João do Rio
A pequena borboleta verde pousou de leve na gola do meu casaco.
Se fosse uma borboleta preta eu tremeria. Os homens vivem de ilusões que se tornam abusões. Como era verde, verde do verde tenro dos brotos e das águas — tive um grande contentamento.
— Borboleta verde, que me anuncias de bom?
A borboleta verde adejou. Lembrava uma flor verde no ar dourado. E, tranqüilamente descansou na minha mão.
— Que me anuncias tu? O amor? a fortuna? a alegria?
A borboleta não devia falar. Em geral, as borboletas não falam.
Mas a borboleta verde teve um pequeno riso de diamante.
— Para que tanto perguntas se não crês em coisa alguma?
— Calúnia! Creio nas borboletas verdes, no brilho gemado da cauda dos pavões, na vida radiante, em tanta coisa!
Ela riu mais.
— Pretensioso! Falas assim, com essa ironia porque és talvez o único homem deste país que possui o shaunir.
Dessa vez ri eu. E como via a borboleta bem feminina para conversar longamente, coloquei a esperança alada na corola de uma rosa branca, e com erudição aparente contestei:
— Loucura! Se bem me lembro, o shaunir é no ocultismo uma daquelas pedras que nunca existiram. Como queres tu que eu possua o shaunir, a pedra da felicidade integral? Mas querida flor viva, se eu tivesse o shaunir não teria dívidas, não teria amargores, não trabalharia — o que é a pior coisa inventada pelo homem. Basta de zombaria!
— Acaso ignoras que os melhores amuletos são as qualidades das pessoas? O shaunir não existe de fato. Existe entretanto o sentimento que substitui o shaunir.
— E esse é?
— O que tu és.
— Que sou eu?
— Um homem que quer a felicidade...
— Como todos os homens.
— Apenas os homens desejam-na sempre, e tu finges que a possuis a cada instante. Não tens ódios, não tens invejas, não tens ambições; és bom e não amas particularmente ninguém por muito conheceres a miséria transitória dos sentimentos humanos...
— Quanto custou de experiência!
— Houve experiência, mas não houve dor. Enganado por qualquer homem em negócio ou amizade, tu te deixaste sempre enganar, sabendo, talvez antes dele próprio, que estavas sendo enganado, e perdoando de antemão. De modo que, não poderia haver nunca desilusão. A tua lágrima amarga foi um riso amargo. Depois não acreditaste nunca nem no amor nem na sinceridade, sendo a teu modo sincero — porque desprezas os homens, a ponto de não teres ilusões a respeito, amas todas as mulheres...
— Como amo as borboletas!
— Deixa de frases. Amas por medo — porque sendo as mulheres as únicas fadas da terra, é mais fácil vencer um exército, que vencer a má vontade de uma mulher...
— A má ou a boa vontade...
— Pois claro. Sempre é vontade. Por isso, meu caro, possuis o shaunir, o amuleto da felicidade.
A felicidade é contentar-se como que há, é mesmo quando se quer muito aproveitar sem mágoa o pouco, é ser honesto sem chamar os outros de ladrões e patifes, mesmo quando eles o sejam, é perdoar sorrindo e não se dar mas dar, não se entregar mas entregar, e crer, mesmo sem as possuir, no milagre da beleza e na força das forças agradáveis.
E as forças agradáveis podem ser um pedaço de céu como um objeto de arte, um perfume de mulher, como um cheque de banco, a satisfação de não ser infame ou um belo bife comido com alegria...
A borboleta verde adejou, pairou um instante e alou-se enfim, definitivamente como uma flor no ar da tarde. E eu não sei se realmente a borboleta foi consoladora só ou verdadeira também...
Joe (03 de junho de 1916)