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Gustavo Barroso
O caboclo e o
ovo
Um fazendeiro
devia pagar a um caboclo o salário de um ano de trabalho. Chamou-o e disse-lhe:
— Vamos fazer
uma adivinhação. Se você adivinhar, ganha, além do seu dinheiro, mais cinqüenta
mil réis; se não adivinhar, perde o dinheiro que lhe devo. Está feito?
— Está
— Bem. Então,
adivinhe: que é? que é? alvo é, galinha o pôs?
O caboclo
matutou largo tempo e, depois, repondeu, alvarmente:
— Ou é mastro de
navio ou é cabo de sovela!
Perdeu o que
levara um ano a ganhar.
O caboclo e a égua
Um caboclo
trabalhara um ano inteiro para ganhar uma égua. No dia em que devia recebê-la, o
amo lhe disse:
— Vou dar-te uma
adivinhação. Se adivinhares, levas a égua; se não, fico com ela. Queres?
— Quero!
— Que é? que é,
que cacareja aqui e ali põe um ovo?
Após longa
meditação, o tolo replicou:
— Meu amo, só
sendo cabo de foice ou carapuça de alambique.
E perdeu a égua.
Estas duas
variantes da mesma história ou anedota foram posteriormente aplicadas pelos
mestiços brasileiros aos portugueses. Um dia é da caça, o outro do caçador...
O caboclo e o avarento
Um avarento
tinha como criado um caboclo. Para poupar dinheiro, duas ou três vezes por
semana o obrigava a jejuar, sob o pretexto da invocação de santos milagrosos ou
de festas importantes da religião. No dia de Todos os Santos, forçou-o a um
jejum rigorosíssimo.
Na semana
seguinte, quis fazer o caboclo jejuar novamente; mas este se recusou com
energia, afirmando que jejuara já um dia em honra de todos os santos e estava
quites com eles todos...
O caboclo e a
queimada
Um caboclo
trouxe ao amo a notícia de ter encontrado uma cerca de plantação sendo destruída
pelo fogo, nascido duma ponta de cigarro de qualquer passante descuidado. O
fazendeiro perguntou-lhe:
— Por que você
não derrubou as pontas do lance da cerca com a foice que traz ao ombro, a fim de
isolar o fogo?
O outro riu
idiotamente e retrucou:
— Eu não tinha
ordem de vosmicê...
O patrão tornou,
furioso:
— Então, por que
não esfregou o traseiro nas labaredas e brasas até apagá-las?
E o caboclo,
espantado:
— Credo, patrão!
eu não tenho bunda d’água, não senhor!
O caboclo e o
recém-nascido
Numa fazenda,
um. caboclo desmazelado servia de criado e sobre ele se lançavam as culpas de
tudo o que aparecia de mal feito. Nasce uma criança, filha do dono da casa. O
caboclo dirige-se ao pai e indaga, curiosamente, se o menino veio ao mundo
direitinho, sem defeito algum.
— Para que você
quer saber? pergunta o amo.
— É porque,
responde o caboclo, se nasceu torto ou aleijado, o senhor é bem capaz de dizer
que foi obra minha...
O caboclo, a
mulher e a espiongarda
Um caboclo
gabava a um amigo sua espingarda de caça, de carregar pela boca. Era ajuntadeira
de chumbo e alcançava tão longe, tão certeira, que ele, da porta de casa,
conseguira matar um veado que passava sobre um morro, a grande distância. O
amigo, incrédulo, perguntou quantos caroços tinham alcançado o alvo e ele
retrucou, incontinente:
— Dois!
— Dois só?! E
onde pegaram?
Atrapalhado pela
mentira, o caboclo explicou, sem pensar:
— Um na cabeça e
o outro no pé.
— É impossível!
tornou o amigo. Você disse que a espingarda é ajuntadeira, portanto nessa
distância não podia ter espalhado assim os caroços de chumbo.
O caboclo,
entalado, não sabia o que responder, quando a cabocla, sua mulher, que ouvia
tudo, veio em seu auxílio:
— Não te
lembras, Maneco, que, quando atiraste no bicho, ele estava coçando a orelha com
o pé?...
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