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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Cancioneiro
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A mulata no folclore sul-riograndense, por Adão Carrazzoni

Desafio entre Manuel do Olho d' Água e Francisco Pamonha

O romance do conde de Alemanha, por Téo Brandão
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


O romance do conde de Alemanha

Téo Brandão

Em nossa obra Folclore de Alagoas (Maceió, 1949), no capítulo "Romances velhos em Alagoas", tivemos ocasião de dizer em conceito que é necessário agora quase três anos após, reformar parcialmente: "É possível, como afirma Menendez Pidal, que as colônias espanholas da América conservam ainda hoje muito melhor que no centro da península, as versões dos romances castelhanos". No Brasil, contudo, após as pesquisas de Celso de Magalhães e as coletâneas de Sílvio Romero e Pereira da Costa que datam de mais de 40 e 50 anos atrás, outras versões quase não foram registradas".

Afirmação cujo caráter categórico procuramos amenizar afirmando ao fim do capítulo: "É bem pssível que existam ainda outros romances peninsulares entre nós. Mas, decerto, não é fácil tarefa nem desprezível trabalho recolhê-las enquanto ainda é tempo e não se apagam as memórias, nem se calam as vozes dos últimos sabedores das maravilhosas narrativas medievalescas".

Aliás, em época bem anterior, Amadeu Amaral afirmava ainda mais categoricamente a raridade das canções novelescas tradicionais, embora também, como nós, procurasse adoçar a afirmativa com a ressalva: "entretanto a inexistência de publicação não significa a inexistência da matéria".

E tanto isso é verdade que no próprio estado de São Paulo têm sido recolhidas inúmeras versões de xácaras e romances velhos (haja visto o denso e minucioso Romanceiro recolhido pelo querido confrade e amigo Rossini Tavares de Lima justamente premiado com a primeira menção honrosa do Concurso de Monografias Folclóricas de São Paulo, no ano de 1950) tanto quanto em outros estados do Brasil.

Relatando no Primeiro Congresso Brasileiro de Folclore um "Romanceiro tradicional do Brasil" obtido do sr. Isnar Raposo, pelos folcloristas Joaquim Ribeiro e Wilson Rodrigues, o mestre Luís da Câmara Cascudo teve oportunidade de anotar a contribuição recente a espécie folclórica representada por onze versões do comandante Lucas Boiteux em Santa Catarina, 39 versões de nove xácaras colhidas em São Paulo por Rossini Tavares de Lima, treze versões de xácaras diversas obstidas por Hélio Galvão no Rio Grande do Norte, isto afora as nossas três versões alagoanas da Delganina, do Dom Carlos de Monte Alvar e do Conde de Flores, e a versão do Dom Jorge, de Fausto Teixeira, colhidos em Minas Gerais. A este registro ainda poderíamos acrescentar: uma versão da Bela condessa, por Maynard Araújo, uma versão da Margarida por Guilherme dos Santos Neves (Espírito Santo) e versões de Juliana, da Donzela que vai à guerra bem como uma versão em prosa da xácara Flor do Dia, obtidas por Angélica de Resende Garcia, em Minas Gerais.

Nós próprios, dando prosseguimento às nossas pesquisas na matéria conseguimos recolher além das três xácaras já citadas mais as seguintes versões: Dona Silvana (Silvaninha de Garret), Juliana e Dom Jorge, Dona Branca, o Cego, Dom Duardo e Bela em França (Peregrina de Garret), todas já registradas anteriormente em outras regiões do Brasil sob variantes, e por fim, uma xácara ao que nos consta inédita no Brasil — o Conde de Alemanha, e até agora não registrada, a menos que faça parte da coleção que Joaquim Ribeiro e Wilson Rodrigues obtiveram de um manuscrito do século XIX.

A versão obtida em Viçosa de Alagoas, reza assim:

Conde d'Alemanha

O sol já deu na vidraça
Resplandeu no claro dia
O que não sabia ninguém
Nem gente na corte sabia
Sabia dona Bernarda
Filha da própria rainha
— Filha, se sois sabedoria
A mim não queiras encobrir
Que dão conde de Alemanha
De ouro quer te vestir
— Não quero saber de tal ouro
Nem dele quero saber
Que meu pai vindo da missa
Um conto eu hei de fazer
— Chegue, chegue, senhor meu pai
E Deus queira lhe chegar
Que o dão conde de Alemanha
À força quer me beijar
— Filha, se o conde fez isto
Eu o manderei matar
Por sete homens de força
Mandarei o degolar
— Arrenego de tal leite
Que eu vos dei de mamar
Antes fosse uma besta fera
Que não soubesse falar
— Cale-se, cale-se, minha mãe
E Deus queira lhe calar
Não queira levar a morte
Que seu dão conde vai levar

Esta xácara é pela primeira vez registrada no Brasil, pois não se encontra nemmesmo nas maiores coletâneas de Sílvio Romero e Pereira da Costa, era em Portugal, entretanto, há 110 anos, como afirmou Garret, que lhe deu o primeiro registro "uma das mais válidas, mais cantadas e mais sabidas das gentes dos campos", tendo obtido de todas as províncias, até das de além mar cópias dela, cópias e fragmentos que reuniu, como sabia fazer, numa versão única, embora aqui e acolá apontasse variantes.

De certo é por isso sua cópia a mais longa das versões que compulsamos, mais espichada que a nossa e que a espanhola de Duran e até mesmo que a versão portuguesa de Joaquim e Fernando Pires de Lima, não sabendo eu se o será que as demais versões portuguesas: as de Teófilo Braga (duas versões), as duas de Ataíde de Oliveira e as de Firmino Martins, de Francisco Manuel Alves e de A. Lima Carneiro.

A versão alagoana que nos parecer ter, por mais sintética e precisa "aquela simplicidade sublime e verdadeiramente antiga" que Garret já encontrara nas versões que recolhera, aproxima-se muito mais no seu começo da versão espanhola de Duran que da portuguesa de Garret, como se pode comprovar nos trechos que transcrevemos: embora no final siga mais a lição garretiana.

Versão de Garret:

Já lá vem o sol na serra
Já lá vem o claro dia
E inda o conde de Alemanha
Com a rainha dormia
Não o sabe o homem nascido
De quantos na corte havia
Só o sabia a infanta
— Cala-te, cala-te lá infanta
Não digas tal minha filha
Que o conde de Alemanha
De ouro te vestiria
Não quero vestidos d'oiro
Mau logo a quem nos vestiro
Padastro com o meu pai vivo
Nunca eu o consentiria
...
Mal haja, filha o meu leite
Mas quem te deu de mamar
Que a um conde tão bonito
A morte foste causar
— Cal'-te daí, minha mãe
Ninguém lhe ouça dizer tal
Que a morte que o conde leva
Não lh'a faça eu levar

Versão de Duran:

A tan alta va la luna
Como el sol de medio dia
Caendo el buon conde Alleman
Com esa dama yacia
No lo sabre hombre nacido
De cuantos en corte habia
Sino solo la condesa
Esa condesa su hija
Así la duena la hablara
De esta manera decía:
— Cuanto vieredes condessa
Cuanto vieredes, encobrido
Daros ha el conde Alleman
Um manto de oro fino
...
Cuando me tomó en sus brazos
Yo me quizó respetar
— Si el os tomó en nus brazos
Y con voz quizo holgar
En antes que el sol saise
Yo lo mandaré matar

Em nossa versão não constam, talvez por mero esquecimento de informantes, as primeiras acusações da infanta ao conde de Alemanha, acusações de pouca importância e deste modo não levadas em conta pelo rei. Esquecimento que ao meu ver melhorou de muito a narrativa dando-lhe mais objetividade e precisão e levando o singelo agento a um clímax mais intenso e vigoroso pela seqüência dos quatro diálogos que sem quaisquer discriminações explicativas, retratam e reproduzem quadros de extraordinária força, plástica e beleza pictórica.

(Brandão, Téo. "O romance do conde de Alemanha". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 6 de abril de 1952)