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Jangadas de Ilhéus

L. de Castro Faria

A imagem da Jangada integra a paisagem litorânea tipicamente nordestina, sobretudo as praias e mares cearenses, poetizada pela comovida sensibilidade de Alencar. Na verdade o seu uso se estende muito mais ao sul, até Ilhéus pelo menos ainda hoje é utilizada nas pescarias de mar alto. Será este talvez o limite meridional, da sua distribuição na costa do Brasil.

Os jangadeiros de Ilhéus moram no Malhado. O Malhado é um bairro pobre, bastante afastado do centro urbano, mas pela linha de raias esta em estreita conexão com a chamada Cidade Nova, zona outrora conhecida como Ponta da Areia. Divide-se em duas partes: O Malhado de Cima e o Malhado de Baixo. O primeiro é formado por uma única extensa, plana, com duas fileiras cercadas de casas construídas de acordo com as técnicas populares; fica a meia encosta, em sentido paralelo e no mesmo nível do leito da Estrada de Ferro Ilhéus-Conquista. A sua população é bastante densa e composta não só de operários, como de gente sem ocupação regular. O segundo fica na própria praia de declive acentuado, e apresenta também duas fileiras de casas separadas por um largo espaço vazio. As casas do Malhado são quase todas de taipa, mas em geral cobertas de telha de canal, a mais comum da região. Há várias casas de tijolos, sobretudo no Malhado de Cima, onde existem também diversas casas de comércio. No Malhado de Baixo verifica-se, porém, maior heterogeneidade dos materiais e das técnicas de construção, assim como maior irregularidade na disposição das casas. Causa-nos por isso impressão mais acentuada de miséria e de desleixo.

Quase todos os pescadores do local vivem no Malhado de Baixo, bem próximo do mar e só utilizam jangadas e não canoas, nas suas pescarias, ao contrário do que acontece nas outras localidades próximas. Existem no Malhado vinte e uma jangadas e estavam todas em seco, por ocasião da nossa estada no povoado. De três pescadores pacientes obtivemos uma série de dados interessantes. Nenhum natural de Ilhéus na pescaria de jangada e muito poucos na de canoa, da colônia de Barra do Taipé, onde entretanto são numerosos os valencianos, isto é, baianos do município de Valença. O pessoal no Pontal de Ilhéus, no entanto, forma a maior parte da população pesqueira ali localizada.

As jangadas do Malhado são construídas de pau de jangada, madeira que vem de Olivença ou de Ponta do Ramo. Olivença foi antiga aldeia indígena e na sua população atual ainda se contam muitos caboclos. São eles os melhores apanhadores dessa madeira, que cada dia se torna mais rara. Essas jangadas são pequenas, mussegueiras no dizer dos pescadores, palavra cujo sentido não conseguimos descobrir. O seu comprimento varia de 33 a 38 palmos e são construídas com seis paus roliços. O de fora chama-se papa; o imediato bordo e os do canto chamam-se meios. São, por conseguinte, dois papas, dois bordos e dois meios. As extremidades são chanfradas e recebem o nome de navalhas de proa e de popa. Na popa há um espaço mediano mais largo, no qual é encaixado o remo que serve de leme. A jangada possui três bancos — o de popa sob o qual é amarrado o samburá de peixes, o do meio e o de proa, que recebe o nome de canga. Junto ao banco de popa há uma armação, na qual são dependuradas, as cordas e linhas — tem o nome de aracambu. Utilizam geralmente cordas de embira, de fabricação local e linhas de pesca feitas de algodão, tingidas com "tinta" de murta. A pedra de fundear e chamada de chaxo.

Nessas jangadas usam vela triangular, em mastro preso ao banco do meio — é a mezena. O mastro é feito de pindaíba ou de cunduru, assim como a retranca, pau que serve para distender a vela. A corda usada para o mesmo ramo chamam escota. Para prender a mezena encavilham dois ternos no centro; um terceiro colocado na proa, serve para amarrar a corda. São verdadeiros tornos de madeira resistente, fortemente cravados em sentido oblíquo no pau do meio, à esquerda de quem olha para a proa, isto é, a bombordo. Usam muitas vezes uma segunda vela, menor que a mezena, distendida por meio da espicha, neste caso, espicha da velinha, no linguajar dos pescadores.

Os remos são longos e de pá estreita, feitos de adermo, de peroba ou de massaranduba. Nas jangadas levam sempre um porrete, para matar os peixes antes de colocá-los no samburá.

As jangadas do Malhado levam três pescadores, o mestre, o contra-mestre e o marinheiro. Em geral não são eles os proprietários da embarcação, que vale no mínimo 600 cruzeiros, nem dos aparelhos. Pescam para o dono de tudo, que fica comodamente em terra, de acordo com um sistema convencional de divisão de ganhos, com fortes raízes nas suas tradições piscatórias, pois todos os membros da comunidade o adotam. Explicam esse sistema empregando as expressões: de cinco um, o mestre; de quatro um, o contra-mestre e o marinheiro. Isto quer dizer que de cada cinco peixes qualquer que seja a espécie ou o tamanho, o mestre dá um ao dono da jangada e dos aparelhos; o mesmo fazem o contra-mestre e o marinheiro, para cada quatro peixes que pescam.

A pesca é feita numa base individualista; cada qual é dono daquilo que pescou. Um princípio de solidariedade exige, entretanto, que aqueles que pescaram muito dêem ao que nada tenha pescado uma gratificação, quer em espécie, quer em dinheiro. Cada membro da tripulação de uma jangada dá ao outro o tratamento de companheiro.

As jangadas são tiradas do mar ou para ele conduzidas por meios de rolos, isto é, dois paus roliços, de madeira rija.

Nem sempre a maré é de sorte. Quando não pescam nada, dizem — hoje está uma sereba danada! Ao contrário, quando chegam carregados de peixe exclamam: hoje viemos chapados! A pesca de um bejupirã, que é considerado "o rei dos peixes", obriga o dono da jangada a levantar uma bandeira no mastro da mezena. E assim transcorre, obscura e rude, a vida corajosa dos jangadeiros de Ilhéus.

 

(Faria, L. de Castro. "Jangadas de Ilhéus". O Jornal. Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1951)
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