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Alberto Silva
A primeira e única vez que vi uma chegança foi em Viçosa, sul do estado.
Meninozinho, curioso e esperto, contando, se muito, meus seis anos descuidosos
pensei eu durante algum tempo que aquele gajeiro, montado aos ombros de um seu
capitão estava mesmo descortinando, de mãos em pêlo, a nossa capital, quando
entoava esta trova:
Avistei meu comandante
Pois não me engano assim
São as terras da Bahia
É a igreja do Bonfim
Ora, como estes versos da chegança, cujo quadro burlesco nunca mais me saiu
da retina, também as histórias e as canções de crianças me ficaram, na lembrança
até hoje, e já agora para sempre.
Esta, por exemplo, com que minha avó me ninava, naquelas noitinhas quietas da
Vila sulista, triste, pausada, monótona.
Era Jorge ainda menino
Suas faces meus lábios beijava
Foi crescendo e de mim foi fugindo
Aquele anjo que tanto adorava
Foi crescendo e de mim foi fugindo
Como foge da sombra o clarão
Foi deixando a saudade em meu peito
Colocada no meu coração!
Mas existem outras, existiam muitas, pausadas, melancólicas, cantadas como
todas em voz soturna de despedaçar coração. Como esta:
Avistei o meu dom Jorge
No seu cavalo montado
Avistei minha Juliana
No seu estrado sentado
Soube meu dom Jorge
Que estavas para casar!
O casamento é amanhã
E hoje vim te avisar
Está aqui meu dom Jorge
Que tive para te ofertar
Juliana, que copo de vinho
É este, que me destes a beber
A vista me escureceu
Minha alma será do Céu
Meu corpo da terra fria
Minha riqueza de dona Maria
Um está muito em voga nos princípios deste século, raramente entoada em
nossos dias:
Senhora Santana
Ninai vossa filha
Enquanto ela dorme
Não faz maravilha
Esta menina não
Dorme na cama
Dorme nos braços
De senhora Santana
Mas não esquecerei, também, da seguinte, muito expressiva, que adormeceu
tantas crianças em seu tempo:
Abra porta gente
Que lá vem Jesus
Ele vem cansado
Com o peso da cruz
Com o peso da Cruz
Por nós carregou
Lavado de sangue
O nosso Redentor
E esta:
Dorme, dorme, meu filhinho
É noite, papai já veio
Teu maninho também dorme
Embalado no meu seio
Dorme, dorme, meu filhinho
Que as aves já estão dormindo
E as estrelas cintilantes
Lá no céu estão luzindo
Anunciando que horas
O galo cucaricou
E lá na torre da igreja
A mesma hora soou
Semelhante, aliás, àquela outra que as mesmas mães baianas cantavam, tempos
antes, pela guerra da Independência:
Acalenta-se, ó menino
Dorme, dorme pra crescer
O Brasil precisa filho
Independência ou morrer
A lista é longa, imensa, farta, enriquecendo os estudos folclóricos de
aspectos novos arrancados do nosso passado. Sinhá Virgínia, crioula
santamarense, de saia rodada e grosso correntão de ouro ao pescoço, contando-nos
em casa histórias de bichos, saía-se às folhas tantas com estes versos curiosos:
Ó Conhange dó mó
Lá má si mó mem
Tiraram ingaço do come
Pra quando conhante vir
Ingaço matar conhenge
Ora, maninha ora
Ora que já entendi!
Esta, porém, foi mais conhecida e mais cantarolada há cinqüenta anos:
Ei seu sossegue
Vá dormir seu sono
Está com medo diga
Que dinheiro tome
Ou então, relembrando certo hindu da época seguinte:
Maria Caxuxa, com quem dormes tu?
Durmo com um gato que faz miau
Maria Caxuxa, quem é teu amor?
Um soldadinho, que toca tambor
Mas esta é muito conhecida
Boi, boi boi
Boi da cara preta
Pega este menino
Que tem medo de careta
Ele não, ele não
Ele não coitadinho
Ainda que chore
Mas é bonitinho
Finalmente estas três cantigas de embalos infantis profundamente expressivas:
Minha juriti
Minha sabalê
Esta madrugada
Tive um sonho
Com você
Se você duvida
Venha cá
Que você vê
Minha juriti
Minha zabelê
Também:
Meu papagaio
Meu beija-flor
Estou dizendo
Que não tenho amor
Estou dizendo
Que não tenho amor
Meu papagaio
Meu beija-flor
Finalmente:
Senhora dona Sancha
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Queremos ver a cara
Que anjos são estes
Que andam carreando
De noite e de dia
Com seu padre-nosso
E sua ave-maria?
Somos filhas de um rei
E netas de um conde
Que manda que se esconde
Debaixo de uma pedra
De São Miguel Arcanjo
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