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José Calasans Brandão da Silva et alii
A passagem de São Tomé pela Bahia, aqui deixando marcas indeléveis de suas pegadas, é a lenda
mais antiga que possuímos. A seu respeito, em cartas enviadas para Portugal,
falaram, com largueza, os padres da Companhia de Jesus, a começar por Manuel
da Nóbrega. Antes deles, porém, a Nova Gazeta Alemã, documento de 1514 ou
1515, já noticiara haver entre os primitivos habitantes do Brasil uma recordação
da presença de São Tomé no interior do país, onde cruzes indicavam a passagem
do denominado Deus pequeno [1]. À vaga declaração acima mencionada,
seguiu-se um comunicado do padre Nóbrega, poucos dias após sua chegada à Baía
de Todos os Santos. Consta da carta escrita ao padre mestre Simão, datada de 15
de abril, onde se lê o seguinte "Também me contou pessoa fidedigna que as
raízes de que cá se faz o pão, que São Tomé as deu, porque cá não tinham pão
nenhum. E isto se sabe da fama que anda entre eles, quia patres corum
nuntiaverunt eis. Estão aqui perto umas pisadas figuradas em uma rocha, que
todos dizem serem suas. Como tivermos mais vagar, havemo-las de ir ver" [2].
Havia as pegadas de Tomé na Bahia e também lá para as bandas de São Vicente. É a
nova informação aparecida
numa outra
epístola do sacerdote inaciano endereçada ao seu mestre dr. Navarro em agosto de
1549. Cá estivera o santo com um companheiro e deixara alimentos ainda usados
pelos selvagens. Além dos alimentos, também ficaram os vestígios da presença.
"Têm notícia igualmente de São Tomé e de um seu companheiro e mostram certos
vestígios em uma rocha, que dizem ser deles, e outros sinais em São Vicente,
que é no fim desta costa. Dele contam que lhes dera os alimentos que ainda hoje
usam, que são raízes e ervas e com isso vivem bem; não obstante dizem mal do
seu companheiro, não sei porque, senão que, como soube, as flechas que contra
ele atiravam voltavam sobre si e os matavam" [3]. Era natural que Nóbrega
tivesse curiosidade em ver com os próprios olhos as pisadas de Tomé, o que seria
útil à obra de catequese na qual estava empenhado, evidentemente. Era um bom
meio de comunicação com os aborígenes. Discípulo do próprio São Tomé, o
sacerdote queria também ver pra crer... Numa "informação das terras do Brasil",
considerada por Alfredo do Vale Cabral como de 1549, Nóbrega relata sua visita
ao local das pegadas. "Dizem eles que São Tomé, a quem eles chamam Zomé", são
palavras da informação, "passou por aqui, e isto lhes ficou por ditos de seus
passados e que são pisadas sinaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por
mais certeza da verdade e vi com os próprios olhos, quatro pisadas mui
sinaladas com seus dedos, as quais algumas vezes cobre o rio quando enche; dizem
também que quando deixou estas pisadas ia fugindo dos índios, que o queriam
frechar, e chegando ali se lhe abrira o rio e passara por meio dele a outra
parte sem se molhar e dali foi para a Índia. Assim mesmo contam que, quando o
queriam frechar os índios, as frechas se tornavam para eles, e os matos lhe faziam caminho por onde passasse; outros contam isto como por escárnio
[4].
Outros
iniciamos, seguindo o exemplo do primeiro provincial, visitaram as pegadas de
São Tomé, nos anos seguintes. Adquiriu-se o costume das romarias ao local das
pisadas, aventou Alberto Silva, cujo estudo sobre o assunto é completo. Lá
estiveram, em agosto de 1552, os meninos do Colégio de Jesus
na Bahia,
conforme relata correspondência remetida ao padre Pedro Domenech, incluída nas
Novas cartas jesuíticas [5]. Viram as pegadas e louvaram a Deus por aquele
mistério. É o que está escrito. "Ao chegar, era meia maré baixa, vimos as
pegadas, que as cobre a maré cheia, que estão em pedra muito dura, e as pegadas
marcadas como de um homem que fugindo, resvalara e a pedra deu lugar a seus pés,
como se fosse barro, assim se baixou e humilhou. Estando nós aí um pedaço
dando louvores a Nosso Senhor por aquele mistério, porque Nosso Senhor não
permite nada debalde, senão para aviso e exemplos deles, e nosso, e para sinal
do que Nosso Senhor faz pelos seus" [6]. Em setembro do mesmo ano, Vicente
Rodrigues manda dizer para Lisboa que levando uma cruz fizera uma procissão até
as pegadas de São Tomé [7]. Pela mesma época o padre Francisco Pires escrevera
dizendo que o irmão Vicente Rodrigues estava quatro léguas da Bahia a dentro
"junto donde dizem estar as pegadas de São Tomé" [8]. Vale Cabral anotando o
texto, esclareceu encontrar-se Vicente Rodrigues em Itapoã [9]. As pegadas,
portanto, ficavam na costa brava, nas praias de Itapoã. É o ponto de vista
sustentado por Alberto Silva, que ele viu reforçado numa carta de sesmaria do
século XVIII, cujos limites começavam na "pedra chamada de São Tomé na dita
Itapoã ao longo do mar correndo para o Rio Joanes..." [10]. Simão de
Vasconcelos, invocado igualmente pelo autor de A lenda de Sumé na
historiografia baiana, fornece seu depoimento pessoal no mesmo rumo. Eis o
trecho do jesuíta, tal como o transcreveu Alberto Silva: "Nesta Bahia fora da
barra, em outra praia semelhante, distante como duas léguas da cidade, onde
chamam Itapoã, vi com meus olhos, e vêem cada dia os nossos padres, e o povo
todo em outro pedaço de recife ou lajem, uma pegada de homem perfeitíssima,
nítida de impressão na substância da pedra e a parte posterior para a terra, a
anterior para a
água. A esta vindo eu de uma aldeia de índios notei que concorriam todos os que
trazíamos em nossa companhia ainda os que iam com cargas. Pergunteis a um deles
a causa (que eu era novo no caminho) responderam-me todos "Pai Sumé piquera
angãba sé: é que está ali a pegada de São Tomé". Então lhes pedi me levassem a
elas. Vi a pegada que disse, de pé descalço, esquerdo, assim e de maneira que se
fora impresso em barro brando. Tem-nos os índios em grande veneração, nenhum
passa, que a não visite, se pode; e tem para si que pondo-lhe o pé, fica
melhorado seu corpo todo. Não é esta parte freqüentada como a outra de São
Vicente, dos portugueses, porque está a nova parte do tempo coberta com o mar e
só aparece em vazantes menores" [11].
O culto de que
falam os jesuítas, para o qual muito parecem haver concorrido, chegou até o
século XX. Silva Campos e Alberto Silva dele nos deram pormenorizadas
informações na fase contemporânea. Servindo-se de um trecho de José Álvares do
Amaral, constante do seu Resumo cronológico e noticioso da província da Bahia,
Silva Campos fez datar de 21 de dezembro de 1602 a descoberta do pé humano
gravado numa pedra, no lugar denominado São Tomé, no caminho das Armações, freguesia de Brotas, cultuado como se fora a passada do discípulo de Cristo
[12].
"A pedra", declara Álvares do Amaral, que escreveu no século XIX, "com o sinal
do pé ainda existe naquele local junto à praia, ficando às vezes coberta pelas
areias, que trazem as marés grandes" [13]. A versão do Resumo cronológico
faz coincidir a descoberta da pegada, 21 de dezembro, com o dia em que a
Igreja Católica celebra a festa de São Tomé, pouco antes do Natal de
Cristo, donde se dizer "entre tu e Tomé, três dias é". A coincidência está a
indicar, evidentemente, a influência que a Igreja, decerto através dos padres
da Companhia, teria tido na determinação da data, uma vez que, segundo vimos,
muito antes de 1602, tido como o ano da descoberta da pedra já era largamente
conhecida a existência das pegadas. O dia, supomos, valeria, apenas, para
oficializar o culto popular.
Depois da
citação e comentário da nota de Álvares do Amaral, o folclorista e
historiógrafo João da Silva Campos reportou-se ao número de A Tarde,
vespertino baiano, de 14 de fevereiro de 1916, referente ao assunto. Humildes
pescadores haviam erguido, há muito tempo, uma palhoça encimada por uma cruz,
com honras e prestígio de templo de devoção bem defronte da conhecida "pedra de
São Tomé". Ali, todos os anos, nos primeiros dias de fevereiro, moradores
circunvizinhos e romeiros faziam suas orações, com acompanhamento de harmônicas
violas, cavaquinhos e pandeiros. Os mais velhos asseguravam que São Tomé andara
por ali em tempos imemoriais e certa feita, recentemente, salvara pescadores
surprendidos por tremenda borrasca. À reportagem de 1916 juntou Silva Campos sua
observação pessoal em 1930, quando, na véspera da festa, iam os fiéis buscar a
imagem de São Tomé na matriz de Itapoã levando-a para a palhoça à moda da
ermida. Depois da reza, campeava a folia, minuciosamente descrita pelo cronista
baiano
[14].
Alberto Silva
que, como já declaramos, escreveu o melhor estudo a respeito do culto de São
Tomé na Bahia, ensina, estribado nas pesquisas que empreendeu, que em três
locais aparecem as pegadas de Sumé na costa brava. O primeiro, visitado por
Nóbrega, onde ficaram assinaladas quatro pisadas do santo junto a um rio; o
segundo, descoberto por um pescador, com uma só pegada, referida por Simão de
Vasconcelos, fotografada pelo jornal A Tarde em 1916 e conhecida de Silva
Campos e, finalmente, no lugar denominado Unhão, já no começo de Itapoã, diante
do cruzeiro ali erguido, encontrado pelo citado Alberto Silva [15].
Recapitulamos a
história das pegadas de Itapoã; resta-nos rememorar as notícias sobre as pisadas
de São Tomé em Paripe, primeiramente mencionadas por Gabriel Soares de Sousa.
"Do porto do Paripe", disse o cronista do primeiro século, "se vai a terra
afeiçoando à maneira de ponta lançada ao mar e corre assim obra de uma légua,
onde está uma ermida de São Tomé em um alto, ao pé do qual ao longo do mar estão
umas
pegadas
assinaladas em uma lájea, que diz o gentio, que diziam seus antepassados
que andara por ali havia muito tempo, um santo, que fizera aqueles sinais com
os pés" [16]. Na era do seiscentos, o padre Simão de Vasconcelos,
inquestionavelmente um excepcional divulgador de lendas, encontrou na tradição
oral a notícia da passagem de São Tomé pela Bahia, os serviços que prestara ao
povo e as pegadas que imprimiu numa pedra em Paripe, numa localidade que, em
homenagem ao santo tomou a denominação de São Tomé de Paripe. Mas não viu as
duas pegadas. "As pegadas do santo, que no princípio disse, não vi, nem hoje se
enxergam; vi a lajem e nela me mostraram os antigos naquele lugar a parte aonde
estiveram e aonde os viram os seus olhos no que não pode haver dúvida alguma" [17]. Reapareceram as pisadas, admitiu Alberto Silva, certamente em outro ponto,
consoante descrição de Melo de Morais, que escreveu: "ao longo da praia de
Paripe em um alto uma ermida consagrada a São Tomé ao pé da qual existe uma
laje com umas pegadas assinaladas e perto uma fonte que, dizia o gentio ter
ouvido antepassados andara por ali um santo e que havia muito tempo fizera
aqueles sinais com o pé" [18]. Viu-os, ainda, muito apagados, em 1926, o
historiador Teodoro Sampaio. No ano seguinte, a "pedra da Toca", onde estavam os
sinais foi cortada pela estrada de rodagem. Desapareceram, assim, os famosos
sinais que Alberto Silva procurou infrutiferamente, deparando apenas a fonte
milagrosa que brota do outro penedo junto ao das pegadas [19].
Notas
1. Silva,
Alberto. A lenda de Sumé na historiografia baiana. Bahia, Centro de Estudos
Baianos, 1954, pub.28, p.4. — O professor
Frederico Edelweis escreveu, sobre a matéria, uma interessante comunicação,
ainda inédita, lida no Congresso do V Centenário do nascimento de Pedro
Álvares Cabral, no Instituto Histórico Brasileiro.
2.
Nóbrega, Manuel da. Cartas do
Brasil. Rio de Janeiro, Of. Industrial Gráfica, 1931, p.78.
3.
Nóbrega, Manuel da. Op cit. p.91.
4.
Nóbrega, Manuel da. Op. cit. p.101.
5. Leite,
Serafim. Novas cartas jesuíticas (De Nóbrega a Vieira). São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1940, p.141.
6. Leite,
Serafim. Op. cit. p.145.
7. Cartas avulsas 1550-1568. Rio de Janeiro, Oficina Industrial Gráfica, 1931, p.135.
8. Cartas
avulsas, p.130.
9. Cartas
avulsas, p.132.
10. Silva, Alberto. Op. cit., p.8.
11.
Silva, Alberto.
Op.cit, p.8
12.
Campos, João da Silva. "Tradições baianas". Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. 1930,
nº 56, p.521.
13.
Campos, João da Silva. Op. cit, p.521.
14.
Campos, João da Silva. Op. cit., p.522.
15.
Silva, Alberto. Op. cit, p.10
16.
Souza, Gabriel Soares
de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. Lisboa, Liv. Portuguesa,
1938, t.2, p.513.
17.
Silva, Alberto. Op. cit., p.11.
18.
Silva, Alberto. Op. cit, p.11
19.
Silva, Alberto. Op. cit., p.12.
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