Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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A B C da seca dos Dois Setes

Antônio Batista de Melo

Conhece-se o autor deste curioso A B C: é o poeta popular paraibano Antônio Batista de Melo, natural da Vila do Teixeira. O sertanejo denomina seca dos Dois Setes a grande crise climatérica que assolou o Nordeste do Brasil em 1877, do mesmo modo que seca dos Três Oitos é a de 1888, dos Dois Zeros a de 1900 e simplesmente o Quinze a de 1915. No presente A B C, não se descreve a referida seca; mas, como nela foi o cantador reduzido à miséria, o povo lhe deu esse título.

 

Introdução

Escrito e feito por mim,
Como me vejo tornado!
Falo por mim contra todos,
Segundo o meu mau estado,
Quem já fui e hoje sou,
Tenho sido castigado!

A
Ando agora feito triste
Como pobre peregrino,
A sofrer envergonhado
Da sorte o golpe ferino.
Se tudo dela depende,
Devo cumprir meu destino.

B
Bens de fortuna não tenho
Para me remediar,
Quem me deve não me paga
E a ninguém posso pagar.
Tenho pejo de pedir,
Muito medo de roubar.

C
Considerando na vida,
Não se pensa um só momento,
Sinto meu peito abrasado,
Meu coração sem alento,
Remorso da natureza,
Variar meu pensamento!

D
Dizem que o nosso bom Deus
Tem amor pela pobreza
E, se uns vivem como pobres,
Outros gozam da riqueza.
Deus abomina somente
A desgraçada avareza.

E
Eu padeço mais que todos,
Não tenho consolação,
Enquanto pude, fiz bem,
Falo com toda a razão,
Aqueles a quem mais fiz
Hoje desprezo me dão.

F
Figurei perante todos
Como sendo um ilustrado.
De camaradas e amigos
Sempre fui bem visitado,
Dos melhores do lugar
Onde vivia socado.

G
Ganhei muitas amizades
Só pelos meus possuídos.
Aqueles que me ocupavam
Sempre foram bem servidos.
Hoje, eles passam por num,
Fingindo os desconhecidos.

H
Honrado só é o homem
Que bens de fortuna tem.
Amizade, fiquei certo,
De adulação só provém.
Velhaco facinoroso
Dizem que é homem de bem...

I
Infeliz eu tenho sido,
Mas não sou adulador.
Conheço por aqui mesmo
Um homem rico e traidor,
Com faltas bem conhecidas,
Passando por bom senhor.

J
Jurar não é necessário,
Para falar a verdade,
Vejo com adulação
Muitos terem amizade,
Vejo muita tirania
Em lugar de santidade.

K
Kálice de cruel rigor
Com que hoje sou contemplado!
Tendo todos contra mim,
De todos sou desprezado
E até pobres orgulhosos
De mim se têm afastado.

L
Lamentando a minha sorte,
Pelos transes que padeço
A Deus eu peço socorro;
Porém sei que o não mereço.
Tenho que achar recurso
Na miséria em que careço.

M
Morto ando sem morrer,
Nem se fala mais em mim
No tempo em que eu podia,
Ninguém me tratava assim.
Eu já ando quase morto,
Venha a morte dar-me fim!

N
Não posso resistir mais,
Os meus passos são baldados;
Procuro, porém encontro
Todos os portos tomados.
Meu Deus, que será de mim?
Grandes são os meus pecados!

O
Onde estão os camaradas
Que me faziam festejo?
Como vivo na pobreza,
Fogem de mim, não os vejo!
Até os próprios parentes
Comigo falam com pejo!

P
Paciência até hoje tive.
Ter mais? Não posso ter, não!
Que a sorte que me combate
Conduz à desilusão.
Não há desgraça maior
Do que viver na aflição!

Q
Queria ter um lugar
Para nele residir,
Onde ninguém transitasse;
Eu sem ver e sem ouvir;
Lastimando minha sorte,
Finalmente sucumbir.

R
Rasgado agora me vejo,
Descalço, de pé no chão,
Sem ter jeito de comprar
E, se pedir, não me dão.
Como se pode viver
Em tamanha conclusão?

S
Sociedade não vejo
Perante esta humanidade.
No mundo, vale quem tem,
Esta é que é a pura verdade!
E já muito santarrão
Falta até com caridade.

T
Todo aquele que zombar
Deste meu penoso estado
Peça a Deus felicidade,
Para ser afortunado,
Pois, se cair na indigência,
Sabe o que é ser desgraçado.

U
Um amigo só me resta
Dos por quem já fui cercado.
Conheço que é tão somente
Por ser ele delicado.
Muitos favores lhe devo,
Dos quais lhe sou obrigado.

V
Vejo, assim, minha família
Passando necessidade
E eu aflito, sem poder,
Na mesma conformidade!
Assim seja Deus servido,
Cumpra-se sua vontade!

X
Xaropadas amargosas
Por vezes tenho bebido!
Bocados bem amargosos,
Calado, tenho comido!
Só Deus sabe o que padeço,
Sofrendo sem um gemido!

Z
Zeloso eu bem sempre fui
De compaixão e de amor.
Daqueles que se encostaram
Em mim, consolei a dor.
De muito bom coração
Sempre fui animador.

Epílogo
Contrito, quero findar,
Lembrando do meu passado,
Eu só não sou pecador,
Nem sou único culpado.
O que mais alto estiver
Pode findar desgraçado.

 

Este A B C diferencia-se dos demais por ter uma introducão e um epílogo, o que não ocorre com os outros. É também uma moralisatione de feitio medieval, com muita jeremiada sob a triste situação em que se encontra o poeta. Este vivia na abastança quando veio a grande seca de 1877 a 1879 e o reduziu de próspero negociante e fazendeiro à mais negra miséria. Daí o travo de amargura pessoal que se sente em toda a versalhada.

Na estrofe F, socado quer dizer recolhido, metido, isolado; na R, conclusão se emprega como acabrunhamento ou desbarato; na S, vem sociedade com o sentido de solidariedade; na V, conformidade significa — nas mesmas condições; afinal, no Epílogo, a frase — Eu só não sou pecador — deve ser entendida desta sorte: Eu não sou o único pecador; ou: Não sou eu o só pecador que existe.

 

(Barroso, Gustavo. O sertão e o mundo. Rio de Janeiro, Livraria Leite Ribeiro, 1923, p.370-377)
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