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Rafael de Carvalho
O Acre bem nesta ponta
Com o Peru faz fronteira.
Faz também com a Bolívia
Bem aqui nesta ribeira.
Rio Branco é capitão
E a riqueza é seringueira.
1
Não sou de falar besteira,
Vou cantar sem cerimônia.
Na fronteira da Bolívia
Nós também temos Rondônia
Capital é Porto Velho
Nos limites da Amazônia.
2
Lá bem ao Norte é Roraima,
Ligado à Venezuela.
Vemos lá Pacaraíma,
— Uma serra muito bela.
Capital é Boa Vista
E tem Georgetown perto dela.
(...)*
11
Tem garimpo e garimpeiros,
Pois tem muito mineral.
Tem uma baixada imensa
Que se chama Pantanal,
Nos limites do Amazonas
Tem floresta e seringal.
12
Maranhão no litoral
Do Pará fica à direita.
São Luís - a capital
Numa baía se deita!
Pra namorar o Oceano
Todos os dias se enfeita.
13
Turiaçu na espreita,
Olhando pra São Luís.
Tutóia do outro lado
Parece muito feliz.
Se lá tem felicidade
O maranhense é quem diz.
14
Não quero nem por um triz
Falar pelo Maranhão.
Em qualquer parte do mundo
O povo é quem tem razão.
Lá, o seu povo é quem sabe
Se vive feliz ou não.
15
Vem depois do Maranhão
Piauí, muito apertado.
Quem olha para os seus campos
Vê chifre pra todo lado
Piauí é conhecido
Como criador de gado.
16
Tem Campo Maior do lado
Da capital de Teresina.
Vemos o rio Longá
Que ao Parnaíba se inclina
Seu porto é Luiz Correia
Numa faixa muito fina.
17
Iracema teve a sina
De ter os lábios de mel.
Dela José de Alencar
Fez um relato fiel.
E todo amor, de Iracema
Transmitiu para o papel.
18
E fez da pena cinzel
Como escultor verdadeiro
na Escola Indianista
Alencar é pioneiro,
Mostrando um grande elemento
Do futuro brasileiro.
19
Ceará do jangadeiro,
Tem poliforma riqueza.
Praias extensas e belas...
— Todas de rara beleza!
Sua capital tem fama,
— Porto de mar — Fortaleza.
20
Quero falar com nobreza
Do Rio Grande do Norte.
Tem lá Câmara Cascudo
Que eu por mais que o verso entorte
Vem a verdade e me diz:
No folclore ele é forte!
21
Do Rio Grande do Norte
Natal é a capital.
Tem algodão, carnaúba,
E maior riqueza é o sal.
Tem Fernando de Noronha
Perto do seu litoral.
22
Paraíba, é natural
Que nos lembra João Pessoa.
Sua palavra de NEGO
Por todo o Brasil ressoa.
Por isso ela é pequenina
Mas a sua essência é boa.
23
Quero fazer uma loa
Mas a minha língua emperra.
Porque tem muito bairrista
Que salta, se esgana e berra...
Mas quem diz que a Paraíba
É muito Liga não erra!
24
Além disso é minha terra!
— Berço de bons cantadores.
A capital João Pessoa
Merece muitos louvores.
Se eu pudesse a Paraíba
Seria um berço de flores.
25
Mostro um estado ao senhores
Sem defender dos demais.
Falo do Leão do Norte...
— Terra de Miguel Arraes.
Tem maracatu, tem frevo
E grandes canaviais.
26
Nas praias tem coqueirais,
E no sertão tem mandioca.
Tem lá o Capibaribe
Que em Recife desemboca,
E também o Pajeú
No São Francisco emboca.
27
O Recife não se troca
Por Nápoles ou Veneza,
Olinda e Boa Viagem,
Têm muita graça e beleza.
Contas no terço das ondas
Onde reza a natureza.
28
Caro leitor, com franqueza
Eu gosto de Pernambuco.
Lá, no Engenho Maçangana
Veio à luz Joaquim Nabuco.
O grande abolicionista.
Um patriota de suco.
29
Onde a lei é do trabuco
A Liberdade é precária.
E o vulto desse escritor
De inspiração libertária,
Prá acabar com a escravidão
Pregava a reforma agrária.
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30
Quanta lei reacionária
Contra o progresso se vê!
O futuro é perseguido
Por elas, não sei porque.
Por isso é que este livrinho
Meu leitor, é pra você.
31
Alagoas forma um V
Do sertão para o seu cais.
O seu povo sofre muito
Nas unhas dos marechais.
A capital Maceió,
É porto e tem coqueirais.
32
Da história nos anais
Nós registramos Palmares.
E constatamos tristonhos
Que para os nossos azares
Temos sofrido nas mãos
Dos Silvérios, Calabares.
33
Piolhos dos lupanares
Onde se espoja a traição.
Foi Domingos Jorge Velho
Um desses vermes de então,
Que foi arrasar Palmares
Por mesquinhez, ambição.
34
Mas uma constelação
Sobre Alagoas brilhou.
Nosso povo fez jusitça
E foi Zumbi quem ficou
No coração dos humildes
E a escravidão acabou.
35
Se Calabar nos ficou
Simbolizando a traição,
Calabar não se vendeu
E era contra a escravidão.
Parece que ele escolhia
Dos dois o menos ladrão.
36
Lá, deu Clara Camarão
De Porto Calvo heroína.
Era esposa de Felipe,
Tendo os dois a mesma sina:
Lutar contra os opressores
Numa bravura supina.
37
O folclore nos ensina
Lá, um auto popular,
Que na Serra da Barriga
Se ouvia ao longe cantar
Dos negros desafiando
Os brancos para lutar:
38
Folga nêgo:
Branco, não vem cá.
Se vié,
Pau há de levá.
Folga nêgo:
Branco não vem cá.
Se vié,
Diabo há de levá.
39
Quero daqui saravá
Aquela comunidade
Que nos deu um grande exemplo
De amor pela liberdade.
E hoje em dia em nossa terra
Tudo é Brasil, de verdade!
40
Sergipe não tem vaidade
De ter seu nome na história.
Aracaju — Capital.
Há de cobrir-se de glória...
Seu último governante
Chamava-se Seixas Dória.
41
Hermes Fontes, merencória
Imagem de desalento!
Mas ele mesmo expressou
De Sergipe o sentimento:
O Brasil exporta o resto...
"Sergipe exporta talento".
42
Sílvio Romero — um portento
No folclore brasileiro!
Temos, Tobias Barreto,
Laudelino, João Ribeiro...
Representantes de um povo
Honrado e hospitaleiro.
43
Vou fazer um paradeiro
Nesta minha cantoria
Porque chegamos às plagas
Da nossa velha Bahia.
Aqui nasceu Castro Alves
O cantor da escravaria.
44
Vou citar com alegria;
Cidade do Salvador.
A ilha de Itaparica
Com sua água de valor...
Na Bahia há um ditado
Todo baiano é doutor.
45
Seu subsolo, o valor
Merece um grande relato.
Mas falo apenas daqui
Deste ramo o maior fato:
Foi quando jorrou petróleo
Lá no poço do Lobato.
46
Ficou mesmo estupefato
Todo o povo brasileiro.
Pois foi desmoralizado
Um cientista estrangeiro.
Que disse não ter petróleo
No Brasil, pro mundo inteiro.
47
Mas o grande Oscar Cordeiro
No Recôncavo Baiano,
Fez o petróleo sair
E o truste entrar pelo cano
E se hoje o petróleo é nosso
Custou trabalho e tutano.
48
Na Bahia todo ano
No Bonfim e na Ribeira
Tem chula, samba de roda,
Tem candomblé, capoeira...
— Toda Bahia parece
Uma mulata faceira.
49
Tem a cidade de Feira
Mas é Feira de Santana
Além de se chamar Feira,
Tem feira toda semana.
Já fiz uma feira lá,
Nunca vi tanta baiana.
50
E Salvador se engalana
Pra lavagem do Bonfim:
Muita carroça enfeitada.
Muita arruda e alecrim
Estas cenas da Bahia
Eu trago dentro de mim.
* Faltam as estrofes 3 a
10, no exemplar consultado. |