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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Imaginário
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Seis histórias de caboclos, por Gustavo Barroso

Jurupari, por Osvaldo Orico

Anhangá, por Eduardo Galvão
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


Anhangá

Eduardo Galvão

Anhangá é uma outra criatura da mata [1]. Acreditam que seja invisível, mas muita gente já ouviu o seu assobio na mata. Soa muito distante a princípio para aproximar-se mais e mais como se estivesse dentro da barraca ou do pouso do mateiro. Coimbra relata que de certa feita trabalhava com alguns companheiros no corte de madeira. Uma tardinha, de volta à barraca para o jantar, ouviram de longe o assobio que veio soando mais perto até parecer estar rodeando suas cabeças. Coimbra que já topara com outros anhangás recomendou aos camaradas que ficassem quietos. Qualquer zoada e estariam assombrados [2]. Espargiu um pouco de água benta que trazia em uma garrafa e aguardou. O assobio finalmente distanciou-se.

Trataram de terminar o trabalho para abandonar o local com medo de novo encontro com os anhangás. Estes aparecem algumas vezes sob a forma de um pássaro, inhambu-anhangá [3], que na descrição local difere do inhambu comum pela penugem branca e cabeça emplumada de vermelho. Porém a malineza do anhangá é em parte atribuída ao inhambu comum, classificado como aquele de visagento. Um informante, para confirmar essa peculiaridade, cita a própria experiência. Há alguns anos atrás, saía costumeiramente à tarde para matar inhambus, cujo pio imitava com perfeição. Em uma dessas ocasiões atraiu um inhambu-anhangá. Era um tiro fácil e ele não hesitou. O pássaro caiu sobre ele como se fosse um tremendo peso, derrubando-o inconsciente. Nunca mais voltou a caçar temendo as conseqüências de atirar num anhangá.

Segundo uma outra história, um comerciante das vizinhanças tinha o mesmo hábito. Derrubava inhambus todas as tardes. Certo dia quando foi recolher o pássaro atirado não o encontrou por mais que esmiuçasse o mato. Preocupado e curioso, voltou a procurá-lo no dia seguinte. Exatamente no lugar que marcara encontrou uma grande casa de cabas. Desistiu de caçar inhambus tomando a experiência como aviso.

 

Notas

1. Anhangá é geralmente descrito como um fantasma ou espírito, veja-se por exemplo Morais (1939, p.55), Magalhães (1913, p.156) e Stradelli (1929, p.370).

2. Assombrar tem aqui um significado local, exprime o fato do indivíduo perder a sombra que lhe é roubada por uma dessas criaturas da mata. A perda da sombra tem um sentido de perder a alma. A conseqüência é a loucura. Fala-se comumente “assombrado de bicho”.

3. Stradelli (1929, p.370) em seu vocabulário nheengatu que se refere especificamente ao Amazonas descreve uma variedade de formas de animais tomadas pelo anhangá: anta, tatu, pirarucu, veado, etc.

(Galvão, Eduardo. Santos e visagens; um estudo da vida religiosa de Itá, Baixo Amazonas. 2ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional / Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1976. Brasiliana, 284, p.74-75)