Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Janeiro 2006 - Ano X - nº 86


Sumário

Festança
O povo louva a São Sebastião
Guilherme Santos Neves

Instrumentos musicais e danças dos negros
Robert Walsh

O enterro da cabeça do boi
Abelardo Duarte

Cancioneiro
Florioso

Moda dos canarinhos
Pascoal Baer Guimarães

Belíssimo dicionário das moças
José Pedro Pontual

Imaginário
Teresa Bicuda
José Aparecido Teixeira

O cafezal encantado
Joaquim Ribeiro

A centenária
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau
A moqueca

Baunilha
Richard Burton

Aguardente
José Pimentel de Amorim

Oficina
Um condutor poeta no bonde Tijuca
Américo Matos

O galo na cerâmica
Francisco Pati

Jangadas de Ilhéus
L. de Castro Faria

Palhoça
A grande feira da Bahia

Touradas
Rubens de Mendonça

O vocabulário de minha avó
Brito Broca

Panacéia
Bons e maus sinais

Ano Novo
J. Monteiro

Olhado
José Pimentel de Amorim

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Instrumentos musicais e danças dos negros

Robert Walsh

Os negros trazem consigo a sua linguagem e os seus costumes, que continuam no Brasil, idênticos aos do seu lugar de origem, de onde vieram muito recentemente. A linguagem é tão diversificada por dialetos que uma tribo não compreende a língua da outra. Quando escravos de uma mesma casta trabalham juntos, eles se movimentam ao som de certas palavras, entoadas numa cadência melancólica, começando numa nota mais aguda e terminando numa mais grave. Formando uma longa fila, carregando coisas na cabeça, eles cantam enquanto caminham, e isso pode ser visto todos os dias em quase todas as ruas do Rio. Parecia-me tratar-se de uma espécie de canção nacional e fiquei particularmente curioso para saber o seu significado, mas ninguém soube interpretar as palavras para mim; e os negros, quando consultados, não quiseram dizer ou fingiram não saber, como se se tratasse de algo secreto, do qual fizessem mistério.

Sua música utiliza vários instrumentos. O primeiro consiste numa espécie de guitarra tosca, feita com uma cabaça atada a uma vara, sobre a qual é esticada uma única corda feita de tripa e que é tocada com o auxílio de um tosco arco de crina de cavalo. Três ou quatro notas muito plangentes se fazem ouvir quando é passado o dedo ao longo da corda. Geralmente o menestrel toca para um grupo de pessoas sentadas à sua volta, formando um círculo, as quais cantam em coro acompanhando a música. Outro instrumento é composto de uma meia cabaça contendo uma série de varetas de ferro dispostas paralelamente e achatadas numa das extremidades, semelhando as teclas com os polegares, obtém-se um som tilintante, como o de uma espineta. Esse instrumento é muito popular. Todo escravo, logo que pode, arranja um, e enquanto se esfalfa na sua vida de labuta, vai arrancando dele notas singelas, que parecem aliviar o seu fardo, como se fosse sua grata testudo, laborum dulce lenimen. Há ainda um terceiro instrumento, feito com uma simples corda esticada sobre uma vara de bambu, à semelhança do que já descrevi antes para você e que vi na Chapada do Mato, em Minas Gerais.

Esses instrumentos são usados sozinhos ou com acompanhamento de canto. Creio que são geralmente conhecidos pelo nome de marimba, embora o termo se refira mais especificamente ao que é feito com varetas de ferro. Há ainda outros, usados para acompanhar as danças, que são uma das paixões dos negros. Um deles é feito de tronco de árvore oco, coberto numa das extremidades com um pedaço de couro bem esticado. O executante fica montado sobre o tronco e bate com as palmas das mãos sobre o couro, produzindo um som muito alto, que é ouvido a grande distância. Esse tambor provoca uma reação extraordinária em todos os negros situados dentro do seu raio de alcance. Há um pequeno relvado em São José, perto do Chafariz, onde os negros se reúnem todos os domingos, para dançar. O tocador bate no tambor convocando os dançarinos. As primeiras batidas, que são ouvidas por toda a cidade, têm um efeito eletrizante; os negros surgem de todos os pontos, e em pouco tempo sua alegria chega às raias do frenesi. Eles dançam, cantam, berram, fazendo ecoar a sua algazarra por toda a redondeza.

Em lugar desse tambor às vezes são usados dois ossos, que os dançarinos batem um contra o outro. O acompanhamento é feito por um instrumento do tamanho de uma pimenteira tendo no interior alguma coisa chocalhante; é dotado de um cabo, e quem o mantém acima das cabeças dos participantes. Enquanto o resto bate os ossos um contra o outro, ele sacode o chocalho, marcando assim o compasso. Essa maneira de marcar o ritmo da dança foi observada por mim em Matança.

As danças começam com um movimento lento de duas pessoas, que se aproximam uma da outra com um ar tímido e hesitante, depois recuam envergonhadas; paulatinamente, o ritmo da música vai-se acelerando, a timidez vai diminuindo e a dança acaba adquirindo um caráter indecoroso totalmente impróprio para ser visto ou descrito. Às vezes, a dança é diferente, com os dançarinos dando saltos, gritos, lançando os braços acima da cabeça uns dos outros com ar feroz. A primeira é uma dança amorosa, a segunda uma dança guerreira. A dança parece ser a grande paixão dos negros e seu grande consolo, tornando suportável a sua escravidão. Segundo pude observar, toda vez que um grupo deles se encontrava na rua, na estrada ou na porta de uma venda, eles logo organizavam uma dança; e quando não havia nenhum instrumento disponível, o que era raro acontecer, eles usavam sua própria voz. Em todas as fazendas onde há um certo número deles, a noite de sábado é sempre dedicada a um baile, após as labutas da semana. Uma fogueira feita com lenha ou sabugo de milho é acesa num galpão, e ali eles se reúnem e dançam até o dia amanhecer.

(Walsh, Robert. Notícias do Brasil; 1828-1829. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1985, v.2, p.157-158)

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