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Osvaldo Orico
Tendo incutido no ânimo dos selvagens que o espírito que os visitava, à
noite, outra coisa não era senão o espírito mau, o filho das trevas, é natural
que os jesuítas nos certifiquem de que essa era a crença dos naturais.
Efetivamente, segundo testemunho de quase todos os missionários, jurupari é
sinônimo de demônio. Em Mitos ameríndios, tive ocasião de assinalar o
motivo da analogia. Transcreverei aqui o que se indicou sobre o curioso mito e
que é a parte mais interessante de sua legenda:
"Entende Couto de Magalhães que a palavra jurupari é uma corruptela de
jurupoari, que se traduziria ao pé da letra por boca, mão, sobre; tirar da boca.
Montoya fornece esta frase: che jurupoari, tirou-me a palavra da boca. O
dr. Batista Caetano traduz a palavra por: ser que vem à nossa rede, isto
é, ao lugar em que dormimos. 'Seja ou não corruptela a palavra, escreve o autor
d'O selvagem, qualquer das duas traduções está conforme a tradição
indígena, e, no fundo, exprime a idéia supersticiosa dos naturais, segundo a
qual este ente estranho visita os homens em sonho e causa aflições tanto
maiores, quanto, trazendo-lhes imagens de perigos horríveis, os impede de
gritar, isto é, tira-lhes faculdade da voz' (V. ob. cit., p.149).
Está ai nitidamente desenhada a imagem do pesadelo.
Esta concepção, que é a que mais se tem repetido e vem sendo transmitida de
geração em geração pelas amas de leite, não é, entretanto, a que encontra maior
fundamento na verdade histórica nem a que mais satisfaz ao conde Ermano
Stradelli. Para este, (leia-se a "Leggenda del Jurupari", in
Bollettino della Societá Geografia Italiana, 1890, III e "Vocabulário
neêngatu-portuguez", Revista do Instituto Histórico, t.104, v.158,
p.4970), o jurupari é o legislador, filho da virgem, concebido sem cópula, pela
virtude do sumo da cucura do mato e que veio mandado pelo sol para reformar os
costumes da terra, a fim de poder encontrar nela uma mulher perfeita com que o
sol pudesse casar. Ate agora, e nisso a versão de Stradelii se mostra ao mesmo
tempo rigorosa e irreverente, não foi possível ao embaixador do grande astro
encontrar semelhante criatura. Não a encontrou, nem a encontrará jamais.
Entretanto, talvez porque lhe não desagrade semelhante missão, continua a busca,
sem que se saiba o caminho por onde se tem arriscado nessa esforçada e inútil
tentativa. Só regressará ao céu no dia em que a tiver encontrado e puder
corresponder à confiança nele depositada. Enquanto isso não acontece, desenvolve
sua atividade noutro sentido. É a ele que se deve uma serie de benefícios com
que os homens se regozijam. Quando apareceu sobre a Terra, as mulheres é que
mandavam, elas é que representavam o chamado sexo forte. O enviado do sol não
achou justo tal domínio. Cassou-lhes imediatamente o fastígio, transferindo o
poder para as mãos do homem, sob o fundamento de que as coisas, como estavam,
iam de encontro às leis do sol. Para que os homens aprendessem a ser
independentes delas, instituiu grandes festas em que só eles podiam tomar parte,
e segredos que só deles deviam ser conhecidos. As mulheres que fraudassem tais
regras deviam morrer. E, em obediência desta lei, morreu Ceuci, a própria mãe do
legislador. Os usos, leis, costumes e preceitos que o herói solar espalhou na
sua missão pela terra ainda hoje são professados e escrupulosamente mantidos por
várias tribos da bacia do Amazonas, e, embora tudo leve a pensar que jurupari é
mito dos tupis, atesta Stradelli que viu praticadas suas leis por tribos das
mais diversas procedências.
Corroborando essa versão, que é, a meu ver, a que situa o mito no seu mais
remoto e exato sentido, escreve Antônio Brandão de Amorim, paciente coletor de
histórias e lendas da planície, que jurupari foi, em verdade, "o grande
legislador dos índios, filho do sol, concebido em moça virgem sem contato de
homem, por meio do sumo da cucura, (pouruman Aubi), no momento em que ela
comia embaixo da árvore, e no próprio dia em que apetecera, essa fruta proibida
às donzelas". [1].
Na lenda colhida por Max Roberto, as leis de jurupari revelam que os homens
somente são iniciados nos seus segredos depois de sofrerem, desde a puberdade,
rigoroso preparo e atingirem a idade em que se sentem plenamente seguros e
fortes para resistir a qualquer sedução que lhes queira arrebatar os segredos. A
morte é a punição do que o desvendar. Castigo idêntico recai sobre a mulher que,
mesmo por acaso, soube ou viu os instrumentos sagrados. Nem uma contemplação ou
transigência é admitida. Os laços mais estreitos de parentesco são postos à
margem; o pai não pode eximir-se de dar a morte ao filho ou à filha; o filho a
dá-la aos pais, o irmão ao irmão, o marido à mulher. Estabelece-se, porém, uma
diferença na aplicação do castigo: mata-se o homem a curabi, flecha ou
cuidaru [2], e a mulher morre pelo veneno ou afogada porque é vedado
derramar-lhe sangue.
Cremos bem que o significado mais fiel da ação de jurupari é, efetivamente,
esse. Amorim, anotando uma das lendas neêngatus —
Paraman e Duhi — invoca o testemunho de Alfredo Russel Wallace, viajante e
naturalista inglês que em 1848 partiu com Bates para a América do Sul, aqui se
familiarizou com várias tribos indígenas do Rio Negro e teve ocasião de
assistir, em parte, a uma das cerimônias do jurupari na sua passagem pela
cachoeira do Caruru (Rio Uapés). O depoimento do famoso naturalista, seu
trabalho Travels on the Amazon and Rio Negro, confirma a versão
que nos apresenta o culto do jurupari como uma cerimônia vedada à presença das
mulheres:
'Aqui, eu também vi e ouvi pela primeira vez o jurupari, ou a dança do diabo.
Certa tarde, bebeu-se o caxiri. Ao anoitecer, um som como que de um trombone
penetrou no ambiente, vindo ao lado do rio, em direção à vila. De repente, vi
oito índios se aproximarem tocando um deles os seus basoons. Era uma
música selvagem e agradável. Um concerto tolerável. Esses instrumentos, que são
fabricados de pele seca retorcida, têm um bocal de folhas. A noite, dirigi-me à
maloca. Lá também encontrei dois velhos índios tocando dois desses instrumentos.
E com que agilidade eles os agitavam de um lado para outro! Ora verticalmente,
ora horizontalmente, os movimentos sincronizados pelas contorções do corpo. Por
longo tempo fizeram uma música regular, sem que se notasse grande desafinação.
Grande é a superstição dos índios Wapés com relação ao basoon. Nenhuma
mulher, seja velha ou moça, tem direito de ver um desses instrumentos. As que
conseguem vê-los, são castigadas com a morte que, geralmente, é levada a efeito
por meio de envenenamento. Mesmo quando se chega a desconfiar que uma índia viu
um desses objetos, ela padece impiedosamente, não havendo santo que a acuda.
Conta-se que os próprios pais são os primeiros a exterminarem as filhas, o mesmo
acontecendo com os maridos em relação às mulheres. Grande era, pois, o meu
desejo em possuir alguns desses instrumentos. Falei, então, ao tucháua para que
me vendesse alguns, tendo ele aquiescido ao meu desejo, uma vez que eu me
prontificasse a recebê-los bem distante da vila, na minha volta para evitar
assim que qualquer das índias de sua tribo visse um um desses basoons.'
Entre as lendas e contos em que figura como herói jurupari, vale citar:
Jurupari — versão Dacé ou dos Tukanos (rio dos Uaupés ou Ukairy)
Izy ou Jurupari — lenda Jany ou Tarianá (rio dos Uaupés)
Cunhan eta maloca — A maloca das mulheres (Rio Branco)
Jurupari cunhan mucu eta irumo — O jurupari e as moças (rio Madeira)
Jurupari curumi irumo — O jurupari e o menino (rio Solimões)
Jurupam camunduçara irumu — O jurupari e o caçador (rio Tapajós)
Anhanga — O anhangá (dos índios Maranaus)
Mererena jurupari — O tinhoso Jurupari (Manaus)
Notas
1. Ver "Lendas neêngatus", em Revista do Instituto Histórico, t.100,
v.154, p.180.
2. No Museu Paraense tive oportunidade de apreciar vários exemplares desses
instrumentos: curabi é uma lança com a ponta acerada e estada de
venenosas culturas vegetais; quando penetra no alvo, a ponta quebra e fica no
chão a lança; cuidaru, de que há variadas espécies, é um objeto em forma
de remo ou cacete, destinado a quebrar a cabeça do inimigo. Algumas tribos, como
a dos makuchis, por exemplo, adornavam caprichosamente esses instrumentos de
morte.
3. Em poder do dr. João Barbosa Rodrigues Júnior encontravam-se fragmentos
desses cantos e melodias selvagens, bem como a máscara de jurupari, extraída
segundo os indícios de sua remota legenda.
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