Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Janeiro 2005 - nº 74 - Ano VII


Sumário

Festança

Festas de Natal no Rio de Janeiro do início do século XIX
Joaquim Manuel de Macedo

Formas de samba
Edison Carneiro

O culto de São Gonçalo
Ronaldo de Serigi

Cancioneiro

O menino gigante

A glória de Guararapes
Lourival Batista

A B C da seca dos Dois Setes
Antônio Batista de Melo

Imaginário

Lendas, mitos e crendices do Brasil

A corda do diabo
Figueiredo Pimentel>

Bakaru juko ro (lenda do macaco)

Colher de Pau

A cozinha goiana
Hildegardes Viana

O vinho do porto e o folclore
Marques da Silva

Fabricação de farinha de milho
Donald Pierson

Oficina

Artesanato folclórico do Rio Grande do Sul
Antônio Augusto da Silva Fagundes

A pesca de sururu em Alagoas é feita com muito primitivismo
Tobias Granja

Fabricação de carvão vegetal
Donald Pierson

Palhoça

Pente-fino
Mauro Mota

Cafuné: carinho e cultura

Nomes usados pelas paulistanas há 188 anos
J. David Jorge (Aimoré)

Panacéia

Uma oração egípcia no sertão
Gustavo Barroso

Árvores do bem e do mal
Ademar Vidal

Oração contra feitiço

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Árvores do bem e do mal

Ademar Vidal

A escravidão deixou restos esparsos de mal-assombrado.

Existem árvores que guardam mistério inexplicável para os habitantes da várzea. Pois não é que a gameleira infunde qualquer coisa de atraso, é árvore que interrompe a marcha dos bons sucessos: segura prosperidade do dono da casa, a sua saúde equilibrada e obtenção na certa do que mais deseja? O mesmo acontece com o genipapeiro que nasce e cresce perto da residência do senhor. O inverso sucede com a pitombeira, o sapotizeiro e o cajueiro. Há também as árvores gordas que favorecem os interesses da cozinha naquilo que diz respeito à parte propriamente de abastecimento e, por isto, contam com a estima de todos: a mangueira, a jaqueira e o fruta-pão fazem parte dessa família benemérita com que toda gente simpatiza por ser generosa e abundante.

Se é o coqueiro, por sua vez, conta com a amizade geral, talvez porque dá muitos frutos caros, ocupa pouco espaço e, em conformidade com o velho hábito, ninguém presta a menor atençao em resguardá-lo das pragas. A bananeira se mostra muito popular e mesmo querida. Coisa estranha: também o araçá e a goiabeira que aparecem por todo canto sem ninguém haver nunca plantado.

Todas estas árvores são encontradas nas cidades — e no interior. Mas em meio delas surgem as que não merecem consideração. Outras que se incluem na lista das que dão azar ou botam para adiante como portadoras de felicidade. Ainda outras que conduzem o seu mistério para o qual não se acha qualquer explicação razoável. Tudo sobrevivência do regime da escravatura.

Sabe-se da existência de um ou dois pés de baobá. Árvore sagrada para os negros que iam descansar debaixo dela e, nas noites de luar, ainda a procuravam para melhor apreciação da paisagem coada por entre a folhagem rala. Árvore de pouca sombra, considerada como coisa do outro mundo, aquele povoado pelas almas não pecadoras. O cajueiro tem suas ligeiras semelhanças com ela e talvez por este motivo é tido na mais alta estima.

Entre as mais visadas como donas do mal, podem ser escolhidas a barriguda, o jatobá e a gameleira, principalmente. Sérias desconfianças existem sobre o eucalipto que foi trazido para meio há poucos anos.

 

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.423-424)
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