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O vocabulário de minha avó

Brito Broca

Muitos dos provérbios de minha avó, dos termos tão pitorescos do seu vocabulário — por vezes modismos, que vinham do tempo do império — me ficaram para sempre na lembrança identificados com a sua imagem. Se já me acontecera ouvi-las em outros lábios, nos de minha avó possuía uma tonalidade específica que se conjugava com as expressões daquele rosto magro e enrugado, daqueles olhos mansos, mas vivos, sempre a acompanhar-me numa incansável vigilância.

Que esforço para ela descobrir a causa do meu desconforto, das minhas atitudes irascíveis, tão sem cabimento, às vezes, dessa adolescência cheia de queixas e de nervos à flor da pele. E então vinha a conjectura:

— Sabe! Neste mundo, desde criança, a gente precisa ter alguma coisa em vista.

Era perfeito, como sabedoria. Nunca imaginaria que num poema de Baudelaire, muitos anos depois, iria encontrar, sob outra forma, esse pensamento de minha avó: embriaga-te de vício ou de virtude. Ter qualquer coisa em vista, quer dizer, estar sempre absorvido, "embriagado" por uma idéia ou propósito. É essa embriaguez que não nos deixa lugar para o tédio, o desconforto. Minha avó sentira, desde cedo, a falta de norte, do rumo da minha existência. Não me escaparia a nota de melancolia que ela punha nessa observação.

Agora ressentida com as minhas queixas e interpelações, quando eu a acuso de não me deixar divertir, de me tolher os movimentos, impedindo-me de seguir os outros garotos em tropelias pela rua, adverte-me:

— Está bem, só sei dizer uma coisa: atrás de mim virá quem muito bom me fará.

Esse provérbio terrível caía como água na fervura nos meus argumentos. Pois se me exasperava, se dizia quase aos gritos, que tinha o mesmo direito dos meninos da minha idade, ela completava o sentido da frase, apontando para o lado do cemitério, na zona sul da cidade e considerando entristecida:

— Espere, quando eu estiver lá, no cemitério dos Passos, você ficará sossegado e poderá divertir-se à vontade.

Era como se sugerisse a conclusão: mas então há de ter outros aborrecimentos bem maiores que o hão de levar a lembrar-se com saudade, das mágoas de que me acusa.

Agora, vejo-a conversando na sala de jantar, enquanto de agulha de dedal faz um remendo numa camisa. Falam de uma pessoa que sendo de origem humilde, de família pobre, tem o costume de procurar a companhia de gente da alta burguesia da cidade, o que lhe acarreta por vezes certos desapontes. Mas a pessoa insiste. Ainda há pouco dias, sofreu por causa disso uma vergonha. Lastimam o fato a minha avó reprova:

— Não está direito. Foi bem feito o que aconteceu. Nós devemos andar com gente da nossa igualha. Lé com lé, clé com clé. No livro de Aurélio Buarque de Holanda vejo esse provérbio formulado de outra maneira: "Lê com cré, cré com lê. Não era assim que minha avó dizia e que Castro Lopes o registra no livro Origens dos provérbios, dizendo tratar-se de uma reminiscência da Idade Média, quando a norma era de que os clérigos buscassem a companhia dos clérigos e os leigos a dos leigos. Leigo com leigo, clérigo com clérigo deu por simplificação: "Lé com lé, clé com clé".

Estava eu no quarto ano da Escola Normal, quando fui acometido por uma fortíssima gripe. Vários dias de febre e, depois uma convalescença morosa, com uma tosse reticente que parecia um verdadeiro flagelo, principalmente à noite, quando me atrapalhava o sono. Os dias passavam e o meu estado de saúde continuava a impedir-me de ir à aula. Se atingisse certo número de faltas perderia o ano e essa idéia me deixava inconsolável. Minha avó também se mostrava acabrunhada, mas dizia que em primeiro lugar estava a saúde:

— Vão-se os anéis e fiquem-se os dedos... — era a sua frase, sempre que eu aludia aquela triste perspectiva. E vinha-me a lembrança de que tais palavras tinham sido pronunciadas pelo padre Antônio Vieira, a propósito de determinado episódio da nossa história, como se lia no compêndio de João Ribeiro. Quando se cuidava de exprimir a imensidão de alguma coisa, minha avó dizia:

— Aquilo é uma babilônia.

Recordando-se das duas viagens que fizera ao Rio, considerava:

— O Rio é uma babilônia.

Parece que se tornara muito comum ao século passado, essa idéia de comparar-se o Rio de Janeiro a uma Babilônia. No Tronco do ipê lemos: "Alguns atribuíam o fato singular às seduções da corte; e protestaram interiormente não casar suas filhas com homens habituados às delícias da babilônia fluminense" (Coleção Saraiva nº 34). E na epístola em forma de poema, que dirigiu a Machado de Assis em 1866, publicado no Diário do Rio de Janeiro, Caetano Filgueiras começa chamando o Rio de "Brasília Babilônia".

Se eu formulo uma conjectura inteiramente errônea, sem base a realidade dos fatos, minha avó sorri e diz:

— Você está zanzando.

É como quem diz: você está sonhando. Não consegui jamais descobrir a origem desse termo zanzando, que decerto não fora inventado por minha avó e provavelmente teria ela ouvido desde os tempos de menina. Viria de banzo, aquela tristeza que acometia como um moléstia os escravos, nostálgicos da terra natal? A palavra sugere qualquer coisa de africana, do falar dos negros. É além disso um pouco onomatopaica: dá idéia de quem vai de um lado para outro, com a cabeça no ar.

— Deixa eu provar esse doce que estás comendo —- dizia ela — me dá só um pouquinho: um és não és.

Nos artigos de Júlio Ribeiro contra o padre Sena Freitas, na polêmica, que se travou entre eles a propósito de A carne, assinalo este trecho: "Proclo inventou uma coisa metafisicamente boa; Bonald a estragou um poucochinho, um és não és." Alude-se às pretensões de alguém que vive a falar de grandezas, sem possuir coisa alguma.

— Coitado! É um lheguelhés e quer ser gente — comenta minha avó.

O Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, hoje simplesmente conhecido como o Dicionário do Aurélio (Aurélio Buarque de Holanda) dá leguelhê, como sinônimo de João Ninguém. Minha avó modificava a primeira sílaba, substituindo o le por lhe.

De um indivíduo que se queixava de aperturas econômicas, dizia ela:

— Como pode ele sustentar a família numerosa, ganhando uma tutencia?

Tratava-se de uma ligeira corruptela de tuto e meia, termo da linguagem familiar, que significa, ninharia segundo registra o referido dicionário.

No Rio de Janeiro imperial de Morales de los Rios encontro a expressão: "pôr sal na moleira" como ficar de sobreaviso, tomar precauções. Minha avó empregava-a num sentido um pouco diferente, quando verificava uma manifestação de ladineza precoce de um dos netos:

— Isto vai dar sal na moleira!... Queria dizer: podemos esperar coisas surpreendentes deste menino.

 

(Brito Broca. "O vocabulário de minha avó". A Gazeta. São Paulo, 13 de junho de 1959)
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