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José Alípio Goulart
Não foi unicamente em tropa que o
muar mostrou sua excelência como animal de carga. Isolado, vamos encontrá-lo
nessa atividade prestando inestimáveis serviços em cidades, vilas, povoados, e
mesmo nos reduzidos limites das propriedades particulares, engenhos, fazendas,
por todo esse interior adentro, carregando a mais variada carga, servindo no
comércio em grosso e mesmo no pequeno, de porta em porta, atento ao mercador — quase
sempre seu proprietário — na serventia da freguesia.
A medida que os engenhos foram sendo
instalados em locais afastados dos cursos d’água, quando então a jangada e a
canoa já não ancoravam mais a poucos passos da porta da casa-grande, entraram em
ação mais pronunciada os conhecidos cambiteiros, denominação dada aos muares
que, isoladamente, trabalhavam no transporte de carga, principalmente quando
esta era apoiada em cambitos. Por extensão, a mesma denominação
— cambiteiro — acabou sendo dada ao homem que, de
cipó ou relho na mão, trabalhava com cada um desses animais, todo tempo ao seu
lado, carregando, descarregando, gritando, vociferando; mas batendo muito pouco.
Nos engenhos, uma das atividades
principais dos cambiteiros
era a de carregar feixes de cana, do canavial para a casa da moenda; além disso,
serviam no transporte da mandioca, das plantações para a casa-de-farinha;
destas, levavam a farinha em sacos para o armazém onde eram guardados; na
cangalha, levavam sacos de açúcar para os portos fluviais, à beira do rio; e,
voltando ao cambito, ainda lhes competia transportar feixes de lenha das matas
para as cozinhas das casas-grandes de fogão sempre aceso, como também aparecem
atolados em grandes feixes de capim destinados ao regalo gastronômico do cavalo
de sela do dono daquele mundo todo.
Nos lugares mais povoados do interior,
nos aglomerados com
foros de "cidade" e nas vilas
urbanamente mais audaciosas, a atividade do muar, isolado, sempre foi muito
grande. Jacás de aves; caçuás carregados de frutas, legumes ou cereais; feixes
de cana para chupar; carvão e lenha para a cozinha; capim, para os cavalos de
quintal; latas e barrilotes de água; cestos de louça de barro; fardos de
fazendas e caixas de miudezas, eram outras tantas cargas de lombo de muar nas
"ruas" dessas localidades. Há até certos tipos que ficaram mais gravados que
outros.
Em certas regiões banhadas pelo rio
São Francisco, há uma figura muito popular que é a do aguadeiro. Acompanhado do seu
muar — burro, mula ou jumento — que conduz de dois a quatro barrilotes
presos à cangalha, aquele mercador percorre as ruas ajustando preço para o
fornecimento do precioso líquido. Feito isto, vai à beira do "Velho Chico", enche os
depósitos e volta a fazer entrega das encomendas ajustadas.
O mais comovente de tudo isso é ver que, terminada sua pesada faina
diária, o pobre asno regressa à sua estrebaria ainda vergado sob o peso de pelo
menos dois enormes feixes de capim. O que conforta é saber que talvez seja esta
a carga que suporta com maior prazer...
A utilização do muar como animal de
sela nunca chegou a ser regular e nem muito intensa: sempre se resumiu a casos
de absoluta necessidade, inclusive de pessoas de ínfima condição financeira mas
que, tão pronto podiam, adquiriam seu cavalo de sela. A andadura do muar, mais
propícia ao transporte de carga do que de passageiro, por lhe faltar a leveza de
passo, a rapidez e a garbosidade dos cavalos, sempre foi o elemento
diferenciador, nesse particular, entre as duas raças.
Em compensação, se o cavalo é tido como o animal nobre, amigo, fiel
ao homem, o muar, por sua vez, é muito hábil, inteligente
mesmo, se assim se pode dizer. Em pouco tempo acostuma-se com a rotina diária
do trabalho que lhe impõem, dispensando qualquer iniciativa do seu condutor
nesse sentido. E os que o utilizaram como animal de sela ou de carga,
principalmente em longas viagens pelos caprichosos caminhos de ontem, não
esqueceram de fazer referência à sua sagacidade e aprimorada inteligência.
A título de curiosidade, vamos
relembrar aqui algumas palavras de um dos que pasmaram com essas qualidades dos
muares: "Para mim é fenômeno digno de nota e
inexplicável a precisão com que os burros sentem a profundidade de um lamaçal.
Aparentemente penetram às cegas nos maiores charcos. A lama cinzenta, um tanto
espessa, salta na cabeça do animal e do homem, mas pode-se ter a firme certeza
de que o animal conseguirá passar. E depois chega o mesmo animal a um lamaceiro
que parece pequeno e insignificante. Ele pára e fareja e depois segue para
um lugar inteiramente diverso, onde não vê como passar, e avança com decisão. Examinando-se, então, com um pau, os
lugares que o animal acaba de farejar e de recusar — pois visivelmente nada há ou antes
tudo parece bem — encontra-se um buraco cheio de lama
viscosa, um atoleiro, onde um animal se enterraria completamente. Não há
nenhuma dúvida de que o animal nunca faz a investigação com o casco mas sempre
com o focinho. Mas como com o sentido do olfato ou com a fina sensibilidade do
focinho, pode medir a profundidade de um viscoso atoleiro é, para mim, incompreensível. Mas, quanto
mais perigosos são os lugares, tanto mais calmo e seguro vai o animal; e um
cavaleiro judicioso nada pode fazer melhor do que abandonar-se inteiramente ao
seu burro".[1]
O
muar
é um produto híbrido de burro e égua ou
de cavalo e burra. Os produtos da primeira geração, especialmente, são sempre
animais robustos, pacientes e sóbrios. Distinguem-se neles dois tipos principais
um, ligeiro, próprio para os transportes a dorso nas montanhas e caminhos
íngremes; outro, pesado, próprio para a tração.
O sertanejo brasileiro atribui aos
termos "égua" e "besta" sentido pejorativo, imoral mesmo; então, para
referir-se a tais animais, chama-os de "lária", e isso mesmo precedido de um
"com licença da palavra". Informa Câmara Cascudo que é medieval o costume "de dar nomes
aos animais, nomes cristãos ou convencionais, como vemos no
Roman de Renart" [2].
Notas
1. Robert Avé-Lallemant. Viagem pelo sul do Brasil. Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro, 1953, 2º v., p.111).
2. Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954, p.308.
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