Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Janeiro 2009 - Ano XI - nº 120


Sumário

Festança
Cantiga de Reis
Plautus Cunha

Cancioneiro
A vitória de Cheiroso, o bode vereador
Delarme Monteiro da Silva

Imaginário
Lenda amazônica da Yara e Jaguarari
Maria Rosa Moreira Lima

Colher de Pau
Comida mineira, uai!

Oficina
Cerâmica do Nordeste
Edison Carneiro

Palhoça
Miss Brasil e o traje de "baiana"
Mariza Lira

Panacéia
Amuletos e superstições

Veja o que foi publicado em festança
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Cantiga de Reis

Plautus Cunha

É folclore, manifestação espontânea do povo, andanças tradicionais e animadas que começam mais ou menos em 30 de dezembro e terminam a 6 de janeiro que é o Dia dos Reis. Grupos de músicos com seus regionais mais ou menos treinados cruzam a cidade em várias direções, pacatos, os Reis sempre trabalham à base de pouca "acatape" e muita simpatia, nunca se viu um Reis no xadrez da polícia até mesmo as delegacias de nossa capital dão licença para os tiradores de Reis. Meu pai adorava os reis, quando se ouviam os primeiros acordes dos instrumentos musicais em nossa porta o poeta de Solimões acordava, às vezes à meia noite, e entrava em diálogo com um dos populares dos Reis. Certa ocasião na rua do Trilho de Ferro, onde morávamos chegou um grupo, como era cedo ainda, nove horas, os tiradores, chefiados pelo músico Vicentinho tocaram apenas, o que não satisfez, o Quintinho em respostar perguntou:

– Por que não cantam? heim mestre?

– Seu doutor é porque a porta está aberta. Nós só canta quando ela está fechada.

Sem perder um minuto meu pai que era homem de repente fechou as portas, apagou a luz da entrada, eles também não se fizeram de rogados. Os seis homens começaram a cantar os primeiros versos que nunca me esqueci:

Aqui estou em vossa porta
em figura de raposa (repete três vezes)

Os outros três respondiam também três vezes o último verso para formar a quadra:

Eu não venho pedir nada
Mas o dar é grande coisa (repete três vezes)
Esta casa está bem feita
Por dentro por fora não
Por dentro cravos e rosas
Por fora manjericão!

Se procuro repetir os versos, que são popular, e conhecidíssimos, é pelo prazer de reviver aqui nestas linhas e incentivar as nossas tradições populares.

O senhor dono da casa
Abra a porta e acenda a luz (repete uma vez)
Pelo amor de Jesus
O sol entra pela porta o luar pela janela (repete três vezes)
O luar pela janela (repete três vezes)
Eu quero a resposta
E não saio daqui sem ela (repete três vezes)

A música não varia nunca, creio que o leitor deve conhecê-la muito bem, em caso contrário pode passar ao seu companheiro que se for cearense de Fortaleza vai recordar as noites inesquecíveis de janeiro. Ainda me lembro quando meu pai tirou do bolso de seu colete, que estava na grade de uma cadeira, uma cédula de dez tostões e deu aos seis homens que vibravam de alegria vendo tanto dinheiro! (Bons tempos).

Deitei-me pensando seriamente, não nos Reis, mas na porta e repetia na cama:

Esse meu pai é um esbanjador, dá dez tostões de uma vez a seis músicos que tocaram só meia hora...! e lá no fim da rua últimos acordes me embalavam novamente o sono:

Aqui estou em vossa porta
Em figura de raposa...
Em figura de raposa...
Em figura de raposa...

Os folguedos continuam noite a dentro. Carolino dos Reis, chefe de um grupo destes músicos populares empunha sua flauta de bambu e com toda faceirice de mulato 100% fecha os olhos e sopra uma música que se podia chamar melodia – saudade, nos transportando aos mesmo reis de janeiro do ano passado e a saudação vem com o pandeiro em surdina:

Deus vos salve casa santa
Onde Deus fez a morada
Onde mora o cálix bento
E a hóstia consagrada

Esta casa está bem feita
Por dentro por fora não
Por dentro cravos e rosas
Por fora manjericão!

O dono ou a dona da casa atendam, dão suas ofertas que tanto pode ser uma galinha como uma penca de bananas, em bodegas já se sabe: é bolacha ou aguardente e as vezes um pedaço de queijo. Aí os tiradores fazem a louvação aos donos da casa:

Meu senhor dono da casa
Faz favor que a porta abra
Que eu não sou como cabrito
Que mama dois numa cabra

Havia no Jacarecanga um tirador de Reis que exercia suas atividades desde menino quando apenas acompanhava o seu tio que era chefe de grupo, festeiro dos melhores foi crescendo ficando conhecido como tirador de Reis, nascido Enoc Maranhão seu nome foi mudado para Enoc dos Reis era por outra razão motivo da troça, era por justiça que os companheiros repetiam – "Esse Enoc é mesmo dos Reis"...

Mais quadrinhas colhidas do Enoc

São José e Santa Maria
Se foram para Belém
Foram tirar os seus Reis
Para nós tirar também

O sol entra pela porta
O luar pela janela
Estou esperando a resposta
E não saio daqui sem ela.

E assim a serenata dos Reis percorre as ruas de Fortaleza, dando a todos uma nota de tradição, bom gosto, simplicidade acima de tudo de autêntica e de espontânea manifestação popular. Daqui o meu apelo: recebam os Reis de acordo com o seu merecimentos, e salvemos alguma coisa das tradições que ainda existem na nossa Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

(Cunha, Plautus. "Cantiga de Reis". O Estado. Fortaleza, 06 de janeiro de 1961)

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