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Eduardo Galvão
Anhangá é uma outra criatura
da mata [1]. Acreditam que seja invisível, mas muita gente já ouviu o seu
assobio na mata. Soa muito distante a princípio para aproximar-se mais e mais
como se estivesse dentro da barraca ou do pouso do mateiro. Coimbra relata que
de certa feita trabalhava com alguns companheiros no corte de madeira. Uma
tardinha, de volta à barraca para o jantar, ouviram de longe o assobio que veio
soando mais perto até parecer estar rodeando suas cabeças. Coimbra que já topara
com outros anhangás recomendou aos camaradas que ficassem quietos. Qualquer
zoada e estariam assombrados [2]. Espargiu um pouco de água benta que trazia em
uma garrafa e aguardou. O assobio finalmente distanciou-se.
Trataram de terminar o
trabalho para abandonar o local com medo de novo encontro com os anhangás. Estes
aparecem algumas vezes sob a forma de um pássaro, inhambu-anhangá [3], que na
descrição local difere do inhambu comum pela penugem branca e cabeça emplumada
de vermelho. Porém a malineza do anhangá é em parte atribuída ao inhambu comum,
classificado como aquele de visagento. Um informante, para confirmar essa
peculiaridade, cita a própria experiência. Há alguns anos atrás, saía
costumeiramente à tarde para matar inhambus, cujo pio imitava com perfeição. Em
uma dessas ocasiões atraiu um inhambu-anhangá. Era um tiro fácil e ele não
hesitou. O pássaro caiu sobre ele como se fosse um tremendo peso, derrubando-o
inconsciente. Nunca mais voltou a caçar temendo as conseqüências de atirar num
anhangá.
Segundo uma outra história, um
comerciante das vizinhanças tinha o mesmo hábito. Derrubava inhambus todas as
tardes. Certo dia quando foi recolher o pássaro atirado não o encontrou por mais
que esmiuçasse o mato. Preocupado e curioso, voltou a procurá-lo no dia
seguinte. Exatamente no lugar que marcara encontrou uma grande casa de cabas.
Desistiu de caçar inhambus tomando a experiência como aviso.
Notas
1. Anhangá é geralmente
descrito como um fantasma ou espírito, veja-se por exemplo Morais (1939, p.55),
Magalhães (1913, p.156) e Stradelli (1929, p.370).
2. Assombrar tem aqui um
significado local, exprime o fato do indivíduo perder a sombra que lhe é roubada
por uma dessas criaturas da mata. A perda da sombra tem um sentido de perder a
alma. A conseqüência é a loucura. Fala-se comumente “assombrado de bicho”.
3. Stradelli (1929, p.370) em
seu vocabulário nheengatu que se refere especificamente ao Amazonas descreve uma
variedade de formas de animais tomadas pelo anhangá: anta, tatu, pirarucu,
veado, etc.
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