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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Palhoça
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Os mocambos, por Joaquim Ribeiro

A rede, por Múcio Leão

O muar, porJosé Alípio Goulart
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


A rede

Múcio Leão

A nossa venerável rede já aparece no primeiro documento relativo ao Brasil. Lá está na carta de Pero Vaz de Caminha. Vão os conquistadores brancos visitar a aldeia dos índios, e eis como Caminha a descreve: "Segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas cada uma como esta nau capitânea; e eram de madeira, e de ilhargas de tábuas, e cobertas com palha de razoada altura, e todas em uma só casa, sem nenhum repartimento; tinham de dentro de muitos esteios e de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos em cada esteio, altas, em que dormiam; e debaixo, para se agüentarem, faziam seus fogos."

Objeto de uso imprescindível para o índio, foi logo a rede um objeto também imprescindível para o branco, que tão bem procura assimilar tantos hábitos selvagens. Em São Paulo por exemplo, a difusão da rede foi imensa. Todo mundo só dormia em rede. Sérgio Buarque de Holanda alude a uma determinada cama que existiu em São Paulo no século XVIII: a de Gonçalo Pires. Mas acrescenta: "Em verdade, não era essa cama a única existente na época em São Paulo. Existia ainda a de Gaspar Cunha e de sua mulher Isabel Sobrinha."

Como em São Paulo, a rede é, no Nordeste, um elemento insubstituível de vida. Segundo Gardner, a rede é, à noite, a cama preferida por ser muito fresca — o que ele, que durante três anos não dormiu em outra coisa, pode atestar; e é durante o dia, o substituto da cadeira ou do sofá...

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Dormida de índios, a rede passa, com efeito, a ser dormida de brancos. E como os brancos a ela se adaptam, como a amam, como a adoram! Há, nesse sentido, um depoimento curioso — o do padre Rui Pereira, o amabilíssimo jesuíta, aquele doce homem para o qual o Brasil era o paraíso na terra. Ele expressava a sua infinita felicidade de viver no Brasil, e meditava: "Dir-me-ão; que vida pode ter um homem dormindo em uma rede, pendurado no ar como rédea de uvas? Digo que é isto cá, tão grande coisa que, tendo eu cama de colchões, e aconselhando-me o médico que dormisse na rede, a achei tal que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nela não dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho."

Ainda hoje será assim. Se o Nordeste, em geral, adotou a cama como um móvel de uso constante — nem por isso baniu a rede. E há regiões nordestinas, sobretudo no interior, em que a rede continua a ser durante a noite a cama em que se dorme e durante o dia o sofá ou a cadeira em que se repousa.

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Além do lugar de dormir, a rede era também veículo de transporte. Ainda hoje no interior será usada — ora para transportes de enfermos ou até de mortas, como a vimos pessoalmente tanta vez, em localidades pernambucanas; ora para conduzir pessoas importantes, que não desejam cansar os pés.

Koster, que tanto se divertiu com as coisas brasileiras, conta um episódio curioso, ligado a rede como meio de transporte. Achava-se ele enfermo no engenho, e tendo de ir a Recife, teve de recorrer a uma rede, que era conduzida por negros. Ao atravessarem Olinda, uma preta perguntou se ali ia algum morto. Respondeu um dos carregadores: "Não é um morto que levamos aqui: é o diabo, que vai dentro da rede." Depois voltou-se para Koster e perguntou: "Não é mesmo, patrão?". Ao que Koster respondeu: "É sim." A boa mulher continuou seu caminho, benzendo-se e excomungando: "Ave Maria! Deus vos defenda!"

Motivo de constante saudade para os nortistas ou nordestinos que emigram para o Sul, para os sulistas que sairam do país, a rede é uma fonte de inspiração do brasileiro. Lá está celebrada na emoliente e quente poesia de Gonçalves Crespo. Lá está nas deliciosas trovas de Adelmar Tavares.

(Leão, Múcio. "A rede". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1961, primeiro caderno, p.6)