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Maurílio Torres
Jabuticaba, em Minas, só não virou coisa histórica porque está ficando burguesa
(apesar da pretura e pequenez). Pois não é que a jabuticaba, como se fora reles
melancia, virou objeto de comércio no asfalto, vendida pelos "camelôs,
fruteiros" em carrocinhas cobertas de lona, no bulício florido das avenidas de
Belo Horizonte.
Em contraposição, comprar jabuticaba numa cidade do interior mineiro, vale por um
romance. Quando surgem as primeiras, todo mundo foge delas como o diabo da cruz:
quem é que não sabe que jabuticada fora da época é mais perigoso do que folha de
comigo-ninguém-pode? Em vão os burricos e muares, para tristeza dos respectivos
lombos, e desaponto dos vendedores, sobem e descem as ladeiras calçadas a
pé-de-moleque; ninguém quer saber de jabuticaba, enquanto não chover pesado.
Depois, é um Deus nos acuda. Com as primeiras chuvas, as jabuticabeiras, umas
árvores pesadonas com aqueles ares sombrios de coisas do século passado, ficam
carregadas de bolinhas pretas, tentadoras como a maça do paraíso.
O vendedor de jabuticadas, geralmente, sai com o burrico carregado dos dez
proverbiais balaiões de vara-de-bambu, presos cada um num lado da barriga. Por
cima, um ramo de jabuticabeira bem grande espetado...
— Ô moço, tem jaboticaba?
(Ninguém pronuncia "jabu", mas "jabo" mesmo: jaboticaba.)
— É de Casa Branca, dona.
Uns diálogos assim ficam guardados na lembrança, vindos, desde a época da
meninice vivida no interior, com toda a mágica influência que exerciam.
Jabuticaba de Casa Branca! As jabuticabas daquele lugarejo perdido entre as
montanhas de Minas tinham (devem ter ainda) um auê todo especial, até um cheiro
diferente, que fazia lembrar o cheiro dos pomares bem sortidos, da terra fértil,
das fazendas fartas, cheias de sinhá-meninas e gordas pretas-quituteiras.
Além de burricos e balaios, o vendedor de jabuticabas tem uma coisa
completamente surrealista: o litro. Jabuticaba não pesa nada, não pode ser vendida aos
quilos. É pequena e varia no tamanho para ser vendida por tostão cada.
Vendem-na, portanto, aos litros. Que litros são esses, ninguém sabe. Em geral, é
usada uma lata vazia de comporta de pêssego, cheia até à boca de jabuticaba, que
o dono dos cargueiros retira dos balaios impedindo que uma ou outra caia, com os
seus dedões compridos e calejados, enquanto o caldo vermelho de azinhavre, que a
fruta expele, escorre. Um litro, dois... Com cinco, enche-se um balaio e dá para
toda a família. A gente espera que, nesta época de inflação, nem a jabuticaba
tenha escapado e se assusta quando cobram uns modestos vinte mil réis por um
balaio cheio. Isto, no interior, bem entendido. E se, então se aluga um pé? Sim,
senhores, porque jabuticabeira em Minas, também é para ser alugada: por cinco
ou dez cruzeiros o "inquilino" tem o direito de passar o dia inteiro
encarapitado no pé, até não aguentar andar direito. E mesmo aí
as frutinhas exercem influência tão diabólica na gulodice do fulano que ele
precisa ser arrastado, senão arrebenta...
Os estudantes da velha Ouro Preto, para dar um exemplo mais corriqueiro,
cônscios do sabor diferente do fruto proibido, palmilham (clandestinamente)
quintais e hortas da antiga capital de Minas, na época das jabuticabas.
Jabuticaba, aí tem um sabor de aventura. Por muitos minutos só se ouve o "toc"
da casca grossa furada entre os dentes e a cuspidela do caroço para um lado.
Infalível é descoberta da "mamata" pelo dono da casa, que expulsa a turma com
uns tirozinhos para o ar (jabuticaba, no fim, dá e sobra, de modo que não
importa muito) e corridas desembaladas ladeiras abaixo. Amanhã, uma aventura a
mais para ser comentada na república.
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