, o seu correspondente, a sua comparação.

No caso do dogma da conceição da Virgem Maria, nenhuma imagem nos parece mais expressiva que a de que lançou mão o poeta anônimo:

Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça

É verdade que tal comparação também se encontra nas produções eruditas. Bernardes — para não ir mais longe — o padre Manuel Bernardes, em seu livro espiritual Pão partido em pequeninos, dado a lume em 1614, desta mesma imagem se vale no seguinte trecho: "subiu assim como o raio de sol penetra a vidraça, sem esta quebrar, nem abrir, antes ficando mais formosa e resplandecente". E, segundo informa o douto Leite de Vasconcelos (Opúsculos, VII, p.1334), Fernão Álvares, no século XVI, já usava do mesmo símile:

"Mãe, sem lesão da virginal pureza
Assi do solar raio a sutileza
penetra o cristal claro sem que o quebre"

Tomás Pires registrou, algures, este Canto do Natal, composição letrada que se folclorizou:

Assim que o galo cantou
Com prazer e alegria
Nasceu o Verbo divino
Filho da Virgem Maria
Entrou e saiu por ela
Como o sol por a vidraça:
P... e ficou donzela
Maria, cheia de graça

Posteriormente, com certeza, o poeta anônimo condensou em quatro versos apenas a idéia singular, daí resultando variantes como estas, todas de Portugal:

No ventre da Virgem bela
Encarnou Jesus, por graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça
(Cláudio Basto)

P... o verbo divino
A Virgem cheia de graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça
(C. Michaelis)

Outras versões alteram apenas o verso inicial: No ventre da Virgem Mãe (Pires de Lima), No ventre da Virgem Santa (idem), No ventre da Virgem pura (idem).

Passando ao Brasil — como quase todo o cancioneiro religioso que aqui entoamos — a trova portuguesa sofreu ligeiras alterações, mantendo, porém, intacta a idéia formosa.

Rodrigues de Carvalho, no seu Cancioneiro do norte, inseriu-a nesta variante:

No ventre a Virgem pura
Entrou a Divina Graça
Como entrou, também saiu
Como o sol pela vidraça

Gustavo Barroso divulgou esta outra versão do Ceará, mantendo o áspero verbo que aqui reduzimos à inicial:

Como o sol pela vidraça
Entra e sai sem tocar nela
Assim a Virgem Maria
P... e ficou donzela

Também do Ceará, colhida — segundo se diz — por Coelho Neto, corria esta outra:

O sol travessô na vidraça
Nem toca nem bate nela
Assim a Virgem Maria
P... e ficou donzela

E da mesma procedência, colhida por Leonardo Mota:

Como a luz pela vidraça
Entra e sai, sem tocar nela
Assim foi Nossa Senhora
P... e ficou donzela

Em Minas Gerais, registradas por Osório Duque Estrada, a quadrinha toma esta forma:

Raio de sol na vidraça
Entra e sai sem tocar nela
Assim a Virge Maria
P... e ficou donzela

Também aqui no Espírito Santo veio ecoar a bela trova da Virgem Mãe. Temos dela uma versão colhida ali em Defesa (Cariacica), e já por nós divulgada através de A Tribuna (edição de 29 de agosto de 1943). A quadrinha capixaba diz o mesmo que as demais, sem as asperezas que quase todas (mais antigas) apresentam:

Bateu o sol na vidraça
E a lua sem tocá nela
Foi como a Virgem Maria
Foi mãe e ficou donzela

Confrontando as trovas portuguesas com as nossas, nota-se que por aqui houve inversão dos termos e mudança de rima. Em vez de começar pelo verso No seio ou No ventre da Virgem...quase todas as versões brasileiras patenteiam, de logo, o termo da comparação: como o sol (a luz) pela vidraça, verso por que, geralmente, terminam as trovas lusas.

Posta a vidraça no primeiro verso, lá se foi a rima com Graça, que tanta beleza dá à trovinha popular.

Na versão capixaba há o encaixe da Lua,evidente deturpação do termo Luz, que aparece na variante de Leonardo Mota.

Neste dia de Natal, não sei de tema que melhor pudéssemos versar, que esse No seio da Virgem Maria.

 

(Neves, Guilherme Santos. "No seio da Virgem Mãe". A Gazeta. Vitória, 25 de dezembro de 1959)
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