Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 86
Janeiro de 2006
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Teresa Bicuda

José Aparecido Teixeira

Ilustração de Marcos Jardim No meio religioso e de extrema moralidade da antiga Vila de Jaraguá, Teresa Bicuda era uma aberração social.

Descrente, nunca visitava a igreja.

Quando era forçada a passar diante de alguma, virava o rosto e praguejava baixinho. A protuberância esquisita dos seus lábios mal feitos valeu-lhe o apelido de Teresa Bicuda. Trabalhava aos domingos. Pra que o povo visse que não respeitava as tradições eclesiásticas.

Era a ofensa à consciência das velhas beatas, que diariamente freqüentavam as igrejas e capelas de Jaraguá. O terror da meninada vadia. Os homens, não a temendo, desprezavam-na.

Um dia, Teresa Bicuda morreu.

Nem uma lágrima surgiu de algum olho cristão. Não merecia lágrimas nem piedade quem não soubera viver e não chamara o padre no seu último momento.

Era costume colonial enterrar os defuntos no corpo das igrejas. Não havia ainda cemitérios em Jaraguá. A capelinha do Rosário, situada ao sopé de suave colina, sempre fora a depositária dos corpos pobres, que não podiam ter o luxo de serem enterrados dentro da matriz. Na capelinha do Rosário foi então enterrada Teresa Bicuda, sem cerimônia preliminar.

Por três noites consecutivas, ao soar da meia-noite, a população ouvia medrosa os gritos que soltava Teresa Bicuda pedindo que retirassem o seu corpo de dentro da capelinha. Ali não era o seu lugar na morte, como não fora em vida. Ao final do terceiro dia, à meia-noite em ponto, Teresa Bicuda saía do seu túmulo e percorria as ruas quietas da vila, gritando desesperadamente.

O terror gelava os que a ouviam. Daquela noite em diante, os notívagos viam sempre surgir lá no fim da rua um imenso vulto branco a correr, deixando cair das suas vestes sujas línguas de fogo, que enchiam o ar do cheiro desagradável de enxofre. Por onde passava, iam ficando os vestígios de seus pecados.

A grama queimada, secava. Os animais traziam pêlos sapecados.

O povo quis pôr um termo ao martírio que vinham sofrendo. E os homens mais corajosos da vila exumaram Teresa Bicuda e levaram seu corpo, já em vermes, para a serra de Jaraguá.

Ali, num lugar pedregoso o jogaram. Um forte cheiro de enxofre enchia o ar.

No local numa mais surgiu uma planta, mas também Teresa Bicuda não mais aterrorizou com seus gritos a pacata população jaraguarense.

 

(Teixeira, José Aparecido. Folclore goiano; cancioneiro, lendas, superstições. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1979, p.208-209 (Brasiliana, 306))
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