— Vamos a uma sururuzada, minha gente?
É o convite do alagoano a quem visita Maceió. Com umas cervejinhas "estupidamente geladas", o produto típico é orgulhosamente exibido em mesa de bar, à beira de lagoa. Em matéria de prato, nada melhor pra variar.
— Olha o sururu de capote... é a setecentos mil réis o quilo é a setecentos.
No mercado de Maceió, os gritos de vendedores de sururu se confundem. Mulheres e crianças anunciam com insistência a oferta do molusco.
É bom saber que há sururu de capote (ainda com a casca) e o dispinicado (já tratado, sem casca, pronto pra panela).
Família ilustre
Mytella falcata, molusco lamelibranquido da família dos militídeos, lembra alto muito importante pelo seu nome difícil, complicado demais para o pescador. Por isso chama apenas de sururu e nada mais. Orgulhosamente sururu, tipicamente sururu nordestino de Alagoas. Tem caracteres próprios que o diferenciam de seus parentes, como o mexilhão e o bergigão. Na linguagem científica, usada apenas pelos técnicos da Superintendência do Desenvolvimento da Pesca e outros estudiosos o sururu faz questão de assinar-se Mytilus mundanensis duartii (com dois is e seus respectivos pingos). Longe dos aspectos técnicos, é o simples e principal habitante da Lagoa Mundau, que banha a capital alagoana.
Amigo da lama
Há notícias distantes de ter sido encontrado em outras regiões do país. Fala-se mesmo que, nos tempos da monarquia, tentaram sua aclimação na lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro.
O sururu prolifera nas partes mais rasas da lagoa, dentro da lama. Vive em colônia numerosas. Cresce, engorda e sobrevive de acordo com o teor de salinidade da água, que não deve ser nem muito doce, nem muito salgada. Ideal é entre 5 e 15%. Somente as águas da lagoa Mundau, oferecem essa condição. Por isso, ali habitam com grande abundância. E a espécie de maior volume de produção do estado: vai a quase 6 toneladas ao ano.
Inimigo das chuvas
Segundo o biologista Pereira Barros, da Sudene, e o bioquímico J. Macedo da Universidade Federal de Pernambuco, há grande desequilíbrio no ecossistema lagunar nos meses de pesado inverno. A salinidade cai para zero ou teor próximo. Se o fenômeno se prolonga por muitos dias, a mortalidade das colônias de sururu é fatal. Será parcial ou total dependendo das enchentes do rio Mundau (que meses atrás destruiu São José da Laje e outras cidades alagoanas). Quando a mortalidade é total, há grave desequilibrio sócio-econômico de grande repercussão para o estado, na população que reside às margens da lagoa e que depende direta ou indiretamente da sua exploração.
Por isso a chuva que leva alegria ao sertão seco, é amargura e tristeza, talvez fome, para o sururuzeiro. Os grandes invernos roubam-lhe a fonte do ganha-pão.
Pescado à unha
Na exploração do sururu é desconhecido o mais insignificante processo moderno. Da pesca à distribuição, tudo se faz com muito primitivismo, como há cem anos. Aforas as canoas, tudo o mais independe de instrumentos. O trabalho começa antes do amanhecer.
Homem pobre
Que não vê
O sol nascer
Deve desaparecer
Antes de surgir a madrugada, o pescador de sururu dirige-se, de canoa, ao ponto onde habita o molusco. Aproveita a maré baixa (a lagoa é ligada ao mar por um estreito canal) e inicia o ofício de cada dia. Mergulha repetidas vezes e retira da lama, com as próprias mãos, o sururu de capote. Pouco a pouco enche a canoa. Volta à praia para a lavagem.
Poesia e miséria
Pela madrugada, quando saiu de casa, a mulher e os filhos ficaram entregues à tarefa de dispinicamento do molusco.
A pesca prolonga-se até meio dia. Durante a tarde durante a secagem do produto e à noite, todos se dedicam à fervura do molusco.
De geração em geração, do vovô ao netinho, a cena se repete: lagoa Mundaú, povoada de canoas pela madrugada de pesca, fervura e despinicamento, e venda do produto.
Sobre canoas de nomes estranhos — Palavira, Caatinga, Espalhado e outras — persiste uma civilização curiosa, diferente pelos extremos que a caracterizam: a beleza da rica paisagem e a subnutrição dos filhos, a família grudada ao incessante ritual de miséria pela sobrevivência. Nascem, crescem e morrem encerrados no mesmo ciclo do comer-para-viver e do trabalha-para-comer.