Antigamente tudo fazia mal e talvez por isto tudo corria bem. Havia um certo escrúpulo em discutir o que não se conhecia ou não se podia explicar. Bastava saber que fazia mal. O porque não interessava. As horas eram boas e más. A pior de todas a do meio-dia, quando o diabo saía do inferno para a sua ronda diária. As pragas rogadas a tais horas eram registradas cuidadosamente para fiel cumprimento.
Imprecações e palavras más eram vetadas mesmo em horas consideradas boas. Podia ser que a enunciação coincidisse com o instante em que os anjos do céu estivessem dizendo amém em suas orações. Tudo tinha de ser feito sob metáforas para não se atrair o que não se desejava. Já rezava o ditado: Quem deseja o mal dos outros o seu lhe chega mais depressa. Tudo com a palavra de Deus primeiramente. Nada de palavras ruins.
O que eram palavras ruins? Coitado era uma. Não se lamentava alguém, impunemente, exclamando: Coitado! — Coitado? Coitado do diabo que perdeu a graça de Deus, não eu que sou criatura de Deus Padre todo poderoso. Dizer Coitado! era insulto era ofensa. Coitado! Coitado por que?
Espreguiçar-se com o gemido de Ai-ai sem acrescentar meu Deus era caso grave. Ai-ai era o diabo mais velho do inferno. Era também o que vivia atrás da porta pronto para atormentar os maus. Um e outro quando ouviam alguém bocejar com um Ai-ai rematavam triunfantes — Este é meu! Daí se inferia ser mais do que necessário cada qual dar o seu Ai-ai seguido de um fervoroso Meu Deus.
Quem bocejava sem fazer uma cruz na boca para não deixar o diabo entrar? Quem falava no nome dele sem se benzer? Quem saía de casa sem se benzer, sabendo que o diabo estava à espreita na primeira esquina? Quem destrancava a porta, em caso de emergência, mas fora de hora, sem primeiro invocar São Miguel Arcanjo, defensor das almas contra os perigos do demônio? Quem tinha coragem de viver repetindo o nome da miséria, da desgraça, apenas para descarregar seu gênio? Se alguém havia capaz de viver com semelhantes nomes na boca, aparecia logo quem reclamasse, lembrando o caso acontecido com um parente de não sei quem ou um conhecido de não sei quem.
Era o caso, por exemplo, do homem que vivia trabalhando como um mouro sem nunca prosperar. Tudo dele era miséria para cá, miséria para lá. Acabou ficando de rasto, sem mobília nem outra qualquer coisa em casa. Morava, por fim, num quarto onde só havia uma esteira podre, toda esfarrapada. Do lado de fora da porta, para não dizer que nada possuía, conservava um velho pote, todo cascudo.
Um dia foi para a fonte, sucedeu escorregar e jogar o pote nas pedras. O pote ficou em cacos. O homem tão danado ficou que, voltando para casa, agarrou a esteira e levou-a para o monturo. Com poucos instantes apareceu um senhor negociante para lhe oferecer um emprego. Muito ocupado no serviço, esqueceu de blasfemar. Foi prosperando, prosperando.
Certa feita, passando pelo monturo, viu a esteira velha. Que miséria! — disse então. Depois não se sabe por que agarrou a esteira e levou para casa como lembrança dos velhos maus tempos. No dia seguinte o patrão faliu e ele se encontrou como se diz, vulgarmente, com uma mão na frente e outra atrás. Nada de arranjar emprego. Foi vendendo tudo que tinha comprado até só ficar com a esteira velha.
— Que vou fazer com esta miséria? — perguntou aos seus botões.
A esteira lá do canto, respondeu com voz bem fininha: — Na miséria você já está. Eu estava no meu canto, você foi me buscar.
Havia também o do indivíduo que se comprazia em ofender a Deus com suas lamúrias. Dizia na hora da raiva tudo quanto lhe viesse a boca. Não escutava conselho. Por qualquer bobagem gritava pelo diabo, pela desgraça.
Uma ocasião quando na igreja os sinos badalavam o meio-dia, logo na hora em que o diabo se solta, abriu a regaleta para largar o que não devia. De diabo e desgraça fez o seu desabafo.
Palavras não eram ditas quando apareceu uma mulher toda rota, com uma trouxa de molambos no braço. Tome, guarde que é sua — pôs a trouxa na mão do homem e desapareceu. É excusado acrescentar que nosso herói ficou entalado, sem poder nem respirar direito, tremendo como um caniço, suando por todos os poros. Quando conseguiu articular as palavras, contou que era a desgraça que tinha vindo lhe trazer o seu quinhão.
Amedrontado fez muita penitência, só vivia batendo nos peitos, pedindo perdão a Deus pelos seus pecados. Ainda assim por pouco não foi sufocado por uma onda de infelicidade que quase lhe arruinava a vida para sempre.
Com semelhantes exemplos quem teria coragem para incidir no mesmo erro? Sem palavras más e com Deus pela frente, a gente antiga parece que esconjurava devidamente o que não prestava. Tudo fazia mal. Mas tudo corria bem.