Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 86
Janeiro de 2006
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Olhado

José Pimentel de Amorim

Olhos maus, no conceito popular e de crença universal, alteram a saúde, e se a doença é provocada por mau olhado, imperam, então, as rezas e as benzeduras, que outro remédio não há. Criancinhas, mas também adultos, elas, porém, as mais atingidas, razão por que rezadeiras, seja qual for o mal, logo rezam para olhado.

Fulano, se foi mulher, se foi moça
Ou se foi velha, ou se foi negra
Ou se foi menino que te botou olhado
No teu cabelo, na tua cor
Nos teus olhos, na tua boniteza
Na tua feiúra, na tua magrém
Nos teus braços, nas tuas pernas
Na tua esperteza
Para que não me diziria
Que eu te curaria
Com os poderes de Deus e da Virgem Maria
Com um Padre Nosso e uma Ave Maria
Fulano, Deus te fez, Deus te criou
Deus te acanhe quem te acanhou
Olhado vivo, olhado morto
Olhado excomungado
Vai-te para as ondas do mar sagrado

Esta outra oração:

Fulano, o Pai te acompanhe
O Filho te dá luz
Te valha os poderes de Jesus
Jesus Cristo queira te valer
Te dê força e sustança
Para as palavras de Jesus Cristo receber
A tua saúde Jesus Cristo queira te conceder
Fulano, se tu tens olhado
Vento ruim, vento mau
Sezão, maleita e impaludismo
Bruxaria, feitiçaria
E espírito mau, espírito atrasado, preocupados
Malvadeza, coisas feitas, rastro apanhado
Credos encruzados
Para que tu não me dizia
Que eu vou rezar
Jesus é quem vai te curar
Com as três palavras de Deus
E da Virgem Maria
Que é Pai, Filho, Espírito Santo
Um só Deus verdadeiro
Fulano, com dois te botaram
Com três Deus arretira
Com as três palavras de Deus
E da Virgem Maria
Com as três palavras da Virgem Maria
Do teu corpo eu arretiro
O olhado, quebrante, ruindade
Mofineza, caiacanga, olhos maus
Vistas crescidas, vento ruim, vento mau
Sezões, maleita, impaludismo
Xaqueca, rastros apanhados
Credos encruzados
Todos estes males apartados
E desterrados e desmanchados
Pras ondas do mar sagrado
E cá mais nunca voltará
Que ao teu lado Deus está
Para te salvar de todo mal
Fulano, se te botaram olhado
Na tua saúde
Virgem Pia
Se foi na tua esperteza
Nossa Senhora da Guia
Se foi no teu trabalho
Se foi na tua beleza
Se foi no teu trajar
Ave Maria
Se foi nas disposição da tua comida
Se foi nas tuas forças
Credo em cruz, Ave Maria
Se foi nos teus olhos
Senhora Santa Luzia
Olhado branco, olhado preto
Olhado estuporado, olhado excomungado
Olhado amaldiçoado, olhado abençoado
Todos esses males do teu corpo apartado
Botado pras ondas do mar
Com os poderes de Deus e da Virgem Maria
E o divino Santíssimo Sacramento do altar
Fulano, se te botaram olhado pelas tuas costas
São Costa
Se foi pela tua frente
São Vicente
Fulano, Jesus por ti
Jesus é pai de ti
Fulano, tendo Deus Jesus por ti
Ninguém pode ser contra ti
E tem a flor de Jesus
E tem a hóstia consagrada
E tem o mistério da cruz
O teu corpo é uma cruz
Dada por Jesus
Fulano, Deus te fez, Deus te gerou
Deus te criou, Deus te desacanhe
Acanhe a quem te acanhou
Sai-te, olhado, vai-te para quem te botou
Vai-te para quem te olhou
Vai-te para quem desejou
Com os poderes de Deus. Assim seja
Fulano, sangue de Jesus te lavou
Sangue de Jesus te alimpou
Com o sangue de Jesus estás lavado
Estás limpo, estás curado
Quem com o sangue de Jesus se lava
Vive salvo

Padre Nosso, Ave Maria, Salve Rainha e o Credo.

 

(Amorim, José Pimentel de. Medicina popular em Alagoas. Maceió, Departamento Estadual de Cultura, 1963, p.22-25 (Estudos Alagoanos, 19))
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