|
Joaquim Ribeiro
Por se apresentarem de forma mais
típica e original, os jangadeiros do norte têm sido mais celebrados do que
qualquer outro agrupamento de pescadores. São eles homens simples que,
praticando muito embora o heroísmo cotidiano de enfrentar mares bravios,
desconhecem a jactância ou a fanfarronada. Não usam embarcações de bom calado
nem se valem dos recursos modernos da arte de navegar.
São, além do mais, os seus meios os
mais rústicos e rudimentares, pois jangada pode ser considerada um fóssil de
embarcação.
Eles mesmos fabricam esse curioso
instrumento de flutuação, cuja invenção atribuem, num de seus racontos
místicos, a São Pedro, o pescador.
A jangada é o produto cultural mais
típico da vida dos praieiros nordestinos, e constitui um verdadeiro símbolo da
civilização material do nosso litoral nortenho. Compõe-se, regularmente, de seis paus, de
peiúba, podendo, às vezes, ser composto de cinco se o do meio for assaz
grosso. Os dois paus do centro chamam-se meios,
os dois imediatos bordos e
os dois últimos memburas. Os acessórios da jangada, de popa a proa,
possuem terminologia pitoresca. Ei-la:
Banco de vela
— serve para sustentar o mastro grande e
a vela.
Carlinga
— tabuleta com furos embaixo do banco de
vela, em que se prende o pé do mastro, mudando-se de um para outro conforme a
conveniência da ocasião.
Bolina
— tábua que, entre os dois meios e junto
ao banco de vela, serve para cortar as águas e evitar que a jangada
descaia para sotavento.
Vela
— uma grande e única, de algodãozinho,
de forma de um triângulo isósceles, cosida numa corda junto ao mastro, o que se
chama palombar a vela; chama-se limar a vela, para ficar boa,
enchê-la de limo verde, o que se consegue botando-lhe sangue de peixe com água
salgada e deixando-a exposta ao sereno. Uma vela bem limada
dura por dois anos, mais ou menos.
Ligeira
— corda presa à ponta do mastro e nos
espeques para segurar aquele.
Quimanga
— cabaço que guarda a comida.
Cuia de vela
— concha de pau com que se molha a vela
quando venta, donde o ditado popular:
Enquanto venta,
água na vela...
Tapinambaba
— (já vulgarmente
pinambaba) maçame de linha com anzóis.
Samburá
— cesto de boca apertada onde se guarda
o peixe.
Bicheira
— grande anzol preso num cacete, com que
se puxa o peixe pescado para cima da jangada, a fim de não quebrar a linha.
Banco de governo à popa
— no qual se assenta o mestre.
Macho e fêmea
— dois calços à popa, onde se mete o
remo, servindo este de leme.
Araçanga
— cacete com que se mata o peixe
pescado.
Ipu — arame com que é presa a linha ao anzol
para o peixe não cortá-la.
Atapu
— (corruptela do tupi, ita,
pedra, e pu, grito) búzio com que o jangadeiro chama os
fregueses à compra do peixe.
Há variantes dessas denominações
populares: pinambaba, poita (corda), apeíba, etc., registradas
nos Estudos cearenses, de Florival Seraine.
Na construção das jangadas, lembra
Gilberto Freire no Guia prático, histórico e sentimental da
cidade do
Recife, observa-se certo
ritual lunar:
"Não serram madeira para jangada nem
caibros para mocambo em noite de lua cheia que a madeira apodrece."
Aquele outro estudioso, F. Seraine,
ainda informa: "Comumente a tripulação de uma jangada
é a seguinte: mestre, proeiro, rebique, e bico de proa.
O mestre é aquele que governa a
embarcação, dirigindo-a para toda parte. Fica colocado geralmente entre o banco
de governo e os espeques. Suas ordens são respeitadas
pelos outros tripulantes. O
proeiro é o que fica localizado próximo ao samburá; sustenta a corda da
jangada, molha a vela, quando vai de terra para o alto-mar. Rebique é o
pescador que está colocado na parte mais anterior da jangada e o bico de
proa, aquele que fica atrás do rebique, na bolina; molha a vela, quando a
jangada vem do mar para a terra."
É com essa máquina rudimentar que os
jangadeiros trabalham na lida marítima. Conhecem as épocas das boas
pescarias, guiam-se pelos astros e trazem para os mercados e feiras praianas,
dentre outros, os peixes alimentícios:
cavalas, garoupas, arabaianas, siobas, biquaras, sirigados, séreas, etc.
Pescam também cangulos, "cuja sopa,
feita com a cabeça do peixe, é alimento de grande fama local como nutritivo,
dizem que até como afrodisíaco."
E, aí, nessas feiras são vendidos ao
lado de bagres, caraúnas, budiões, arraias, xixarros, carapitangas, xaréus,
aribebens, bocas-moles, palombetas, etc.
A técnica de pescar dos jangadeiros tem a
sua originalidade local.
Consideram o mês de novembro como o
mais propício às pescarias. É tempo em que a "ventania tá larga", segundo
dizem.
As constelações que no entender deles
apontam "boa saída pra terra" são: o Cruzeiro do
Sul, o
Cruzeirinho e a Estrela de Pernambuco.
Afirmam que "quatro ventos cardeais" e
"doze ventos gerais" são os mais úteis para a direção da jangada.
Na praia de Acaraú e em outros lugares
festejam o êxito das pescarias. No Mucuripe, porém, não fazem festejo algum.
Há peixes que exigem, em suas
pescarias, técnicas especiais. A apanha dos peixes voadores é feita de modo
inédito e pitoresco, conforme divulga Roquete Pinto, baseado em Domingos
Barros:
"Assim, os praieiros do Rio Grande do
Norte inventaram um processo de pesca sem anzol e sem rede... para apanhar voadores."
Da praia, diz Domingos Barros,
o pescador avista ao longe a manta de voadores correndo e voando em certa
direção. Rápido, apresta a jangada e larga-a. Nas vizinhanças do cardume esmaga e
esfrega nos nordos da embarcação os intestinos de peixes anteriormente
apanhados." Então, os peixes voadores precipitam-se sobre a jangada, atraídos
pela carniça; e os jangadeiros os vão colocando dentro das cestas, sem mais
trabalho. Às vezes sucede de que a jangada corre risco de virar, porque outros
voadores vêm se atirar sobre os primeiros, ultrapassando o peso que comporta a
embarcação. Então o caçador começa a fugir da caça... o jangadeiro trata de ganhar a
costa, perseguido pelo bando.
Persiste ainda entre os praieiros do
norte o costume de registrar o horário das marés em frases rítmicas e
proverbiais:
Lua fora, lua posta
Quarto de maré na costa
Lua nova, lua cheia
Preamar às quatro e meia
Lua empinada
Maré repontada
Atribui Pereira da Costa, no
Mosaico pernambucano, tais provérbios aos antigos práticos do porto de
Recife. A verdade, porém, é que se trata de tradição mais antiga, que remonta
aos antigos navegadores, tanto que em Portugal ainda hoje sobrevivem ritmos de
análoga natureza.
A origem da jangada é resultado de uma
convergência de elemento ameríndio (tupi-guarani) e de elemento indo-português. Os tupis conheciam a
jangada sem vela, não há dúvida. Na carta de Pero
Vaz de Caminha há descrição dessa embarcação primitiva. Por sua vez, os
portugueses, na Índia Oriental, conheceram a jangada, inclusive de lá trouxeram
a própria denominação.
A fixação desse tipo de embarcação se
deu, sobretudo, no Nordeste.
No extremo-norte do ciclo costeiro, a
jangada vai rareando. Na costa paraense, surgem as curiosíssimas vigilengas, embarcações com pitorescas
velas em forma de asas de morcego. É algo de típico no delta amazônico.
Já para o sul do “ciclo da jangada”
predominam as barcaças,
que embelezam as enseadas e
ancoradouros de Alagoas, Sergipe e Bahia.
Em todo esse ciclo costeiro,
litorâneo, a pesca constitui a principal expressão da atividade sócio-econômica. Até nos
folguedos, esse reflexo da economia local aparece. Haja vista, por exemplo, as
seguintes adivinhas:
Sou fino e sou grosso
Sou pesado e maneiro
Sou filho do algodão.
Sou feito de
carreira
(Tarrafa)
O que é, o que é?
Antes de ser, já o é?
(Pescada)
Ao lado da pesca, nas regiões dos
coqueirais, a venda do coco, igualmente, representa fator apreciável na vida
econômica do povo e, por sua vez, também aparece esse motivo local na vida
lúdica do praieiro.
Colheu José Jansen no Maranhão:
Bonita torre,
bonitos cachos.
(Coqueiro)
No Ceará, Daniel Gouveia coligiu:
Sem entrar água,
Sem entrar vento,
Tem um poço
D'água dentro.
(Coco)
Há ainda, em alguns trechos do litoral
nortista, as regiões de salinas. Aí a vida material já se diferencia e tende a
deformar a técnica de vida do praieiro pela ação concomitante da
industrialização do sal e a conseqüente politização dos trabalhadores das
salinas.
A mancha cultural mais típica de todo
o litoral do norte condensa-se na costa nordestina e, aí, o ponto mais denso é a
área dos jangadeiros.
A fraseologia confirma o ambiente
marítimo: "Missa e maré se espera em pé"; "O direito do anzol é ser torto";
"Tudo quanto cai no munzuá é peixe" (munzuá é um engenho de taquara para apanhar
peixe); "O caranguejo por ser muito cortês perdeu o pescoço"; "Para não ser
enforcado o caranguejo não tem pescoço"; "Por morrer um caranguejo não se cobre
o mangue de luto".
|