|
Domingos Vieira Filho
A chuva está inscrustada no inconsciente folclórico de quase todos os povos.
Chuva e água fecundante que fertiliza os campos, reverdece as matas e desaltera
o homem. E a água é essencial porque é fonte certa de vida. Possui por isso um
contéudo mágico que práticas folclóricas universais registram. A ribeira do
Elanus, a nascente Théspia na ilha de Hélicon e os manadeiros de água quente de
Sinuessa eram consideradas virtuosas contra a esterilidade.
No Panjab, segundo refere Paul Saintyves, as mulheres estéreis costumam
mergulhar nas cisternas onde foi lançado Puram, espécie de réplica de José do
Egito, certas de que com esse banho ficarão grávidas. (Saintyves, Les Vierges
mères et les maissances miraculeuses).
Frazer em La rama dorada (trad. esp. México), no capítulo "El dominio mágico
de lá lluvia", estudou exaustivamente o assunto, arrolando práticas
mágico-religiosas em torno da chuva nos quatro cantos do mundo.
No Maranhão, como em outras áreas ligadas à chuva, quando o urubu esvoaça do
país, circulam inúmeras superstições, inquieto diz o povo que vai chover. A lua
apresentando um contorno sombrio é chuva na certa. Chovendo no dia 1º de
novembro, dia de Todos os Santos, o inverno vindouro será bem molhado, isto é
abundante, intenso. Se no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, não
chover copiosamente ou mesmo não chover, o inverno seguinte será ruim, escasso,
fraco, com prejuízo certo para a lavoura. É bom aparar a água da primeira chuva
de 1º de maio. Contém virtudes miríficas. O mesmo sucede com a chuva derramada
nos dias de Santa Luzia. Em setembro temos as chuvas de caju e de manga.
A chuva na paremiologia é torrencial. Aqui conhecemos alguns provérbios e
frases-feitas, como estas. "Pode chover canivete", "Vem chuva que nem cabelo de
sapo", "Abril água mil" e "Quando março não bota, abril abarrota", estes de
nítida proveniência lusitana. (Cf. Pedro Chave, Rifoneiro português,
Porto, 2ª ed.).
Da chuva fina, irritante, que não molha roupa mas constipa, diz-se que não
quebra osso, é o "chororó" da linguagem popular. Cair na chuva significa
enfrentar a vida, trabalhar duro para vencer.
E chuva com sol, aqui, como em toda parte, é casamento de raposa com rouxinol.
Parlenda velha, universal, em alguns países com implicação mágica. Estudaram a
chuva no folclore Veríssimo de Melo e Luís da Câmara Cascudo, respectivamente em
A chuva na tradição popular e Anúbis e outros ensaios e Adivinhando
chuva...
Quando menino, ouvimos cantar sempre, nos começos do inverno, estes versos
curiosos saudando o advento da água prolífica:
Chove chuva
Prá capim nascer
Prá boi comer
Prá boi C....
Prá passarinho comer
Prá passarinho cantar...
E nos estios prolongados o povo saía às ruas entoando preces para chover.
E para fazer cessar as chuvas torrenciais há o costume de invocar a proteção de
santos e santas do opulentíssimo hagiológio cristão. Santa Clara, nesse
particular, é providencial. No interior é comum em tais momentos se recitar esta
quadrinha:
Santa Clara, clariai,
São Domingo, alumiai,
São Jerômo abrir o sol,
Prá secá nosso lençol.
Ou, então, se joga para cima do telhado sal ou cinza numa colher, recitando o
refrão:
Santa Clara, clariai.
|