Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Imaginário
....................................
Seis histórias de caboclos, por Gustavo Barroso

Jurupari, por Osvaldo Orico

Anhangá, por Eduardo Galvão
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Oficina
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


Seis histórias de caboclos

Gustavo Barroso

O caboclo e o ovo

Um fazendeiro devia pagar a um caboclo o salário de um ano de trabalho. Chamou-o e disse-lhe:

— Vamos fazer uma adivinhação. Se você adivinhar, ganha, além do seu dinheiro, mais cinqüenta mil réis; se não adivinhar, perde o dinheiro que lhe devo. Está feito?

— Está

— Bem. Então, adivinhe: que é? que é? alvo é, galinha o pôs?

O caboclo matutou largo tempo e, depois, repondeu, alvarmente:

— Ou é mastro de navio ou é cabo de sovela!

Perdeu o que levara um ano a ganhar.

 

O caboclo e a égua

Um caboclo trabalhara um ano inteiro para ganhar uma égua. No dia em que devia recebê-la, o amo lhe disse:

— Vou dar-te uma adivinhação. Se adivinhares, levas a égua; se não, fico com ela. Queres?

— Quero!

— Que é? que é, que cacareja aqui e ali põe um ovo?

Após longa meditação, o tolo replicou:

— Meu amo, só sendo cabo de foice ou carapuça de alambique.

E perdeu a égua.

Estas duas variantes da mesma história ou anedota foram posteriormente aplicadas pelos mestiços brasileiros aos portugueses. Um dia é da caça, o outro do caçador...

 

O caboclo e o avarento

Um avarento tinha como criado um caboclo. Para poupar dinheiro, duas ou três vezes por semana o obrigava a jejuar, sob o pretexto da invocação de santos milagrosos ou de festas importantes da religião. No dia de Todos os Santos, forçou-o a um jejum rigorosíssimo.

Na semana seguinte, quis fazer o caboclo jejuar novamente; mas este se recusou com energia, afirmando que jejuara já um dia em honra de todos os santos e estava quites com eles todos...

 

O caboclo e a queimada

Um caboclo trouxe ao amo a notícia de ter encontrado uma cerca de plantação sendo destruída pelo fogo, nascido duma ponta de cigarro de qualquer passante descuidado. O fazendeiro perguntou-lhe:

— Por que você não derrubou as pontas do lance da cerca com a foice que traz ao ombro, a fim de isolar o fogo?

O outro riu idiotamente e retrucou:

— Eu não tinha ordem de vosmicê...

O patrão tornou, furioso:

— Então, por que não esfregou o traseiro nas labaredas e brasas até apagá-las?

E o caboclo, espantado:

— Credo, patrão! eu não tenho bunda d’água, não senhor!

 

O caboclo e o recém-nascido

Numa fazenda, um. caboclo desmazelado servia de criado e sobre ele se lançavam as culpas de tudo o que aparecia de mal feito. Nasce uma criança, filha do dono da casa. O caboclo dirige-se ao pai e indaga, curiosamente, se o menino veio ao mundo direitinho, sem defeito algum.

— Para que você quer saber? pergunta o amo.

— É porque, responde o caboclo, se nasceu torto ou aleijado, o senhor é bem capaz de dizer que foi obra minha...

 

O caboclo, a mulher e a espiongarda

Um caboclo gabava a um amigo sua espingarda de caça, de carregar pela boca. Era ajuntadeira de chumbo e alcançava tão longe, tão certeira, que ele, da porta de casa, conseguira matar um veado que passava sobre um morro, a grande distância. O amigo, incrédulo, perguntou quantos caroços tinham alcançado o alvo e ele retrucou, incontinente:

— Dois!

— Dois só?! E onde pegaram?

Atrapalhado pela mentira, o caboclo explicou, sem pensar:

— Um na cabeça e o outro no pé.

— É impossível! tornou o amigo. Você disse que a espingarda é ajuntadeira, portanto nessa distância não podia ter espalhado assim os caroços de chumbo.

O caboclo, entalado, não sabia o que responder, quando a cabocla, sua mulher, que ouvia tudo, veio em seu auxílio:

— Não te lembras, Maneco, que, quando atiraste no bicho, ele estava coçando a orelha com o pé?...

(Barroso, Gustavo. Ao som da viola. Rio de Janeiro, 1944, p.344-346)