Contou o senhor Jaime Cortesão, em artigo no Estado, anteontem, que só agora, por ocasião de recente estada em Portugal, descobriu mais um motivo para aumentar e cuidar com zelo sua coleção de galos: a freqüência com que eles aparecem nas artes decorativas portuguesas, desde as grimpas e cata-ventos, em ferro forjado, dos campanários das aldeias, até aos pratos de cerâmica popular e aos bordados a matiz versicolor. Isso convenceu-o de ser o galo um emblema nacional, "qualquer coisa que vem das profundidades históricas e o ergue à categoria de totem de uma grei máscula e descobridora".
Dias antes eu lera, no primeiro fascículo deste ano da revista Folclore, órgão da Comissão Paulista de Folclore, a conferência de Cecília Meireles sobre alguns "aspectos da cerâmica popular" e já me havia chamado a atenção, nela, a referência ao galo como estando sempre presente na cerâmica popular brasileira.
Em Minas encontrou a grande poetisa um tipo de moringa, em forma de galo, "em barro modelado e pintado com tintas frescas". A crista, vermelha, o bico amarelo, o olho arregalado, as penas modeladas sobre o bojo da peça. Foi isso em Juiz de Fora. A verdade, não obstante, — acrescentava a autora de Viagem — é que entre nós existem galos como assovios, galos pintados no fundo de pratos, no bojo dos vasos. Porque o galo — explicava — "está diretamente ligado à vida rural, é uma espécie de relógio de pobre, tem suas relações com São Pedro e com o Natal, andou sempre ligado aos cata-ventos, no alto das igrejas, enfim, é um desses amigos de infância que temos sempre muito prazer em encontrar".
Parece-me precipitado dizer-se, como no artigo do senhor Jaime Cortesão, que o galo na cerâmica popular portuguesa tem honras de "totem de uma grei máscula e descobridora".
Dou de mão beijada tenha a cerâmica popular brasileira refletido a insistência da cerâmica portuguesa, isto é, que o galo no Brasil, como elemento decorativo, denuncie a presença do elemento descobridor e colonizador. Não acredito, entretanto, seja esse elemento decorativo da cerâmica popular monopólio de portugueses. Costumo deter-me a cada passo, junto às vitrinas da cidade, para escolher presentes de aniversário ou de casamento, de dia das mãos ou de namorados, e o que me chama a atenção é o galo em tudo. Galo em objetos de porcelana, da Tchecoslováquia ou da Itália. Já o tenho visto em relógios, estes, de forma redonda, aparecem encaixados na barriga do "profeta da aurora".
Pelo carnaval costumam aparecer brinquedos de entrudo nos quais se reproduz igualmente o galo. É muito conhecido o galo que solta água pelo bico. O brinquedo imita um assobio de barro. A gente assopra na cauda e a água sai pelo bico, assobiando.
A fim de justificar a sua "categoria de totem de uma grei máscula e descobridora", conforme se lê no artigo do senhor Cortesão, fora preciso que o tivessem usado apenas os portugueses, quer nos objetos de cerâmica popular, quer nos cata-ventos, quer nos brinquedos. Fora preciso, além do mais, não tivesse estado o galo presente, como uma espécie de "relógio da traição", no dia em que Judas mentiu a Jesus Cristo já depois de inevitável o Calvário. O galo pertence às religiões e às literaturas. Vem, sem dúvida, "das profundidades históricas", não como "emblema nacional" da raça portuguesa e sim como emblema religioso ou poético de caráter universal.
O galo na cerâmica é uma conseqüência do galo na história, na lenda, na religião e na poesia. Ao epíteto de "profecia da aurora", com que o evoca o escritor português, prefiro o que "relógio de pobre", com que Cecília Meireles o apresenta.
No livro de Ruth Guimarães, Os filhos do medo, reproduzem-se, a respeito das crendices populares ligadas ao cantar do galo, lendas recolhidas por Leite de Vasconcelos, em seus Ensaios etnográficos, e Juan R. Ambrosetti, em Supersticiones y leyendas. Refere-se, aliás, a própria autora, que em toda a área abrangida pelo vale do Paraíba, em São Paulo e no sul de Minas, até Santa Rita do Sapucaí, existe a crença de que os duendes (assombrações e demônios) fogem ao primeiro cantar do galo. Gustavo Barroso, também citado no livro, dá ascendência européia à crença. Em O sertão e o mundo cita o caso do demônio medieval Urjan, afamado cosntrutor de igrejas, que ao ouvir cantar o galo fugiu escondido nas mangas do hábito de um frade.
Rostand fez do galo um personagem declamador de versos alexandrinos, na célebre peça escrita para Coquelin. Vindo, então, das "profundidades históricas", não pertence o galo, com monopólio exclusivo, a nenhuma raça.