Ilustração de Marcos Jardim

Caboclo-d'água

"O senhô pode me creiá. Eu e meus dois menino, numa pescaria, num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. Eles três tavam numa canoa e, noutra, eu mais o fio mais novo, o caçula, de uns dezoito janeiros de idade. Nisso, donde nós tava, nós escutou os menino gritando demais. Nós remou depressa pra lá, mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". E nós viu, no escuro que fazia, o bicho rolar pra dentro d'água, maretando o rio. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos, pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Encantado como eles ficou, até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede, embaraiando o sem-vergonha." (J. A. Macedo, 1956)

O caboclo-d'água, também chamado negro-d'água e bicho-d'água, é um dos mitos aquáticos mais populares na região do vale do rio São Francisco. Ninguém sabe de onde surgiu. Vive nas barrancas e alagadiços. Segundo as descrições mais comuns, é baixo, troncudo, musculoso, muito forte, tem a pele cor de bronze e um só olho no meio da testa. Apesar de seu tipo físico, movimenta-se de forma muito rápida e ágil. Às vezes sai do rio e caminha pela terra, geralmente para praticar alguma vingança ou fazer algum favor, mas nunca se afasta muito das margens. Para muitos, é um só e possui poderes para estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Dizem que possui o temperamento enfezado e não nutre grandes simpatias para com os pescadores e remeiros. Agarra o fundo das canoas e barcos, balançando-os até os virar ou encalhando-os. Seu corpo é à prova de balas. Para evitar encontrá-lo, deve-se fincar uma faca no fundo da embarcação. Porém, se for bem tratado, o caboclo torna-se benfazejo, ajudando nas pescarias e evitando enchentes. Para agradá-lo, basta oferecer-lhe fumo.

 

Referências bibliográficas

Ambrósio, Manuel. Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1,  São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.60-61

Cabral, Alfredo do Vale. Achegas ao estudo do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Fundação Nacional de Artes, 1978, p.61-63 < www.jangadabrasil.com.br/revista/novembro72/im72011b.asp >

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd

Lima, Noraldino. No vale das maravilhas. Belo Horizonte, 1925, p.160

Lins, Wilson. O médio São Francisco; uma sociedade de pastores e guerreiros. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional; Brasília, Instituo Nacional do Livro, 1983 (Brasiliana, 377), p.121-124 < www.jangadabrasil.com.br/revista/novembro84/im84011b.asp >

Macedo, J. A. "O caboclo-d'água". Folha de Minas. Belo Horizonte, 2 de dezembro de 1956

Teixeira, José Aparecido. Folclore goiano; cancioneiro, lendas, superstições. 3ª ed. São Paulo; Brasília, Companhia Editora Nacional; Instituto Nacional do Livro, 1979 (Brasiliana, 306)

"O caboclo-d'água". A Tarde. Juiz de Fora, 18 de abril de 1967

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