Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

Pastoril dramático familiar

Nação Iaiá Pequena
Cinco batalhões venceu.
No meio de tanta luta
O cachorro não comeu

Depois do falecimento de Chico Cata que era o rei da aruenda (enquanto a rainha cabia a Antônia Ana Seca e a dama do Passo era feita por um preto chamado Felipe Caiador), espalharam que a aruenda ia desaparecer. Foi quando assumiu sua direção um Tomás de Aquino, que levou a Aruenda Iaiá Pequena à rua, fazendo cantar os seguintes versos:

O povo todo dizia
Que Iaiá Pequena não saía
Iaiá Pequena está na rua
Dando viva a quem dizia

Já deu uma, já deu duas,
Já deu três no arsenar
Lavai Iaiá Pequena
O abismo do lugar

Com a morte de Tomás de Aquino, assumiu a direção da aruenda em foco o senhor José Martins, que tirou a seguinte toada:

Iaiá Pequena
Iça a bandeira.
Esta conhecida
Nação verdadeira

Atualmente, a Aruenda Iaiá Pequena — a única que se exibe em Goiana — canta todos os versos aqui reproduzidos, considerando-os um patrimônio de que todos os seus componentes se orgulham, por amor à tradição.

Trata-se, como se vê, de uma curiosa expressão folclórica de Goiana, valendo essa reportagem por uma nota prévia que bem mereceria ser completada pelos estudiosos da matéria.

Cidade das mais antigas do Brasil, datando de época anterior a 1570 e primitivamente habitada por índios caetés e potiguares, Goiana possui uma imensa riqueza histórica, tendo sido, das freguesias criadas no distrito da capitania de Itamaracá, a que mais floresceu. Empenhando-se em fortes lutas contra os holandeses, decidindo-se, anos depois, em favor dos mascates, são inúmeros os atos de bravura e patriotismo de seus filhos, entre os quais se destaca Nunes Machado, um dos heróis da Praieira. De resto, o nome Goiana, vocábulo indígena, significa, segundo Varnhagem, gente estimada, corruptela de guaya — gente e na — estimada.

Contraponto encontra em Goiana, um farto manancial de manifestações populares, dignas de exumação e fixação, e, na sua municipalidade, uma visão esclarecida sobre esse importante problema cultural, razão porque abre suas páginas à sua reprodução, iniciada, aliás, no número anterior, com a transcrição fidelíssima de um autêntico fandango. Na edição presente, outros muitos documentos de incalculável valor folclórico se estampam, a começar por um pastoril dramático familiar, que é uma das mais completas peças que conhecemos (...).

Dada a extensão do documento em apreço, somente uma parte dele hoje publicada. A conclusão se fará no próximo número [*].

Oh! Bandeira brasileira,
Ou Leão Elefante
Foi o que o rei mandou
Avante, avante!

Dó, ré, mi,
Fá, sol, lá
Temos três
Para nós vadiar

São três dias de alegria
Reunião do carnaval
Depois do tempo passado
Ninguém pode mais passar

Dona Erundina na coroação
Seus vassalos de cetro na mão
Minha Senhora da Conceição (bis)

Segundo conta o nosso informante, a primeira sede da Aruenda Iaiá Pequena foi no Camboa de São Luís, no sítio Limeira. Ter-se-ia mudado, depois, para a rua do Gravatá. Naquele primeiro local, cita-se o fato de, durante um ensaio, ter-se desenrolado uma cena de sangue — Joana Pão da Tarde, amasiada com um José Gomes, surrou Maria Arsemina e Maria de Lola, ferindo-as à navalha. Entretanto, o ensaio continuou como se nada tivesse acontecido.

* * *

Parecem-nos bem mais valiosas as informações recolhidas da viúva de José Martins, que foi dirigente da Aruenda Iaiá Pequena, até 1945, quando faleceu com cerca de 80 anos. Essa senhora, atendendo ao nosso pedido, disse-nos que, no tempo da monarquia, havia em Goiana cinco aruendas, com os seguintes nomes: Dois de Ouro (do engenho Bujari), Cambinda Brilhante (do engenho Boa Vista), Centro Pequeno, Iaiá Menina e Iaiá Pequena.

Esta última foi fundada em 1880, sendo todas as outras, de épocas anteriores. Depois da Proclamação da República, as aruendas, conhecidas também por nações, só tiveram rei e rainha até o ano de 1895, quando a polícia interveio com uma proibição drástica.

A Aruenda Iaiá Pequena (a única existente nessa época) resolveu, então, mandar fazer por um tal de Rogério Caiador, um leão, pondo-lhe, sobre a juba uma coroa. De onde o nome: Leão Coroado (Essa peça se encontra hoje em poder da Prefeitura, para figurar no Museu Regional Municipal, em organização).

Em 1893 — diz-nos, ainda, a viúva de José Martins, a Aruenda Iaiá Pequena ensaiava na rua do Poço do Rei. No carnaval, tomavam por sede uma casa situada à rua da Conceição, pertencente a uma dona Terezinha, professora particular. Nessa casa, armava-se um trono, no qual era colocada uma boneca que tinha o nome de dona Erundina.

Quando a aruenda saía à rua dirigia-se diretamente para a igreja da Conceição, onde cantava e dançava. Os instrumentos eram os seguintes: dois bombos, um gonguê, um tarol, um marcante (bombo) e vários maracás. Entre os versos, conseguimos fixar os que se seguem:

Erundina na coroação
Com os seus vassalos de cetro na mão
Viva Senhora da Conceição.

Ou! sai! Ou! sai!
Leão Coroado (bis)
Com seus lanceiros na frente
E o seu estado formado

Não respeita baile
Clube nem nação
Para a nossa defesa
Trazemos um leão

Não temos, rei nem rainha
Nem secretário, nem orador
Erundina está no trono
E os seus sócios não a deixou

Olhe o Leão
Erundina que vem cá buscar
Vamos ver o Leão gemedor
Horas belas que douram as campinas (bis)
Festeja Erundina com flor

Lanceiro, lanceiro,
Que tem a lança na mão
Sustenta a nossa bandeira
Defende a nossa nação.

("Pastoril dramático familiar". Revista Contraponto. Recife, dezembro de 1949)
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