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Adão Carrazzoni
Felício Antônio Guterres é um bugre velho, veterano da guerra do Paraguai,
que vive ainda hoje na histórica cidade de Rio Pardo. Vive ele, ainda forte e de
espírito lúcido e vivaz, pelos bares da cidade, contando os episódios pitorescos
uns, heróicos outros, de sua mocidade feliz e agitada que já vai tão longe,
perdendo-se num cenário de lendas e apagando-se nas brumas do passado...
Seus únicos amigos, fiéis e inseparáveis, são uma velha sanfona esburacada e
um bom cepo de pinga.
Desse velho bugre, relíquia do passado, de outras eras, recolhemos a letra da
toada que abaixo transcrevemos e que, possivelmente, terá valor como
contribuição a um futuro estudo do rico folclore sul-riograndense:
A sinhazinha prometeu-me
Mulatinha pra casá
As crioulas só de inveja
Agora querem me matá
Eu não quero mais mulata
Nem que ela venha do céu
Por causa de uma mulata
Fui pará em Montevidéu
Um laço de fita verde
De três dedos de largura
Na cintura da mulata
Mata qualquer criatura
Mulata bonita é veneno
Mata tudo que é vivente
Embriaga as criaturas
Tira a vergonha da gente...
Mulata, minha mulata
Quem te deu vestido azul?
Um soldado da brigada
Do Rio Grande do Sul
Marrecão do banhado
Marrequinha da lagoa
Bem dizia, meus amigos
Que mulata é coisa boa
Mulatinha ó doce de ovo
Não se come sem canela
Camarada de bom gosto
Não pode passar sem ela
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