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Leão Rozemberg
Centenas e centenas de embarcações de todos os tipos deslizam mansamente nas
verdes e serenas águas da baía de Todos os Santos nesta primeira manhã do ano.
Barcos e saveiros que fazem o intercâmbio de mercadoria entre a capital do estado e inúmeras cidades e localidades do interior, grandes e pequenas lanchas
e os navios que servem às cidades do recôncavo participam do original cortejo
que empresta um colorido todo especial, dos mais belos e agradáveis à sempre
bela Bahia.
É a festa dos navegantes que se está realizando. Todos os homens do mar,
barqueiros, doqueiros, estivadores, pescadores, marítimos, etc., participam da
grande festa em homenagem ao padroeiro dos navegantes. E o seu ponto alto é a
grande procissão marítima que realizam todos os anos conduzindo a imagem do
Senhor dos Navegantes, acompanhado por centenas de embarcações as mais variadas,
predominando, sobretudo, os barcos e saveiros que, com suas brancas velas, dão
um colorido impressionante ao cortejo.
Tradição que não morre
É esta uma das tradições conservadas com carinho pelo povo baiano. Todos os anos
na primeira manhã de janeiro o cortejo percorre a velha Bahia. As pequenas
embarcações deslizam mansamente, singrando as sempre verdes e serenas águas que
contornam a quadricentenária cidade do Salvador. E a cada ano que surge a
procissão parece ser sempre maior, como se verificou este ano. Nem uma só
embarcação fica atracada no porto, a não ser os grandes navios. Estes no entanto,
não deixam de participar da festa; embandeiram-se, ornamentam-se e saudam com
seus apitos, o grande cortejo que passa.
A procissão
A procissão dos navegantes tem o seu início no dia 31 de dezembro quando a
imagem de Nossa Senhora dos Navegantes é transportada, numa procissão menor, da
igreja
da Boa Viagem para a da Conceição da Praia. Na rampa do mercado é aguardada pela
imagem de Nossa Senhora da Conceição, sendo então levada para a igreja da
Conceição da Praia, que se encontra próxima.
Na manhã de 1º de janeiro todas as embarcações se reúnem e partem do cais da
praça Cairu. A procissão vai até a Barra, voltando em seguida sempre acompanhada
pelo grande número de embarcações, para a igreja da Boa Viagem, conduzindo a
imagem do Senhor dos Navegantes, que volta ao seu altar.
Durante o trajeto espoucam foguetes. Ressoa nos ares o ritmo cadenciado da
música popular, entremeiada dos cânticos religiosos. O ritmo surdo dos atabaques
mistura-se com as notas do violão acompanhando a voz sempre ritmada dos homens e
mulheres. Na sua maior parte são aqueles que adoram a mãe d'água, Iemanjá ou
Janaína como a rainha, a deusa do mar e que tem na religião cristã o seu
padroeiro no Senhor dos Navegantes. Ouvem-se, ainda as tristes canções dos
negros, aquelas mesmas que cantavam seus antepassados nos velhos tempos da
escravidão.
Na Boa Viagem uma grande multidão espera o préstito que vem do mar e é recebido
com prolongadas salvas de palmas e o espoucar dos foguetes.
Festa dos navegantes
Em toda a história popular da Bahia encontramos manifestações religiosas dos
homens que tinham suas atividades ligadas ao mar e se viam forçados a
enfrentá-lo para chegar à nossa terra. Nos diversos pontos da orla marítima
baiana erguem-se templos religiosos fundados pelos homens de mar. Sempre que
alcançavam a baía de Todos os Santos procuravam aqueles templos para render
graças aos santos que veneravam, pelo êxito alcançado nas viagens.
Segundo se sabe, a tradicional procissão foi assim instituída pelos "costeiros"
que faziam tráfego da Costa da África para a Bahia. Logo depois, passou a ser
uma festa de todos os homens do mar.
A grande festa já sofreu, com o correr dos tempos as suas alterações. Há muitos
anos a imagem do padroeiro dos navegantes era transportada da igreja da Boa
Viagem à da Conceição da Praia, à noite, numa grande festa popular. O transporte
era feito em barco da Marinha. Hoje é feito numa galeota oferecida por
carpinteiros. Isto porque, com a separação da Igreja do Estado, uma autoridade
marítima não consentiu mais a utilização do barco oficial. Daí o oferecimento da
galeota que ainda hoje é utilizada.
Por outro lado, com a guerra de 1914, a Capitania dos Portos proibiu o trânsito
de embarcações na Bahia, após as 18 horas. Desta forma, a condução da imagem do
Padroeiro dos Navegante passou a ser feita, como agora acontece, às 17 horas.
No tempo da monarquia, as fortalezas que guarnecem as costas da capital baiana e
navios de guerra salvavam quando passava a procissão. Seus canhões hoje estão
mudos e relembram apenas tempos que se foram. Com eles, no entanto, não morreu
esta tradição do povo. Ela está bem viva como verificamos este ano e como
continuará a suceder durante cada novo ano.
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