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Um condutor poeta no bonde Tijuca

Américo Matos

Quem mora na Tijuca e viaja de bonde tem que conhecer o Quintas, Jacinto Nunes Quintas, o condutor poeta, o homem que, apesar de exercer uma das profissões mais ingratas do Rio de Janeiro, leva a vida como se não pertencesse a este mundo de aborrecimentos e aflições.

Para ele o que importa é fazer versos. Se o bonde está cheio ou vazio, ou se os passageiros gostam ou não da sua poesia, pouco o preocupa. Desde cedinho, quando entra de serviço e até o final do dia, vai improvisando ou repetindo velhas rimas. De tudo faz versos. Qualquer motivo serve para espicaçar a sua veia de poeta, ou, quando não seja, para provar que é um cidadão que sabe levar a vida com bom humor. Quando se apresenta ao passageiro para cobrar a passagem, vai logo dizendo:

Por gentileza
Aqui está o condutor
Que trata a todos com delicadeza

Se o passageiro não entende o fraseado, ele aplica uma nova rima:

Cavalheiro, por favor
Não esqueça de pagar o condutor

Enquanto isso, o bonde vai rompendo o tráfego, conduzindo o seu poeta atento ao sinal dos passageiros descendo aqui e ali, sempre advertidos pela voz do bardo:

O bonde pára na esquina
Pois vai saltar a menina

E mais adiante:

Cegou no ponto de seção
Quem quiser saltar aproveite a ocasião

Quando aparece um fiscal da Light para verificar se está registrando direito as passagens, ele, com um sorriso de ironia, comenta:

Pode ver, seu fiscal
Aqui está tudo legal

Colocando o visto na sua papeleta de serviço, faz tilintar a campainha e prossegue a viagem, fazendo versos e malabarismos para cobrar as passagens.

Quando os automóveis oferecem perigo aos pingentes, não esquece de adverti-los:

Cuidado com a roupa
Que pode virar estopa

Tendo os olhos sempre atentos ao trânsito, não deixa de dar o seu aviso aos colegiais que descem do seu bonde:

Meninos e meninas
Nunca deixem de olhar
Em todas as esquinas
Que pretendam atravessar

Se o bonde pára porque a rua está interrompida em conseqüência de uma colisão de automóveis, ele deixa os estribos balançando a cabeça:

Tudo isso podia ser evitado
Se tanto um como outro
Tivessem mais cuidado

O repórter quis saber a razão do seu bom humor e a resposta veio sem demora:

Era assim que devia ser
Todo empregado
Trabalhar satisfeito
E ser delicado

E completa:

Eu reconheço e com razão
Que tanto não devia aborrecer
Mas é essa minha missão
Fazer versos até morrer

Com o temperamento original e trabalhando no mesmo bonde desde 1934, Quintas conseguiu muitos amigos que gostam de ouvir os seus versos, inclusive algumas moças empregadas em casas de família que puxam por ele. Foi numa dessas ocasiões, em 1938, que conheceu uma jovem e não resistindo aos seus encantos, cantou a sua beleza em versos. A moça sorriu agradecida e daí a poucos meses estavam os dois diante o altar. Dessa união com dona Mabile Ferreira Quintas nasceu a sua filhinha Darci, uma linda menina que atualmente conta nove anos de idade e é a maior admiradora dos seus versos.

Darci, que é filha única do casal, está sendo educada com esmero. Para ela estão todas as atenções do pai que não mede sacrifícios para lhe dar conforto. É um pai feliz que, se antes dizia versos, agora, maior razão tem para prosseguir na sua inspiração de poeta.

Atualmente, Jacinto está afastado do serviço de condução de bondes. Tendo adoecido, encontra-se em tratamento pelos médicos da Caixa dos Servidores da Light. Entretanto, não perdeu o seu tempo em ficar olhando asparedes do seu quarto de doente. Procurou lembrar-se dos versos que diz aos seus passageiros e, escrevendo outros, resolveu reunir tudo num livro que já entregou a uma oficina para editar com o título Poesias de um condutor de bonde. E não pensem que se trata de um livrinho de umas vinte ou trinta páginas. Nada disso, será um volume contendo de 250 a 300 composições. E, como todo escritor que não gosta que suas obras fiquem esquecidas nas prateleiras das livrarias, já está cuidando da propaganda, que, naturalmente, não podia deixar de ser em versos. Ei-la:

Atenção, povo brasileiro
Atenção, povo tijucano
Breve... à venda um livro de poesias
O condutor do Tijuca está fazendo todo bacano

Aguardem dentro de poucos dias
O sensacional livro de poesias
Tendo como autor
Aquele humilde condutor

Companheiros de trabalho
Meus queridos passageiros
Espero que todos comprem um livro
Estrangeiros e brasileiros

Termina o prospecto dizendo:

"À venda nas bancas de jornais da Tijuca, livrarias e com o autor".

Ao ensejo da passagem do aniversário de Última Hora, Quintas inspirou-se e nos mandou a sua saudação num soneto:

Salve aniversário de Última Hora
Salve doze de junho de cinqüenta e três
Glória à Última Hora cada vez melhor
Vamos! Vamos! Comprar mais uma vez

Última Hora é um grande jornal
É um orgulho para todos no Rio de Janeiro
Leio com satisfação e mando para Portugal
Entre muitos jornais, para mim é o primeiro

Salve todos diretos da Última Hora
E todos que trabalham na ocasião atual
Todos a devem comprar, vamos! Embora!

Não se esqueçam os do Brasil e os de Portugal
Última Hora é o melhor do Distrito Federal
Vamos! Vamos! Todos comprar pessoal!

 

(Matos, Américo. "Um condutor poeta no bonde Tijuca". Última Hora. Rio de Janeiro, 22 de junho de 1953)
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