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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Festança
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A burrinha

Desfiles e cortejos populares, por Edison Carneiro

Meu Senhor dos Navegantes, por Leão Rozemberg
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


Meu Senhor dos Navegantes

Leão Rozemberg

Centenas e centenas de embarcações de todos os tipos deslizam mansamente nas verdes e serenas águas da baía de Todos os Santos nesta primeira manhã do ano. Barcos e saveiros que fazem o intercâmbio de mercadoria entre a capital do estado e inúmeras cidades e localidades do interior, grandes e pequenas lanchas e os navios que servem às cidades do recôncavo participam do original cortejo que empresta um colorido todo especial, dos mais belos e agradáveis à sempre bela Bahia.

É a festa dos navegantes que se está realizando. Todos os homens do mar, barqueiros, doqueiros, estivadores, pescadores, marítimos, etc., participam da grande festa em homenagem ao padroeiro dos navegantes. E o seu ponto alto é a grande procissão marítima que realizam todos os anos conduzindo a imagem do Senhor dos Navegantes, acompanhado por centenas de embarcações as mais variadas, predominando, sobretudo, os barcos e saveiros que, com suas brancas velas, dão um colorido impressionante ao cortejo.


Tradição que não morre

É esta uma das tradições conservadas com carinho pelo povo baiano. Todos os anos na primeira manhã de janeiro o cortejo percorre a velha Bahia. As pequenas embarcações deslizam mansamente, singrando as sempre verdes e serenas águas que contornam a quadricentenária cidade do Salvador. E a cada ano que surge a procissão parece ser sempre maior, como se verificou este ano. Nem uma só embarcação fica atracada no porto, a não ser os grandes navios. Estes no entanto, não deixam de participar da festa; embandeiram-se, ornamentam-se e saudam com seus apitos, o grande cortejo que passa.


A procissão

A procissão dos navegantes tem o seu início no dia 31 de dezembro quando a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes é transportada, numa procissão menor, da igreja da Boa Viagem para a da Conceição da Praia. Na rampa do mercado é aguardada pela imagem de Nossa Senhora da Conceição, sendo então levada para a igreja da Conceição da Praia, que se encontra próxima.

Na manhã de 1º de janeiro todas as embarcações se reúnem e partem do cais da praça Cairu. A procissão vai até a Barra, voltando em seguida sempre acompanhada pelo grande número de embarcações, para a igreja da Boa Viagem, conduzindo a imagem do Senhor dos Navegantes, que volta ao seu altar.

Durante o trajeto espoucam foguetes. Ressoa nos ares o ritmo cadenciado da música popular, entremeiada dos cânticos religiosos. O ritmo surdo dos atabaques mistura-se com as notas do violão acompanhando a voz sempre ritmada dos homens e mulheres. Na sua maior parte são aqueles que adoram a mãe d'água, Iemanjá ou Janaína como a rainha, a deusa do mar e que tem na religião cristã o seu padroeiro no Senhor dos Navegantes. Ouvem-se, ainda as tristes canções dos negros, aquelas mesmas que cantavam seus antepassados nos velhos tempos da escravidão.

Na Boa Viagem uma grande multidão espera o préstito que vem do mar e é recebido com prolongadas salvas de palmas e o espoucar dos foguetes.


Festa dos navegantes

Em toda a história popular da Bahia encontramos manifestações religiosas dos homens que tinham suas atividades ligadas ao mar e se viam forçados a enfrentá-lo para chegar à nossa terra. Nos diversos pontos da orla marítima baiana erguem-se templos religiosos fundados pelos homens de mar. Sempre que alcançavam a baía de Todos os Santos procuravam aqueles templos para render graças aos santos que veneravam, pelo êxito alcançado nas viagens.

Segundo se sabe, a tradicional procissão foi assim instituída pelos "costeiros" que faziam tráfego da Costa da África para a Bahia. Logo depois, passou a ser uma festa de todos os homens do mar.

A grande festa já sofreu, com o correr dos tempos as suas alterações. Há muitos anos a imagem do padroeiro dos navegantes era transportada da igreja da Boa Viagem à da Conceição da Praia, à noite, numa grande festa popular. O transporte era feito em barco da Marinha. Hoje é feito numa galeota oferecida por carpinteiros. Isto porque, com a separação da Igreja do Estado, uma autoridade marítima não consentiu mais a utilização do barco oficial. Daí o oferecimento da galeota que ainda hoje é utilizada.

Por outro lado, com a guerra de 1914, a Capitania dos Portos proibiu o trânsito de embarcações na Bahia, após as 18 horas. Desta forma, a condução da imagem do Padroeiro dos Navegante passou a ser feita, como agora acontece, às 17 horas.

No tempo da monarquia, as fortalezas que guarnecem as costas da capital baiana e navios de guerra salvavam quando passava a procissão. Seus canhões hoje estão mudos e relembram apenas tempos que se foram. Com eles, no entanto, não morreu esta tradição do povo. Ela está bem viva como verificamos este ano e como continuará a suceder durante cada novo ano.

(Leão Rozemberg. "Meu Senhor dos Navegantes". Última Hora, janeiro de 1953)