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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Palhoça
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Os mocambos, por Joaquim Ribeiro

A rede, por Múcio Leão

O muar, porJosé Alípio Goulart
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O muar

José Alípio Goulart

Não foi unicamente em tropa que o muar mostrou sua excelência como animal de carga. Isolado, vamos encontrá-lo nessa atividade prestando inestimáveis serviços em cidades, vilas, povoados, e mesmo nos reduzidos limites das propriedades particulares, engenhos, fazendas, por todo esse interior adentro, carregando a mais variada carga, servindo no comércio em grosso e mesmo no pequeno, de porta em porta, atento ao mercador — quase sempre seu proprietário — na serventia da freguesia.

A medida que os engenhos foram sendo instalados em locais afastados dos cursos d’água, quando então a jangada e a canoa já não ancoravam mais a poucos passos da porta da casa-grande, entraram em ação mais pronunciada os conhecidos cambiteiros, denominação dada aos muares que, isoladamente, trabalhavam no transporte de carga, principalmente quando esta era apoiada em cambitos. Por extensão, a mesma denominação — cambiteiro — acabou sendo dada ao homem que, de cipó ou relho na mão, trabalhava com cada um desses animais, todo tempo ao seu lado, carregando, descarregando, gritando, vociferando; mas batendo muito pouco.

Nos engenhos, uma das atividades principais dos cambiteiros era a de carregar feixes de cana, do canavial para a casa da moenda; além disso, serviam no transporte da mandioca, das plantações para a casa-de-farinha; destas, levavam a farinha em sacos para o armazém onde eram guardados; na cangalha, levavam sacos de açúcar para os portos fluviais, à beira do rio; e, voltando ao cambito, ainda lhes competia transportar feixes de lenha das matas para as cozinhas das casas-grandes de fogão sempre aceso, como também aparecem atolados em grandes feixes de capim destinados ao regalo gastronômico do cavalo de sela do dono daquele mundo todo.

Nos lugares mais povoados do interior, nos aglomerados com foros de "cidade" e nas vilas urbanamente mais audaciosas, a atividade do muar, isolado, sempre foi muito grande. Jacás de aves; caçuás carregados de frutas, legumes ou cereais; feixes de cana para chupar; carvão e lenha para a cozinha; capim, para os cavalos de quintal; latas e barrilotes de água; cestos de louça de barro; fardos de fazendas e caixas de miudezas, eram outras tantas cargas de lombo de muar nas "ruas" dessas localidades. Há até certos tipos que ficaram mais gravados que outros.

Em certas regiões banhadas pelo rio São Francisco, há uma figura muito popular que é a do aguadeiro. Acompanhado do seu muar — burro, mula ou jumento — que conduz de dois a quatro barrilotes presos à cangalha, aquele mercador percorre as ruas ajustando preço para o fornecimento do precioso líquido. Feito isto, vai à beira do "Velho Chico", enche os depósitos e volta a fazer entrega das encomendas ajustadas.

O mais comovente de tudo isso é ver que, terminada sua pesada faina diária, o pobre asno regressa à sua estrebaria ainda vergado sob o peso de pelo menos dois enormes feixes de capim. O que conforta é saber que talvez seja esta a carga que suporta com maior prazer...

A utilização do muar como animal de sela nunca chegou a ser regular e nem muito intensa: sempre se resumiu a casos de absoluta necessidade, inclusive de pessoas de ínfima condição financeira mas que, tão pronto podiam, adquiriam seu cavalo de sela. A andadura do muar, mais propícia ao transporte de carga do que de passageiro, por lhe faltar a leveza de passo, a rapidez e a garbosidade dos cavalos, sempre foi o elemento diferenciador, nesse particular, entre as duas raças.

Em compensação, se o cavalo é tido como o animal nobre, amigo, fiel ao homem, o muar, por sua vez, é muito hábil, inteligente mesmo, se assim se pode dizer. Em pouco tempo acostuma-se com a rotina diária do trabalho que lhe impõem, dispensando qualquer iniciativa do seu condutor nesse sentido. E os que o utilizaram como animal de sela ou de carga, principalmente em longas viagens pelos caprichosos caminhos de ontem, não esqueceram de fazer referência à sua sagacidade e aprimorada inteligência.

A título de curiosidade, vamos relembrar aqui algumas palavras de um dos que pasmaram com essas qualidades dos muares: "Para mim é fenômeno digno de nota e inexplicável a precisão com que os burros sentem a profundidade de um lamaçal. Aparentemente penetram às cegas nos maiores charcos. A lama cinzenta, um tanto espessa, salta na cabeça do animal e do homem, mas pode-se ter a firme certeza de que o animal conseguirá passar. E depois chega o mesmo animal a um lamaceiro que parece pequeno e insignificante. Ele pára e fareja e depois segue para um lugar inteiramente diverso, onde não vê como passar, e avança com decisão. Examinando-se, então, com um pau, os lugares que o animal acaba de farejar e de recusar — pois visivelmente nada há ou antes tudo parece bem — encontra-se um buraco cheio de lama viscosa, um atoleiro, onde um animal se enterraria completamente. Não há nenhuma dúvida de que o animal nunca faz a investigação com o casco mas sempre com o focinho. Mas como com o sentido do olfato ou com a fina sensibilidade do focinho, pode medir a profundidade de um viscoso atoleiro é, para mim, incompreensível. Mas, quanto mais perigosos são os lugares, tanto mais calmo e seguro vai o animal; e um cavaleiro judicioso nada pode fazer melhor do que abandonar-se inteiramente ao seu burro".[1]

O muar é um produto híbrido de burro e égua ou de cavalo e burra. Os produtos da primeira geração, especialmente, são sempre animais robustos, pacientes e sóbrios. Distinguem-se neles dois tipos principais um, ligeiro, próprio para os transportes a dorso nas montanhas e caminhos íngremes; outro, pesado, próprio para a tração.

O sertanejo brasileiro atribui aos termos "égua" e "besta" sentido pejorativo, imoral mesmo; então, para referir-se a tais animais, chama-os de "lária", e isso mesmo precedido de um "com licença da palavra". Informa Câmara Cascudo que é medieval o costume "de dar nomes aos animais, nomes cristãos ou convencionais, como vemos no Roman de Renart" [2].

 

Notas

1. Robert Avé-Lallemant. Viagem pelo sul do Brasil. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1953, 2º v., p.111).

2. Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954, p.308.

(Goulart, José Alípio. Meios e transportes no interior do Brasil. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Serviço de Documentação, 1959, p.176-179)