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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL
ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Catavento
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Adivinhas

Cantigas da minha infância, por Alberto Silva

Mamão podre

Palito delator

O senhor São Roque
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Almanaque
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...


Cantigas de minha infância

Alberto Silva

A primeira e única vez que vi uma chegança foi em Viçosa, sul do estado. Meninozinho, curioso e esperto, contando, se muito, meus seis anos descuidosos pensei eu durante algum tempo que aquele gajeiro, montado aos ombros de um seu capitão estava mesmo descortinando, de mãos em pêlo, a nossa capital, quando entoava esta trova:

Avistei meu comandante
Pois não me engano assim
São as terras da Bahia
É a igreja do Bonfim

Ora, como estes versos da chegança, cujo quadro burlesco nunca mais me saiu da retina, também as histórias e as canções de crianças me ficaram, na lembrança até hoje, e já agora para sempre.

Esta, por exemplo, com que minha avó me ninava, naquelas noitinhas quietas da Vila sulista, triste, pausada, monótona.

Era Jorge ainda menino
Suas faces meus lábios beijava
Foi crescendo e de mim foi fugindo
Aquele anjo que tanto adorava

Foi crescendo e de mim foi fugindo
Como foge da sombra o clarão
Foi deixando a saudade em meu peito
Colocada no meu coração!

Mas existem outras, existiam muitas, pausadas, melancólicas, cantadas como todas em voz soturna de despedaçar coração. Como esta:

Avistei o meu dom Jorge
No seu cavalo montado
Avistei minha Juliana
No seu estrado sentado

Soube meu dom Jorge
Que estavas para casar!
O casamento é amanhã
E hoje vim te avisar

Está aqui meu dom Jorge
Que tive para te ofertar
Juliana, que copo de vinho
É este, que me destes a beber

A vista me escureceu
Minha alma será do Céu
Meu corpo da terra fria
Minha riqueza de dona Maria

Um está muito em voga nos princípios deste século, raramente entoada em nossos dias:

Senhora Santana
Ninai vossa filha
Enquanto ela dorme
Não faz maravilha

Esta menina não
Dorme na cama
Dorme nos braços
De senhora Santana

Mas não esquecerei, também, da seguinte, muito expressiva, que adormeceu tantas crianças em seu tempo:

Abra porta gente
Que lá vem Jesus
Ele vem cansado
Com o peso da cruz

Com o peso da Cruz
Por nós carregou
Lavado de sangue
O nosso Redentor

E esta:

Dorme, dorme, meu filhinho
É noite, papai já veio
Teu maninho também dorme
Embalado no meu seio

Dorme, dorme, meu filhinho
Que as aves já estão dormindo
E as estrelas cintilantes
Lá no céu estão luzindo

Anunciando que horas
O galo cucaricou
E lá na torre da igreja
A mesma hora soou

Semelhante, aliás, àquela outra que as mesmas mães baianas cantavam, tempos antes, pela guerra da Independência:

Acalenta-se, ó menino
Dorme, dorme pra crescer
O Brasil precisa filho
Independência ou morrer

A lista é longa, imensa, farta, enriquecendo os estudos folclóricos de aspectos novos arrancados do nosso passado. Sinhá Virgínia, crioula santamarense, de saia rodada e grosso correntão de ouro ao pescoço, contando-nos em casa histórias de bichos, saía-se às folhas tantas com estes versos curiosos:

Ó Conhange dó mó
Lá má si mó mem
Tiraram ingaço do come
Pra quando conhante vir
Ingaço matar conhenge

Ora, maninha ora
Ora que já entendi!

Esta, porém, foi mais conhecida e mais cantarolada há cinqüenta anos:

Ei seu sossegue
Vá dormir seu sono
Está com medo diga
Que dinheiro tome

Ou então, relembrando certo hindu da época seguinte:

Maria Caxuxa, com quem dormes tu?
Durmo com um gato que faz miau

Maria Caxuxa, quem é teu amor?
Um soldadinho, que toca tambor

Mas esta é muito conhecida

Boi, boi boi
Boi da cara preta
Pega este menino
Que tem medo de careta

Ele não, ele não
Ele não coitadinho
Ainda que chore
Mas é bonitinho

Finalmente estas três cantigas de embalos infantis profundamente expressivas:

Minha juriti
Minha sabalê
Esta madrugada
Tive um sonho
Com você

Se você duvida
Venha cá
Que você vê
Minha juriti
Minha zabelê

Também:

Meu papagaio
Meu beija-flor
Estou dizendo
Que não tenho amor
Estou dizendo
Que não tenho amor
Meu papagaio
Meu beija-flor

Finalmente:

Senhora dona Sancha
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Queremos ver a cara

Que anjos são estes
Que andam carreando
De noite e de dia
Com seu padre-nosso
E sua ave-maria?

Somos filhas de um rei
E netas de um conde
Que manda que se esconde
Debaixo de uma pedra
De São Miguel Arcanjo

(Silva, Alberto. "Cantigas de minha infância". A Tarde. Salvador, ?? de abril de 1957)