Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 86
Janeiro de 2006
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Belíssimo dicionário das moças, por José Pedro Pontual



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Belíssimo dicionário das moças

José Pedro Pontual

Pontual vai descrever
Um belo dicionário
Para a pessoa que ama
Não fazer nada ao contrário
Esse daqui vai servir
Como grande calendário

Tem homem que vive triste
Porque nada compreende
Às vezes uma moça acena
Porém ele não entende
Agora com esse aqui
Qualquer um rapaz aprende

Porque cupido é um ser
Que atrai qualquer cristão
Entra sem ninguém sentir
Dentro de um coração
Por fraco que seja o homem
Sem querer sente paixão

Um amor é puro e santo
E sempre sugestiona
Uma jovem muito bela
Muitas vezes impressiona
Cupido fica sorrindo
Quando um ente se apaixona

Preste atenção nos acenos
Pra não se culpar de mim
A moça olhando o rapaz
E mostrar um trancelim
Está jurando que nunca
O seu amor terá fim

Você querer uma moça
Ela não querer você
Mostrando um espelho indica
Eu não quero nem lhe vê
Se enxergue cabra besta
Barriga de zabelê

Uma mocinha acenando
A um rapaz que não entende
Mostrando uma folha verde
Você não me compreende
É grande a minha esperança
Meu amor por ti se rende

Se uma moça mostrar
A um rapaz uma faca
Indica que deu-lhe um corte
Não insista que se ataca
Não preciso de você
Nem pra ser meu corta-jaca

Porém se ela mostrar
Uma fatia de queijo
Está dizendo você
É quem mata meu desejo
À noite nós dois sozinhos
Quero que me dê um beijo

A moça olhar o rapaz
Piscando o olho direito
Diz você já é pra mim
Um santo todo perfeito
Só você, meu queridinho
Ao meu amor dar jeito

Se uma moça mostrar
Uma banana madura
Está dizendo você
Quanto mais mente mais jura
Não merece confiança
Toda moça lhe censura

Uma mocinha fitando
Você com um ar de riso
Está dizendo, meu filho
Do seu amor eu preciso
Pra mim tu és um anjo
Que fugiu do paraíso

Uma donzela mostrar
Para o moço uma pulseira
Quer dizer estou sobrando
E não acho quem me queira
Se mostrar um paletó
Saiba que não sou solteira

Uma rosa no cabelo
A você tenho amizade
Mas sendo uma rosa branca
Que é símbolo de castidade
Porém se for encarnada
Com você há novidade

Uma mocinha mostrando
Um abacaxi maduro
É esperança que tenho
De nos casar no futuro
Lhe espero trinta anos
Pelo nosso amor eu juro

Se uma moça mostrar
Uma pedra de dominó
Quer dizer tu jogas tanto
Que o corpo chega a dar nó
Quem se iludir com você
Termina no caritó

Se uma moça acenar
Mordendo a ponta do dedo
Tá dizendo tu me amas
Porém é cheio de medo
E se mostrar um limão
O teu amor é azedo

Uma moça na janela
Passando a mão no cabelo
Quer dizer eu com você
Não temo ao desmantelo
Porém se vira-lhe as costas
Quer dizer não quero vê-lo

Se uma moça mostrar
Ao moço um sapoti
Quer dizer sou toda sua
Eu só nasci para ti
Quero viver com você
Porém distante daqui

Se uma moça mostrar
Uma pena de papagaio
Quer dizer você não presta
Fala mais do que um raio
Descobre qualquer segredo
E só serve de empaio

A moça acenar ao moço
Mordendo um talo de cravo
Meu querido me perdoe
Se já cometi agravo
Você merece um beijo
Por ser cavaleiro bravo

Um pé de coentro indica
Você é muito enxerido
Um pacote de tempero
És um sujeito atrevido
E se mostrar um repolho
Você é muito metido

Se uma moça mostrar
Ao rapaz um batom
Está dizendo, meu filho
Eu já nasci com o dom
De dançar porque na dança
Chega ser aquilo bom

Também a moça mostrando
Uma corda de violão
Está dizendo eu gosto
Da fuzarca do baião
E entro no carnaval
Chumbrego até com o cão

Mostrando um brinco indica
Meu querido és de pontinha
Se mostrar uma tesoura
Mamãe é muito boinha
Deixa eu ficar no terreiro
Costura a noite todinha

Ela mostrando uma chave
Quer dizer eu vivo presa
Nos laços do teu amor
Juro numa vela acesa
Não me despreze, meu santo
Não mereço malvadeza

Ela mostrando uma trave
Quer dizer teu amor trava
Te faço tanto carinho
Tu me tens como escrava
Se achas que não te amo
Pega um punhal e me crava

Se uma moça mostrar
Uma folha de manga rosa
Está dizendo você
Só tem farrambamba e prosa
Pode tirar o sentido
Que o meu amor não goza

Mostrando um lápis indica
Teu amor foi um papel
Que eu queimei e joguei
A cinza sobre um tonel
Porém se mostra um doce
Teu amor é quase um mel

A moça mostrar ao moço
Um galho de malmequer
Está dizendo sou noiva
Mas namoro quem quiser
Vou gozar a mocidade
Enquanto vida tiver

Você olhar uma dona
Como sempre é de costume
Ela também lhe olhar
Mostrando um vidro de perfume
Quer dizer eu sou casada
Meu marido tem ciúme

Se uma moça sorrindo
Lhe mostrar uma gogóia
Está chamando você
De Zé Ninguém e pinóia
Ainda diz que você
Casando não dá a bóia

A moça mostrando um lírio
Meu filhinho sou toda sua
Mas se mostrar uma agulha
Prefiro ficar na rua
Porque quem casar contigo
Morrerá de fome e crua

Um pé em cima do outro
Com você vivo sonhando
Com as mãos no quarto diz
Por você vivo esperando
Você é quem marca a hora
De nós dois ir se beijando

Termino o dicionário
Todo em poesia pura
Um poeta sonhador
Cria qualquer aventura
Porque tem dom sagrado
Do reinado da natura

Foi um dos maiores dotes
Que ganhei de Deus patrono
Como meu punho poético
Os versos coleciono
Com belíssimos dramas que
Sempre me emociono

Portanto está terminado
O leitor leia e entenda
Nesse daqui você sabe
Treinar para sua prenda
O caso é você e ela
A menina sendo bela
Lucrará o que aprenda

 

(Pontual, José Pedro. Belíssimo dicionário das moças. Olinda, Casa das Crianças de Olinda, 19?? [folheto de cordel])
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