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Téo Brandão
Em nossa obra Folclore de Alagoas (Maceió, 1949), no capítulo
"Romances velhos em Alagoas", tivemos ocasião de dizer em conceito que é
necessário agora quase três anos após, reformar parcialmente: "É possível, como
afirma Menendez Pidal, que as colônias espanholas da América conservam ainda
hoje muito melhor que no centro da península, as versões dos romances
castelhanos". No Brasil, contudo, após as pesquisas de Celso de Magalhães e as
coletâneas de Sílvio Romero e Pereira da Costa que datam de mais de 40 e 50 anos
atrás, outras versões quase não foram registradas".
Afirmação cujo caráter categórico procuramos amenizar afirmando ao fim do
capítulo: "É bem pssível que existam ainda outros romances peninsulares entre
nós. Mas, decerto, não é fácil tarefa nem desprezível trabalho recolhê-las
enquanto ainda é tempo e não se apagam as memórias, nem se calam as vozes dos
últimos sabedores das maravilhosas narrativas medievalescas".
Aliás, em época bem anterior, Amadeu Amaral afirmava ainda mais
categoricamente a raridade das canções novelescas tradicionais, embora também,
como nós, procurasse adoçar a afirmativa com a ressalva: "entretanto a
inexistência de publicação não significa a inexistência da matéria".
E tanto isso é verdade que no próprio estado de São Paulo têm sido recolhidas
inúmeras versões de xácaras e romances velhos (haja visto o denso e minucioso
Romanceiro recolhido pelo querido confrade e amigo Rossini Tavares de Lima
justamente premiado com a primeira menção honrosa do Concurso de Monografias
Folclóricas de São Paulo, no ano de 1950) tanto quanto em outros estados do
Brasil.
Relatando no Primeiro Congresso Brasileiro de Folclore um "Romanceiro
tradicional do Brasil" obtido do sr. Isnar Raposo, pelos folcloristas Joaquim
Ribeiro e Wilson Rodrigues, o mestre Luís da Câmara Cascudo teve oportunidade de
anotar a contribuição recente a espécie folclórica representada por onze versões
do comandante Lucas Boiteux em Santa Catarina, 39 versões de nove xácaras
colhidas em São Paulo por Rossini Tavares de Lima, treze versões de xácaras
diversas obstidas por Hélio Galvão no Rio Grande do Norte, isto afora as nossas
três versões alagoanas da Delganina, do Dom Carlos de Monte Alvar
e do Conde de Flores, e a versão do Dom Jorge, de Fausto Teixeira,
colhidos em Minas Gerais. A este registro ainda poderíamos acrescentar: uma
versão da Bela condessa, por Maynard Araújo, uma versão da Margarida
por Guilherme dos Santos Neves (Espírito Santo) e versões de Juliana, da
Donzela que vai à guerra bem como uma versão em prosa da xácara Flor
do Dia, obtidas por Angélica de Resende Garcia, em Minas Gerais.
Nós próprios, dando prosseguimento às nossas pesquisas na matéria conseguimos
recolher além das três xácaras já citadas mais as seguintes versões: Dona
Silvana (Silvaninha de Garret), Juliana e Dom Jorge, Dona Branca,
o Cego, Dom Duardo e Bela em França (Peregrina de Garret), todas
já registradas anteriormente em outras regiões do Brasil sob variantes, e por
fim, uma xácara ao que nos consta inédita no Brasil — o Conde de Alemanha,
e até agora não registrada, a menos que faça parte da coleção que Joaquim
Ribeiro e Wilson Rodrigues obtiveram de um manuscrito do século XIX.
A versão obtida em Viçosa de Alagoas, reza assim:
Conde d'Alemanha
O sol já deu na vidraça
Resplandeu no claro dia
O que não sabia ninguém
Nem gente na corte sabia
Sabia dona Bernarda
Filha da própria rainha
— Filha, se sois sabedoria
A mim não queiras encobrir
Que dão conde de Alemanha
De ouro quer te vestir
— Não quero saber de tal ouro
Nem dele quero saber
Que meu pai vindo da missa
Um conto eu hei de fazer
— Chegue, chegue, senhor meu pai
E Deus queira lhe chegar
Que o dão conde de Alemanha
À força quer me beijar
— Filha, se o conde fez isto
Eu o manderei matar
Por sete homens de força
Mandarei o degolar
— Arrenego de tal leite
Que eu vos dei de mamar
Antes fosse uma besta fera
Que não soubesse falar
— Cale-se, cale-se, minha mãe
E Deus queira lhe calar
Não queira levar a morte
Que seu dão conde vai levar
Esta xácara é pela primeira vez registrada no Brasil, pois não se encontra
nemmesmo nas maiores coletâneas de Sílvio Romero e Pereira da Costa, era em
Portugal, entretanto, há 110 anos, como afirmou Garret, que lhe deu o primeiro
registro "uma das mais válidas, mais cantadas e mais sabidas das gentes dos
campos", tendo obtido de todas as províncias, até das de além mar cópias dela,
cópias e fragmentos que reuniu, como sabia fazer, numa versão única, embora aqui
e acolá apontasse variantes.
De certo é por isso sua cópia a mais longa das versões que compulsamos, mais
espichada que a nossa e que a espanhola de Duran e até mesmo que a versão
portuguesa de Joaquim e Fernando Pires de Lima, não sabendo eu se o será que as
demais versões portuguesas: as de Teófilo Braga (duas versões), as duas de
Ataíde de Oliveira e as de Firmino Martins, de Francisco Manuel Alves e de A.
Lima Carneiro.
A versão alagoana que nos parecer ter, por mais sintética e precisa "aquela
simplicidade sublime e verdadeiramente antiga" que Garret já encontrara nas
versões que recolhera, aproxima-se muito mais no seu começo da versão espanhola
de Duran que da portuguesa de Garret, como se pode comprovar nos trechos que
transcrevemos: embora no final siga mais a lição garretiana.
Versão de Garret:
Já lá vem o sol na serra
Já lá vem o claro dia
E inda o conde de Alemanha
Com a rainha dormia
Não o sabe o homem nascido
De quantos na corte havia
Só o sabia a infanta
— Cala-te, cala-te lá infanta
Não digas tal minha filha
Que o conde de Alemanha
De ouro te vestiria
Não quero vestidos d'oiro
Mau logo a quem nos vestiro
Padastro com o meu pai vivo
Nunca eu o consentiria
...
Mal haja, filha o meu leite
Mas quem te deu de mamar
Que a um conde tão bonito
A morte foste causar
— Cal'-te daí, minha mãe
Ninguém lhe ouça dizer tal
Que a morte que o conde leva
Não lh'a faça eu levar
Versão de Duran:
A tan alta va la luna
Como el sol de medio dia
Caendo el buon conde Alleman
Com esa dama yacia
No lo sabre hombre nacido
De cuantos en corte habia
Sino solo la condesa
Esa condesa su hija
Así la duena la hablara
De esta manera decía:
— Cuanto vieredes condessa
Cuanto vieredes, encobrido
Daros ha el conde Alleman
Um manto de oro fino
...
Cuando me tomó en sus brazos
Yo me quizó respetar
— Si el os tomó en nus brazos
Y con voz quizo holgar
En antes que el sol saise
Yo lo mandaré matar
Em nossa versão não constam, talvez por mero esquecimento de informantes, as
primeiras acusações da infanta ao conde de Alemanha, acusações de pouca
importância e deste modo não levadas em conta pelo rei. Esquecimento que ao meu
ver melhorou de muito a narrativa dando-lhe mais objetividade e precisão e
levando o singelo agento a um clímax mais intenso e vigoroso pela seqüência dos
quatro diálogos que sem quaisquer discriminações explicativas, retratam e
reproduzem quadros de extraordinária força, plástica e beleza pictórica.
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