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Carlos da Costa
Pereira
O nome primitivo dessa planta era ruda [1], proveniente do latim ruta,
sendo a palavra arruda, segundo se supõe,
resultante da aglutinação do artigo a àquela forma antiga (a ruda
= arruda). Têm a mesma origem o espanhol ruda, o italiano ruta,
o alemão raute, o francês e o inglês
rue. Derivados do latim ruta, existem no português os seguintes vocábulos:
rutáceas, subst. pl., “família de plantas que tem por tipo a arruda";
rutáceo, adj., relativo à arruda ou pertencente à família das rutáceas";
rútico, adj., "diz-se de diversas substâncias extraídas da arruda";
rutínico, adj., diz-se de "um ácido contido na arruda". Parece-nos que da
forma portuguesa não existem outros derivados além de arrudão, nome de
uma espécie de arruda; mas, em compensação, foi ela aproveitada
na antroponímia, como sobrenome, sendo conhecidas aqui e na ex-metrópole várias famílias
Arruda, e na toponímia, como denominação de diversos acidentes geográficos, existindo em Minas
Gerais, Goiás e Paraíba do Norte, ribeirões, córregos e serras, com
os nomes de Arruda e Arrudas, e em Portugal uma vila e uma
freguesia chamadas Arruda-dos-Vinhos e Arruda-dos-Pinhões.
O nome
científico da arruda — também conhecida por arruda doméstica e arruda-dos-jardins — é
Ruta graveolens, L., arruda fedorenta. É planta originária do sul da Europa. Cultivavam-na na
Palestina, e dela, da hortelã e de todas as espécies de hortaliças, os fariseus pagavam o
dízimo, mas desprezavam "a justiça e o amor de
Deus", segundo
as palavras de Cristo [2].
Era a arruda
utilizada na terapêutica e na culinária. Garcia da Orta [3], reportando-se ao
que Dioscórides escrevera acerca dessa planta, observa: "... e também põe
(Dioscórides) exemplo dizendo, como nós (comemos) arruda, e pode ser que arruda
se usasse mais nesse tempo que agora, por ser forte cheiro; e mais então usariam
da arruda medicinalmente, por ser contra a peste e contra o veneno; e
também alguns práticos receitam salada feita de arruda e de outras cousas,
no regimento da peste."
Atribuíam à
arruda a virtude de afastar feitiços e proteger contra as doenças e
quebrantos ou mau-olhado. Por isso, em vários países europeus cultivava-se
essa planta nos jardins, e no Brasil é ainda hoje muito comum encontrar-se um
pé de arruda junto à casa da gente simples do interior. Era remédio para todos os
males: "la ruta ogni mala stuta", dizia um provérbio
italiano. E a escola de Salerno, que redigia em versos os seus preceitos
médicos, proclamava-lhe a eficácia contra a presbitia:
"Nobilis es
ruta, qui lumina reddit acuta".
Segundo um
adágio português, "se soubesse a mulher a virtude da arruda, buscá-la-ia
de
noite à lua". O seu sentido é obscuro, pelo menos para
nós, salvo se quisermos encontrar-lhe explicação no conteúdo da frase
latina que diz: "Ruta libidinem in viris extinguet, auget in
foeminis", ou, então, na circunstância de ser a arruda um emenagogo [4].
Diz Debret [5], integrante da missão artística de 1816, que "a acreditar-se na credulidade generalizada,
essa planta tomada como infusão asseguraria a esterilidade e provocaria o
aborto, triste reputação que aumenta consideravelmente a procura". É ainda Debret quem nos conta que no Rio de Janeiro
se vendia essa planta pelas ruas, todas as manhãs [6]. Para afugentar os
sortilégios, as negras
costumavam trazê-la "nas pregas dos turbantes, nos cabelos, atrás da
orelha e mesmo nas ventas", e as brancas usavam-na em geral escondida no
seio". Acrescenta que quando as negras, vendedoras de
frutas, encontravam uma concorrente tida por inimiga, costumavam exclamar:
"'Cruz, Ave Maria, arrruda', colocando subitamente os dois dedos index sobre a
boca", e para se acautelarem "de um perigo iminente, elas diziam: 'toma arruda,
ela corrige tudo'".
Nas
Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida [7],
deparam-se-nos duas referências ao uso da arruda na época em que se situam as
cenas do romance. A primeira, quando o autor descreve o "traje
habitual" da comadre, que "era como o de todas as mulheres da sua condição e esfera,
uma saia lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um lenço branco
muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós
da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma
clássica mantilha, junto à renda da qual se pregava uma figa de
ouro ou de osso". E a outra, quando narra os preparativos feitos para
o momento em que a Chiquinha daria à luz, sendo improvisado "um oratório
com uma toalha, um copo com arruda e uma imagem de Nossa Senhora da
Conceição..."
Para os
ingleses, a arruda simbolizava a dor. É com este sentido que Ofélia, no
Hamlet, oferece-a à rainha, dizendo-lhe: "Eis a arruda para vós e também para
mim. Poderemos aos domingos chamá-la erva-da-graça; usareis o vosso ramo de
arruda com uma difereença" [8].
Anota Guizot
que "a arruda era o emblema da dor, em virtude da semelhança que existe em
inglês entre a palavra rue, arruda, e a palavra ruth, aflição. (...) A
arruda era também denominada erva-da-graça porque lhe atribuíam o
poder de inspirar a contrição e corrigir os vícios, e como tal era empregada nos
exorcismos. Na velha balada inglesa, que tem por título Os
conselhos do doutor benfeitor, vem a seguinte receita para o uso da arruda:
'Se
a pessoa tem dedos muito lestos e não pode dominá-los, dedos que queiram
esquadrinhar o bolso do próximo ou fazer qualquer mal desse gênero, deve
mandar sangrá-los, colocar o braço em tipóia e beber uma infusão de
erva-da-graça, adicionando-lhe leite e vinho'. Ofélia reserva a arruda para
si, como símbolo de sua tristeza filial, e quer que a rainha
também a use como símbolo de sua tristeza maternal; mas, em chegando o domingo,
dia consagrado ao Senhor, Ofélia quer que a arruda tome uma significação mais
intensamente mística, a fim de que a rainha se arrependa e se liberte
do amor culposo pelo qual vendera sua alma. Eis porque Ofélia
assinala uma diferença. Uma diferença em linguagem heráldica, era o
símbolo pelo qual, nos brazões de armas da família, se distinguia
o filho mais velho do filho mais moço; assim, o mais jovem dos Spencer usava como diferença uma bordadura de goles em
torno de seu escudo de armas (Holinshed, Règue du roi Richard II, p.443). De acordo com o
brazão de flores, do
qual Ofélia toma por empréstimo as suas imagens, a arruda nas mãos da pobre e inocente desvairada só falará de dor e
pezares, e
confundindo-se com o outro nome (ruth), nas mãos da rainha
culpada falará simultanearnente de pezares e de remorsos" [9].
A arruda também entrou na poesia popular brasileira, tendo Carlos Góis
[10] registrado as seguintes quadras — colhidas em Minas Gerais, a primeira, e no
Ceará, a segunda — em que se fazem alusão a essa planta:
Arruda tem
vinte folhas,
No meio seu
arrodeio;
Trata de mim
que sou teu,
Deixa de
amores alheios.
Arruda também se muda
Do sertão
para o deserto
Também se ama
de longe
Quem não pode amar de perto.
Aliás, estes
versos atestam não só a popularidade como a adaptabilidade a regiões
indiscriminadas, da planta que, pelas suas pretensas virtudes, os portugueses
trouxeram para os seus domínios neste lado do Atlântico.
Notas
1. Ruda,
empregara o padre Manuel Bernardes em Luz e calor, Doutrina IV, VIII, 88.
2. São
Lucas, 11:42 — O padre Manuel Bernardes, no comentário a que se reporta a citação acima, fundiu a passagem de
São Lucas com a de São Mateus, 23:23, onde vêm acrescentados à
hortelã e à arruda a erva-doce e o cominho.
3. Colóquio dos simples e drogas das Índias, ed. da Academia Real das Ciências de Lisboa,
dirigida e anotada pelo conde de Ficalho, 1895, II, p.7.
4.
Dicionários franceses e
ingleses dão como etimologia duvidosa do lat. ruta o gr.
rhuté, do verbo rhéo, correr.
5. Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil, trad. de Sérgio Milliet, Livraria Martins,
São Paulo, 1940. t.2, p.168-169.
6. Ver na
obra citada a prancha 11, Vendeur d’herbe de ruda.
7. Ed. da
Livraria Martins, São Paulo, 1941, p.54; 144.
8. "...
there's rue for you; and here's some for me; we may call it
herb of grace o’Sunday. O! you must wear your rue with a difference".
9. Oeuvres
complètes de Shakespeare, trad. fr. de Guizot, 9ª ed., I, p.243-244.
10. Mil quadras populares
brasileiras. Rio de Janeiro, 1916.
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