Havia lá pra riba da serra um fazendeiro que possuía muitos alqueires de chão. A gente andava léguas e léguas na sua fazenda inté o sol se pôr e ainda muito havia de andar pra chegar na divisa de suas terras.
O fazendeiro plantava café. O café brotava, dava frô, dava cereja, mas o cafezal não era bom, não.
Uma tarde chegou à fazenda e pediu pousada um viajante que vinha de São Paulo a caminho de Parati.
Conversa vai, conversa vem, o hóspede falou pro fazendeiro:
— Bela plantação de café tem vosmecê do outro lado do morro.
O fazendeiro se espantou:
— Qual! Lá só tem uns pezinhos de café.
— Qual o quê! Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, o mais belo cafezal do mundo...
O fazendeiro teimou. O viajante jurou que vira. Foram lá pra acabar com a discussão. Que surpresa para o hóspede! Não havia cafezal nenhum. Tudo desaparecera...
Pouco tempo depois, um tropeiro que parara no terreiro para receber cargas, repetiu a mesma coisa. Vira um belo cafezal detrás do morro...
Foram ver (diacho!) não estava lá o cafezal...
A mesma coisa aconteceu com peões, tropeiros, carreiros, escravos, viajantes, muita gente, que passava lá na outra banda da estrada, via o cafezal, mas se ia procurá-lo, o cafezal fugia.
O próprio fazendeiro, um dia, lá do alto de outro morro, ficou boquiaberto. Vira o formoso cafezal. Estava todo em flor. Ao aproximar-se, o cafezal desapareceu.
O cafezal era encantado. Todos viam ele de longe, mas porém nunca ninguém conseguiu colher as cerejas tão cobiçadas.
É versão muito vulgar no vale do Paraíba e na serra da Bocaina.