Em 1900, por exemplo, nasceu
na Vila de Viceneia, em Pernambuco, um menino disforme, que o poviléu logo
alcunhou — O menino gigante, tema aproveitado pela fantasia dos rapsodos
populares, que apontaram como causa do seu nascimento a passagem dum cometa.
Todo o mundo já conhece
O cometa de Biela,
Que abalou a terra toda
E exterminava com ela,
Se no seu giro passasse
Mais aproximado dela.
O astro passou por bem longe,
No mundo ninguém morreu;
Porém, na sua passagem,
Uma mulher concebeu
A um menino fenômeno
Que na terra apareceu.
No estado de Pernambuco,
Lá na vila de Vicência,
O tal Menino Gigante
A luz teve da existência,
Nasceu em mil novecentos,
Cheio de viço e potência.
A mãe desse tal gigante
Sofreu enorme tormento,
Passou três dias com dores,
Para dar-se o nascimento;
Quase que morre do parto,
Foi grande seu sofrimento.
Nasce a quinze de dezembro
Do ano atrás referido,
Espalhando-se a notícia
Pelo povo conhecido.
Cada qual por sua vez
Foi ver o recém-nascido.
Palmo e meio de largura,
Mais de dois de comprimento,
Com quatro anos e seis meses
Imenso é seu crescimento,
Tem quase altura dum homem
E tem enorme talento
Chama-se José Ferre ira
O tal Menino Gigante,
Seu pai se chama Gonçalo,
Homem pobre, ignorante,
Pardo e de estatura média,
Mais franzino que galante.
Sua mãe se chama Júlia
Maria da Conceição,
É também parda de cor,
Tem franzina construção.
Vamos fazer do gigante
Agora uma descrição:
Tem quatro anos e seis meses,
Como já sabe o senhor,
Inteiramente inocente
E também pardo de cor,
Goza perfeita saúde,
Cresce com grande vigor.
Sou testemunha ocular,
Tive ocasião de vê-lo,
Tem o corpo quase todo
Envolto num negro pêlo,
A cabeça afunilada,
Contendo pouco cabelo.
Anda muito vagaroso,
Tem regular estatura,
Tendo dos pés à cabeça
Seis grandes palmos de altura!
Mede por cima dos peitos
Quatro palmos de grossura!
Tem feições muito grosseiras,
Rosto bem largo, angular,
Olhos pretos cintilantes,
Uma orelha regular,
A testa um pouco espaçosa;
Mostra viveza no olhar.
Tem os beiços muito grossos,
Sobrancelhas arqueadas,
Dentes alvos e pequenos,
Ventas grandes, achatadas,
A fala é como a dum homem,
Palavras bem explicadas.
Tem o queixo arredondado,
Curto e roliço o pescoço,
As espáduas espaçosas,
O tronco redondo e grosso,
Braços e mãos muito grandes,
Largo e vigoroso o dorso.
Tem pernas grandes e grossas,
Mostrando imenso vigor;
Tem os pés arredondados
Na parte posterior,
Largos, grossos e compridos
Pela parte anterior.
Tem uma força admirável
E oitenta quilos suspende!
Seu peso é cinqüenta quilos.
Fácil, tudo compreende,
Demonstrando inteligência,
E o que ele ouve logo aprende.
Tem enorme crescimento,
Dorme e come muito bem;
É genioso e demonstra
Que alguma energia tem.
Se ninguém nisso acredita,
Procurá-lo ver convém.
Eis aí em bem poucas linhas
O seu retrato traçado.
Quem nunca viu o gigante,
Vendo-o, ficará admirado.
Vou, então, vaticinar
Seu futuro destinado.
Quando chegar aos trinta anos,
Será de enorme estatura:
Vinte palmos de comprido,
Oito e meio de grossura.
Assombrará todo o mundo
Sua disforme figura!
Duzentos quilos de ferro
Com a mão suspenderá,
Duas arrobas de carne
Duma só vez comerá,
Trezentos e oitenta quilos
O seu corpo pesará!