Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

Folclore das cores

João Chiarini

Há que distinguirmos a linguagem da cor em folclore. Poderá ser ela cromática (escalas) e ritual (símbolos).

Na umbanda as vestimentas não traduzem estética, mas valores hierárquicos dos orixás que as vestem acrescidas dos colares lindos, de contas diferentes, de uma ou muitas voltas.

Assim como os cultos sincréticos de raízes africanas. A igreja católica utiliza-se das cores negra e roxa para determinadas solenidades. O negro é falta de luz. Não se origina da combinação de cores da escala primária, secundária etc.

O fumo (de fumaça mesmo) é que significou o luto, o nojo. Mas não é só no rito católico. Encontramo-lo entre os muçulmanos. O fumo, a fumaça, a fumarola são cósmicas. Morre-se e vai-se ao cosmos!

A maçonaria recorre às roupas profundamente escuras para certos atos seus. É rito também. Entretanto, os mesmo trajos em recepções dão-lhes características de rigor, palacianas, solenes. Dependem eles do local onde são apresentados.

O amarelo é cor primária, fundamental, viva. Mas ritualmente é desespero. As moças não o aceitam muito.

A epiderme é uma determinante positiva da escolha da cor. Fundamentalmente importante. O talhe, não implica no gosto, nem a origem étnica.

Há cores que são pronunciamentos biológicos. Dão alegrias. Há as de ordem psicológica. Quando nos vestimos para agradarmos os olhos dos outros.

As estamparias compõem-nas em relação às estações do ano. Daí cores outonais, primaveris. As do inverno e as do verão são menos importantes.

Considerações cromáticas: se dentro daquelas fases do tempo estamparmos cores vivas (quentes), cinzentas (frias, neutras), alegres, tristes, estaremos ritualizando-as porque fugimos dos cânones cromáticos e damo-lhes frisas biológicas, psicológicas etc.

O vermelho é revolucionário, agitação (rito); é cromático, porque está na primeira escala de valores. É a cor que afugenta.

O ignorantão Ademar de Barros mandou trocar a cor do Salão Vermelho, dos Campos Elíseos, mas não tirou da bandeira paulista!!!

Está em muitas bandeiras. Símbolo de luta, de combate. É cor genética. Tem quase preferência ordinal naquelas.

Supera-a o azul, cor do céu. Exemplo — o pendão da França — azul, branco e vermelho. O azul mais próximo do céu, em relação à posição das faixas.

Há cores masculinas e femininas. Com sexo.

O verde é esperança (rito). É secundária (cromática). Verde é mata. Se o amarelo é desespero, é também ouro. Estes tons últimos são ritos, porque símbolos. Cores simbólicas são rituais.

O branco (cromático) é falta de luz. Como representação da paz, da pureza, da virgindade. Evidentemente, na igreja se casaria com o amarelo, pois este, aqui, é púrpura. Cor nobre, vicarial. Ambas as gamas são pontificais.

Há tons necrófilos: o cinza, o roxo, que vemos nos caixões e urnas mortuários. Nas coroas de papel. O sulferino é cadavérico, porque nos dá tal valor.

Os ex-votos (fitas) nas bandeiras do Divino são categóricas representações rituais. Desejos cumpridos beneficamente, ou a cumprirem-se dentro de um lustro, década, quinzena, vintena etc., de anos.

O azul, em muitas nações, é cor nacional. No Brasil não, porque heraldicamente as cores nacionais só podem ser duas para efeitos da diplomacia internacional.

No nosso caso: verde-amarelo. Para o Vaticano branco-amarelo; para o Japão: branco-vermelho etc.

Entre sinais coloridos de advertência e de caráter internacional há: vermelho (perigo), verde (livre), amarelo (espera).

Nunca vimos lenços de bolso, senão brancos. O valor branco significa limpeza, higiene. A moderna técnica hospitalar (Odair Pacheco Pedroso) lançou dólmans azuis-claros.

Os entomologistas poderiam dizer-nos se o azul é repelente à sensibilidade visual dos insetos. Uma vez botaram em nossa cabeça a função biológica dessa cor, justificando-nos pelo seu uso em copas e em material cirúrgico.

Um pano branco preso à baioneta é rendição total. Branco, então, é derrota.

Nas bandeiras nacionais civis ou nas de guerras não se encontram os tons terciários e sucessivos. Não há cruzamentos, pigmentação. Não se lhes combinam senão o verde. Os companheiros destas: o roxo, o violeta e o laranja não são vistos em pavilhões nacionais.

O verde é o mais prostituído da família cromática. Há meio milhar deles. Se bem que o branco é a mãe-de-todos.

A juventude procura cores que não se usavam. Então, correspondem, são mesmo notas cromáticas protestantes.

O azul, o cinza, o roxo claro nos cabelos escondem a senilidade das mulheres.

Vermelho em papéis é corrigenda, revisão, chamamento de atenção. O azul é a cor oficial, aceita no petitório e no papelório. Faça uma inicial ao juiz em tinta verde e ele a indeferirá.

Há moças que são tinturarias (vestes de cores muitas); árvores de Natal (cheias de complementos) e os tipos bolos-de-coco (repletas de adereços).

No I Festival de Folclore de Piracicaba (30/09/1967) as roupas de quase todas as festanças foram cromáticas. Panos doados em 21/09/1967 pelo DMT local, os quais estiveram ilustrando a frente da Catedral. A do batuque, vestimenta branca, é ritual. Porque a dança é da procriação, logo cor virgem. É aqui a presença do simbolismo. Porque, na verdade, as negras eram setuagenárias e algumas já bisavós.

É sensato também que digamos, já e agora, que com uma dotação de NCr$ 200,00 (duzentos cruzeiros novos), oriundo do DMT, adquirimos outros tecidos. Do DMC chegou-nos 800 cruzeiros novos. Daquele ainda quinhentos cartazes e três troféus. Tudo entregue a nós antes do I Festival. Com isso fizemos o maior e mais popular encontro de cores, danças, cantos, músicas e instrumentos.

 

(Chiarini, João. "Folclore das cores". Jornal de Piracicaba. 22 de outubro de 1967)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005