Tenho escrito muitas coisas
Por este mundão de fé
Na poesia de cordel
Tenho ciência e mister
Mas no prazer de escrever
Nada me dá mais prazer
Do que falar de Sumé
A terra de São Tomé
No Cariri do estado
Que me hospedou por um ano
Como seu filho adotado
Só me deu felicidade
E também a liberdade
De conhecer seu passado
De tudo ali pesquisado
Dois assuntos publiquei:
A Cruz da Moça de Amparo
Em poesia comentei
O grande Zito Siqueira
Sua história verdadeira
Sua vida e sua grei
Agora relatarei
Sem cometer desatino
Outro assunto que eu conheço
Desde que eu era menino
Me aprofundei na história
Para falar sobre a glória
Do grande Zé Marcolino
Três cidades e um destino
Marcam sua trajetória
Porém nenhuma das três
Conseguiu cantar vitória
Pois ele se fez estrada
Se foi pra Serra Talhada
De lá pra o Reino da Glória
Zé começa sua história
No solo caririzeiro
No Sítio Várzea nasceu
Sendo o filho derradeiro
De um casal de muita fé
Que tinha antes de Zé
Vinte meninas primeiro
A cidade de Monteiro
Reivindica o nascimento
Prata, também em litígio
Está no recenseamento
Mas tem Sumé, afinal
Essa região rural
Registrada em documento
Hoje, já tudo é lamento
Zé não está mais aqui
Resta somente a lembrança
De quem tanto nos fez rir
Cantando suas canções
Unindo duas regiões
Pajeú e Cariri
O poeta Kiriri
Por Zito Júnior lembrado
Pelo Sala de Reboco
De Duda homenageado
E por quem o conheceu
Em Sumé, no seu museu
É por Danda venerado
O poeta injustiçado
Que aqui eu descrevo em verso
Com suas composições
Fez gente criar progresso
Luiz Gonzaga emplacou
Porém o abandonou
Por motivo controverso
Depois de muito sucesso
Luiz, já reconhecido
Desprezou o seu parceiro
Que não se deu por vencido
E com tristeza e emoção
Respondeu a traição
Compondo Santo fingido:
"Você matou minha fé
Não quis matar minha sede
O santo que não me ajuda
Pode cair da parede
Pensei que a nossa amizade
Durasse pra toda vida
Não foi correspondida
A minha boa vontade
Você com sua maldade
Um futuro destruiu
Feriu quem não te feriu
Sem razão, não sei porquê
Tudo que eu fiz por você
Você não retribuiu
Esta frase muito rica
Usava um meu parente
Quem não olha para a frente
Tropeça e atrás se fica
Se você me critica
E me procura, mas não vá
Que eu também não vou lá
Devido ao que aconteceu
Pegue o seu, dê cá o meu
Fique lá que eu fico cá"
Marcolino era instruído
Na cidade se deu bem
Na roça era bom matuto
Não desprezava ninguém
Amante da natureza
Cantou no campo a beleza
De tudo que o campo tem
Fez Cantiga de vem vem
Cantou Pássaro carão
Pássaro fura barreira
E outras aves do sertão:
Rolinha branca, sapeca
Cantou Sabiá na seca
Reclamando do verão:
"Eu também sou como tu, sabiá
Também sinto a mesma dor
Eu cantava todo dia, sabiá
Quando tinha meu amor
Esse mesmo foi-se embora
Uma crise arrebatou
Numa era traiçoeira
Veio a seca e carregou"
Numa Boca de caieira
Escreveu com Zé Mocó
E com Saudade imprudente
Lembrava do seu xodó
Uma cabocla trigueira
Morena pajeuzeira
Rainha do mocotó
No coco ou forrobodó
Teve boa atuação
Com qualidade escrevia
Xote, pagode ou baião
Um Caboclo nordestino
Como esse Zé Marcolino
Tem poucos no meu sertão
"Em tua humilde palhoça
Só se ver felicidade
E quando chegas da roça
Te sentas mesmo à vontade
Pra comer teu prato feito
Na mesa ou mesmo no chão
A filharada em rebanho
O teu prazer é tamanho
De quem possui um milhão"
Fez um Pedido a São João
Recordando o Ceará
Escreveu Eu e meu fole
Pra "cabocada" dançar
Tirou Fogo sem fuzil
Quando escreveu Currupio
Gravada por seu Vavá
Na arte de improvisar
Zé também passou na prova
Tudo que ele compôs
Ainda hoje se renova
Do seu Tempo de criança
Resta do amigo a lembrança
E a matéria na cova
Fazendo Cacimba nova
Cantou e aboiou bem
Fazendo Serrote agudo
Abandonada ao além
Cantando festa de gado
Foi poeta injustiçado
Mas nunca feriu ninguém
"Vaqueiros e moradores
Encantos, belezas mil
Onde reinava os fulgores
De um major forte e viril
Rijo, porém animado
Fazia festa de gado
Onde vaqueiro afamado
Campeava todo dia
Hoje, sem major sem nada
Só se ver porta fechada
Não se ver mais vaquejada
Não reina mais alegria"
Amava e queria bem
O povo caririzeiro
Em Sumé sempre cantava
Julio Preto, sanfoneiro
A cabocla Severina
Excelente dançarina
Teve em Zé um bom parceiro
Na cidade de Monteiro
Tinha amigos de montão
Em Prata, Martim Pelado
De Chico de Zé Durão
Amigo assim era raro
Como diz Vicente Amaro
Completando seu refrão:
"Se o sujeito corta certo
Com nossa rapaziada
Lá não se mede distância
Quando o cabra é camarada"
Cidade Serra Talhada
Marcolino traçou plano
No vale do Pajeú
Reinou como um soberano
Sempre pra baixo e pra "riba"
Pernambuco e Paraíba
Como bom parabucano
"Nossa vida é um engano"
Já dizia Jucelino
Que construiu rodovias
Para encurtar os caminhos
E na estrada do progresso
Do que fez vendo o sucesso
Ele selou seu destino
Assim foi Zé Marcolino
Lá mesmo em Serra Talhada
Com caneta e com poesia
Construiu uma Estrada
Para ir ao paraíso
No seu dia de juízo
Que a vida não vale nada
Se a música foi gravada
Por ele foi no infinito
Deste lado não deu tempo
O destino foi maldito
Mas recebeu o carinho
De Zeto e Bia Marinho
De São José do Egito:
"Seu moço, eu sou a estrada
Que você vive a pisar
Sem a curiosidade
De nem uma vez pensar
Que eu sou a passagem das coisas
Nas devidas direções
Que seguem suas funções
Cada uma em seu lugar
É por mim que se vai tudo
Mensagem do mal e do bem
Os outros resolvem as coisas
Você resolve também
Eu, lentamente aceitando
Pelo direito e a razão
No corpo imenso da terra
Eu sou um traço no chão
E no livro aberto da vida
Sou ponto de exclamação
Se às vezes ganho uma roupa
Que tem o nome de asfalto
É pra o longe vir pra perto
Ficando a distância um salto
Dão a mim, brilha nos outros
E não me serve a lordeza
Eu sou o centro econômico
Que leva e traz riqueza
Veja bem como trabalho
Pra você sem ganhar nada
E disposta a receber
Do mais fraco ao mais possante
Você é o viajante
Seu moço, eu sou a estrada"
Lá mesmo em Serra Talhada
Zé foi homenageado
Com um CD de treze faixas
Por um conjunto afamado
Nele A estrada figurou
E o grupo que gravou
É o Quinteto Violado
De tudo que foi gravado
Por gente de profissão
Eu não sei enumerá-los
Com clareza e precisão
Só lembro de Dominguinho
Zeto e Bia Marinho
Paulo Diniz, Gonzagão
Por esta imensa nação
Sua fama se alastrou
Também Genival Lacerda
Sua música publicou
Além do Trio Nordestino
Que teve em Zé Marcolino
Seu melhor compositor
Com orgulho Zé cantou
Salão de barro batido
Compôs Cintura de abelha
Marimbondo, seu marido
Numa sala de reboco
O dançarino "caboco"
Esquece o tempo sofrido
"O marimbondo
Vindo peneirando a asa
Pra entrar em nossa casa
Chega chuva no sertão"
Zeto e Bia, entristecidos
Com uma saudade danada
Apanharam os fragmentos
De sua lavra abastada
E cantaram com emoção
Esta sentida canção
De nome Marculinada
Calou-se a voz que cantava
De minha terra a beleza
E deste sertão de aço
Decantou tanta pureza
Pra quem o feijão no prato
A família em volta à mesa
Era a maior alegria
Incomparável riqueza
Chorou a Rolinha Branca
Bem-te-vi, Passo Carão
Nicodemos já não dança
Xote, pagode e baião
Felizmina vai embora
Diz que não volta mais não
Pois não suporta a saudade
Que aperta seu coração
Até a caixa de fósforo
Seu singular instrumento
Sente a falta do batuque
Com tanto constrangimento
E a pedra de amolar
Já não dá mais polimento
O machado já não corta
Sabiá canta em lamento
Marcolino, enquanto existir
Quem como tu, saiba ver além da
Simplicidade, a beleza das
Coisas do sertão, tu viverás!
Que falta nos faz, poeta
Tua risada gostosa
Sempre uma nova piada
E meia hora de prosa
Vai continuar com a gente
A lembrança permanente
Seu andar meio indolente
Seu ar despreocupado
O seu jeito bonachão
Enquanto existir sertão
Seu nome será lembrado
Marcolino vive!
1930
Estava rindo a natureza
Era véspera de São João
A fogueira estava acesa
Seu Pedro e dona Chiquinha
Ver sua humilde casinha
Receber a realeza
Por obra da natureza
Ou capricho do destino
Setembro de 87
Dia 20, sol a pino
Como um sonho, uma quimera
Deus devolve a primavera
Mas leva Zé Marcolino
Na estrada do desatino
O infortúnio selvagem
Trai um amigo do campo
Tira uma vaca da folhagem
Pra interromper um futuro
Selando com sangue puro
Seu bilhete de passagem
Levo aqui minha mensagem
A Sumé, terra querida
Concluindo meu livreto
Escrito em contra partida
Rememoração dileta
De um homem que foi poeta
Amou e sonhou na vida
José Medeiros de Lacerda tem 59 anos. Vive em Santa Luzia, Paraíba. É professor e funcionário público. Possui mais de 70 cordéis escritos em 30 anos de poesia.
(Lacerda, José Medeiros de. Zé Marcolino, o poeta injustiçado. Folheto de cordel, Série Cantadores, 14)