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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

O povo louva a São Sebastião

Guilherme Santos Neves

São Sebastião é um dos santos mais queridos e festejados no Espírito Santo. No dia a ele consagrado — 20 de janeiro — além das missas, rezas, ladainhas e procissões do ritual da igreja, há o louvor popular através de folganças velhas que, todavia, apresentam conteúdo maior de vera contrição e religiosidade, expresso nos atos e nos cânticos dessas representações folclóricas.

É assim, por exemplo, no alardo, de Conceição da Barra — auto secular dramatizado, onde lutam mouros e cristãos, empenhados na posse exclusiva da imagem de São Sebastião. No final, após a procissão, os mouros, vencidos, são batizados à porta da igreja, e, reconciliados com os cristãos, assistem à missa vespertina, fecho religioso das festividades. (...)

É também, assim, em homenagem a São Sebastião, em algumas puxadas de mastro, como — por exemplo — em Nova Almeida e na praia de Manguinhos. Acompanhados de bandas de congo, o mastro e a bandeira do santo são conduzidos até a igreja, diante da qual se realiza o último ato da festa popular: a fincada do mastro.

Há, por vários recantos da terra capixaba, folias de Reis (Bandeiras e Ternos) que louvam a São Sebastião. (Daí por que o ciclo natalino desses Reis se prolonga até 20 de janeiro). Em Manguinhos há (ou houve) folias desse santo, entoando-se, então, versos populares como este:

Meu Santo Sebastião
Mora nas ondas do mar
Traz um cálice de ouro
Para os anjinho adorar...

Sei — por informações — da existência de ternos, bandeiras e folias de São Sebastião em outros lugares: Itaguaçu (Italu, Panerama, Itaimbé...), Santa Teresa (São João de Petrópolis, Cachoeira do Mutum...), Santa Leopoldina, Anchieta (Baixo Pongal, Ubu, Ponta dos Castelhanos, Arerá, Três Barras...), Mimoso do Sul, Alfredo Chaves, Barra do Riacho, Colatina, Viana... Por vezes, a folia de Reis de 6 de janeiro passa a ser folia de São Sebastião, adaptando-se as bandeiras. Outras vezes, a folia é originariamente de São Sebastião. Em Itaguaçu entoam cantos como estes (de Itaçu):

São Sebastião ia indo
Em sua casa parou
Sabendo que aqui morava
Um filho que Deus criou

Senhor dono da casa
São Sebastião vem visitar
Vem pedir uma esmola
Para uma missa celebrar

Deus lhe pague esta esmola
Que (nos) deu de coração
É para celebrar uma missa
Pro marte São Sebastião

O Reis de boi da Bugia (Conceição da Barra) também louva (ou louvava) a Santo Sebastião. Dramatização que lembra as primeiras formas do teatro popular no Brasil, nela, nos cantos dos marujos — propriamente da folia — se entoam versos ao santo mártir. Por exemplo:

Ó, meu santo Reis
Ói que santo lindo
Ói que adorado
Santo Sebastião
No vosso dia festejado

Graças a informe inicial do meu querido amigo Renato Pacheco — posteriormente confirmado aqui, no dia do desfile dos grupos folclóricos em Vitória — sabemos que os cabocleiros de Mantenópolis são um grupo que festeja e louva a São Sebastião.

O professor Renato — que através de A Gazeta (edição de 24 de agosto do ano passado) nos deu as primeiras notícias desse "brinquedo de caboclos" — divulga aí alguns versos colhidos dos caboclinhos do Alto São José:

Mártir São Sebastião, ai
Sendo nosso advogado, ai
Todo varado de flecha, ai
Neste toco amarrado, ai...

São Sebastião, santo Cristo, ai
Santo mártir glorioso, ai
Que nasceu cá deste mundo, ai
Sempre pra nosso favor, ai

Também nós — pudemos recolher ali no Parque Moscoso, durante a exibição do grupo, na noite de 8 de setembro — estes versos que os cabocleiros cantavam na interessante dança das fitas:

Nós somos cabocleiros
Do mártir São Sebastião
Tamos fazendo nossa crasse
Todos de fita na mão

Fazendo a nossa crasse
Todos de fita na mão
Comecemos lá de cima
Vamos rematá no chão

Vamos rematá no chão
Todos de fita na mão
Vamos fazer nossa crasse
Do mártir São Sebastião

Como se vê, em vários recantos do nosso estado, nessas (e talvez em outras) representações, o povo simples, de modo pitoresco e singelo, presta suas homenagens a São Sebastião.

E porque nesse preito de louvor há muito de contrição e de sinceridade — é dever de todos, principalmente dos ministros da igreja católica — darem-lhe o mais decidido apoio e o melhor dos estímulos, para que não pareçam essas velhas tradições, e, da mesma forma, não arrefeça no espírito e no coração da nossa gente humilde, a devoção — há tantos anos enraizada — a santos como o glorioso São Sebastião.

 

(Neves, Guilherme Santos. "O povo louva a São Sebastião". A Gazeta. Vitória, 20 de janeiro de 1959)
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