Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 86
Janeiro de 2006
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O cafezal encantado

Joaquim Ribeiro

Havia lá pra riba da serra um fazendeiro que possuía muitos alqueires de chão. A gente andava léguas e léguas na sua fazenda inté o sol se pôr e ainda muito havia de andar pra chegar na divisa de suas terras.

O fazendeiro plantava café. O café brotava, dava frô, dava cereja, mas o cafezal não era bom, não.

Uma tarde chegou à fazenda e pediu pousada um viajante que vinha de São Paulo a caminho de Parati.

Conversa vai, conversa vem, o hóspede falou pro fazendeiro:

— Bela plantação de café tem vosmecê do outro lado do morro.

O fazendeiro se espantou:

— Qual! Lá só tem uns pezinhos de café.

— Qual o quê! Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, o mais belo cafezal do mundo...

O fazendeiro teimou. O viajante jurou que vira. Foram lá pra acabar com a discussão. Que surpresa para o hóspede! Não havia cafezal nenhum. Tudo desaparecera...

Pouco tempo depois, um tropeiro que parara no terreiro para receber cargas, repetiu a mesma coisa. Vira um belo cafezal detrás do morro...

Foram ver (diacho!) não estava lá o cafezal...

A mesma coisa aconteceu com peões, tropeiros, carreiros, escravos, viajantes, muita gente, que passava lá na outra banda da estrada, via o cafezal, mas se ia procurá-lo, o cafezal fugia.

O próprio fazendeiro, um dia, lá do alto de outro morro, ficou boquiaberto. Vira o formoso cafezal. Estava todo em flor. Ao aproximar-se, o cafezal desapareceu.

O cafezal era encantado. Todos viam ele de longe, mas porém nunca ninguém conseguiu colher as cerejas tão cobiçadas.

É versão muito vulgar no vale do Paraíba e na serra da Bocaina.

 

(Ribeiro, Joaquim. Os brasileiros. Rio de Janeiro, Pallas; MEC, 1977, p.276-277)
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