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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Panacéia
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Folclore da chuva, por Domingos Vieira Filho

As pegadas de São Tomé, por José Calasans Brandão da Silva et alii

A arruda, por Carlos da Costa Pereira
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


A arruda

Carlos da Costa Pereira

O nome primitivo dessa planta era ruda [1], proveniente do latim ruta, sendo a palavra arruda, segundo se supõe, resultante da aglutinação do artigo a àquela forma antiga (a ruda = arruda). Têm a mesma origem o espanhol ruda, o italiano ruta, o alemão raute, o francês e o inglês rue. Derivados do latim ruta, existem no português os seguintes vocábulos: rutáceas, subst. pl., “família de plantas que tem por tipo a arruda";  rutáceo, adj., relativo à arruda ou pertencente à família das rutáceas"; rútico, adj., "diz-se de diversas substâncias extraídas da arruda"; rutínico, adj., diz-se de "um ácido contido na arruda". Parece-nos que da forma portuguesa não existem outros derivados além de arrudão, nome de uma espécie de arruda; mas, em compensação, foi ela aproveitada na antroponímia, como sobrenome, sendo conhecidas aqui e na ex-metrópole várias famílias Arruda, e na toponímia, como denominação de diversos acidentes geográficos, existindo em Minas Gerais, Goiás e Paraíba do Norte, ribeirões, córregos e serras, com os nomes de Arruda e Arrudas, e em Portugal uma vila e uma freguesia chamadas Arruda-dos-Vinhos e Arruda-dos-Pinhões.

O nome científico da arruda — também conhecida por arruda doméstica e arruda-dos-jardins — é Ruta graveolens, L., arruda fedorenta. É planta originária do sul da Europa. Cultivavam-na na Palestina, e dela, da hortelã e de todas as espécies de hortaliças, os fariseus pagavam o dízimo, mas desprezavam "a justiça e o amor de Deus", segundo as palavras de Cristo [2].

Era a arruda utilizada na terapêutica e na culinária. Garcia da Orta [3], reportando-se ao que Dioscórides escrevera acerca dessa planta, observa: "... e também põe (Dioscórides) exemplo dizendo, como nós (comemos) arruda, e pode ser que arruda se usasse mais nesse tempo que agora, por ser forte cheiro; e mais então usariam da arruda medicinalmente, por ser contra a peste e contra o veneno; e também alguns práticos receitam salada feita de arruda e de outras cousas, no regimento da peste."

Atribuíam à arruda a virtude de afastar feitiços e proteger contra as doenças e quebrantos ou mau-olhado. Por isso, em vários países europeus cultivava-se essa planta nos jardins, e no Brasil é ainda hoje muito comum encontrar-se um pé de arruda junto à casa da gente simples do interior. Era remédio para todos os males: "la ruta ogni mala stuta", dizia um provérbio italiano. E a escola de Salerno, que redigia em versos os seus preceitos médicos, proclamava-lhe a eficácia contra a presbitia:

"Nobilis es ruta, qui lumina reddit acuta".

Segundo um adágio português, "se soubesse a mulher a virtude da arruda, buscá-la-ia de noite à lua". O seu sentido é obscuro, pelo menos para nós, salvo se quisermos encontrar-lhe explicação no conteúdo da frase latina que diz: "Ruta libidinem in viris extinguet, auget in foeminis", ou, então, na circunstância de ser a arruda um emenagogo [4]. Diz Debret [5], integrante da missão artística de 1816, que "a acreditar-se na credulidade generalizada, essa planta tomada como infusão asseguraria a esterilidade e provocaria o aborto, triste reputação que aumenta consideravelmente a procura". É ainda Debret quem nos conta que no Rio de Janeiro se vendia essa planta pelas ruas, todas as manhãs [6]. Para afugentar os sortilégios, as negras costumavam trazê-la "nas pregas dos turbantes, nos cabelos, atrás da orelha e mesmo nas ventas", e as brancas usavam-na em geral escondida no seio". Acrescenta que quando as negras, vendedoras de frutas, encontravam uma concorrente tida por inimiga, costumavam exclamar: "'Cruz, Ave Maria, arrruda', colocando subitamente os dois dedos index sobre a boca", e para se acautelarem "de um perigo iminente, elas diziam: 'toma arruda, ela corrige tudo'".

Nas Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida [7], deparam-se-nos duas referências ao uso da arruda na época em que se situam as cenas do romance. A primeira, quando o autor descreve o "traje habitual" da comadre, que "era como o de todas as mulheres da sua condição e esfera, uma saia lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica mantilha, junto à renda da qual se pregava uma figa de ouro ou de osso". E a outra, quando narra os preparativos feitos para o momento em que a Chiquinha daria à luz, sendo improvisado "um oratório com uma toalha, um copo com arruda e uma imagem de Nossa Senhora da Conceição..."

Para os ingleses, a arruda simbolizava a dor. É com este sentido que Ofélia, no Hamlet, oferece-a à rainha, dizendo-lhe: "Eis a arruda para vós e também para mim. Poderemos aos domingos chamá-la erva-da-graça; usareis o vosso ramo de arruda com uma difereença" [8].

Anota Guizot que "a arruda era o emblema da dor, em virtude da semelhança que existe em inglês entre a palavra rue, arruda, e a palavra ruth, aflição. (...) A arruda era também denominada erva-da-graça porque lhe atribuíam o poder de inspirar a contrição e corrigir os vícios, e como tal era empregada nos exorcismos. Na velha balada inglesa, que tem por título Os conselhos do doutor benfeitor, vem a seguinte receita para o uso da arruda: 'Se a pessoa tem dedos muito lestos e não pode dominá-los, dedos que queiram esquadrinhar o bolso do próximo ou fazer qualquer mal desse gênero, deve mandar sangrá-los, colocar o braço em tipóia e beber uma infusão de erva-da-graça, adicionando-lhe leite e vinho'. Ofélia reserva a arruda para si, como símbolo de sua tristeza filial, e quer que a rainha também a use como símbolo de sua tristeza maternal; mas, em chegando o domingo, dia consagrado ao Senhor, Ofélia quer que a arruda tome uma significação mais intensamente mística, a fim de que a rainha se arrependa e se liberte do amor culposo pelo qual vendera sua alma. Eis porque Ofélia assinala uma diferença. Uma diferença em linguagem heráldica, era o símbolo pelo qual, nos brazões de armas da família, se distinguia o filho mais velho do filho mais moço; assim, o mais jovem dos Spencer usava como diferença uma bordadura de goles em torno de seu escudo de armas (Holinshed, Règue du roi Richard II, p.443). De acordo com o brazão de flores, do qual Ofélia toma por empréstimo as suas imagens, a arruda nas mãos da pobre e inocente desvairada só falará de dor e pezares, e confundindo-se com o outro nome (ruth), nas mãos da rainha culpada falará simultanearnente de pezares e de remorsos" [9].

A arruda também entrou na poesia popular  brasileira, tendo Carlos Góis [10] registrado as seguintes quadras — colhidas em Minas Gerais, a primeira, e no Ceará, a segunda — em que se fazem alusão a essa planta:

Arruda tem vinte folhas,
No meio seu arrodeio;
Trata de mim que sou teu,
Deixa de amores alheios.

Arruda também se muda
Do sertão para o deserto
Também se ama de longe
Quem não pode amar de perto.

Aliás, estes versos atestam não só a popularidade como a adaptabilidade a regiões indiscriminadas, da planta que, pelas suas pretensas virtudes, os portugueses trouxeram para os seus domínios neste lado do Atlântico.

 

Notas

1. Ruda, empregara o padre Manuel Bernardes em Luz e calor, Doutrina IV, VIII, 88.

2. São Lucas, 11:42 — O padre Manuel Bernardes, no comentário a que se reporta a citação acima, fundiu a passagem de São Lucas com a de São Mateus, 23:23, onde vêm acrescentados à hortelã e à arruda a erva-doce e o cominho.

3. Colóquio dos simples e drogas das Índias, ed. da Academia Real das Ciências de Lisboa, dirigida e anotada pelo conde de Ficalho, 1895, II, p.7.

4. Dicionários franceses e ingleses dão como etimologia duvidosa do lat. ruta o gr. rhuté, do verbo rhéo, correr.

5. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, trad. de Sérgio Milliet, Livraria Martins, São Paulo, 1940. t.2, p.168-169.

6. Ver na obra citada a prancha 11, Vendeur d’herbe de ruda.

7. Ed. da Livraria Martins, São Paulo, 1941, p.54; 144.

8. "... there's rue for you; and here's some for me; we may call it herb of grace o’Sunday. O! you must wear your rue with a difference".

9. Oeuvres complètes de Shakespeare, trad. fr. de Guizot, 9ª ed., I, p.243-244.

10. Mil quadras populares brasileiras. Rio de Janeiro, 1916.

(Pereira, Carlos da Costa. "A arruda". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Florianópolis, ano 4, nº 13/14, março de 1953, p.4-6)