Que traços deixou a cultura muçulmana no folclore paulista?
Começando pelo princípio. A criança maometana vinha ao mundo com a ajuda da sage femme e outras mulheres, que acudiam à mãe sentada. Se até esse ponto há mais diferenças que semelhanças, a dieta, hoje caipira, de quarenta dias, tem muito que ver com o judaísmo, sim, mas também com os filhos ou as filhas do Corão. As quais, por não estarem purificadas, nem sequer passavam o umbral da casa e sustentavam-se com uma sopa de farinha e gordura de carneiro, e pouco mais. A dieta de parto entre as nossas antepassadas era minuciosa. Quanto à alimentação, principiava pelo caldo de frango com farinha, chegava ao frango em pessoa... ao arroz, e só para o fim acabava a distinção entre alimentos naturalmente frios e quentes. E, na primeira semana, quatro escuro. Só para o meio da dieta a mãe começava a sair pelo quintal.
Quanto aos prenomes, é claro que os cristãos diferem dos muçulmanos. Mas os nomes destes, às vezes, influíram em nossos cronistas, que ajuntaram apostos aos nomes de batismo e de família, haja vista o Redentor da Pátria, o Aclamado, O Tigre etc.
Verdade se diga, são influências cujas origens podem até ser romanas. Tito, Delícias do Gênero Humano ou simplesmente cristão-medievais; Ricardo, Coração de Leão. Aliás, estes apostos cristãos foram imitados pelos muçulmanos no tempo das Cruzadas e o povo simples continuou a contentar-se com os prenomes. Ainda hoje, quem perguntar a uma caipira o nome, recebe a resposta, quase sempre, somente pelo prenome. Nas pequenas povoações, conhecem-se até as pessoas principais pelo nome de batismo e mesmo pelas alcunhas. Exceto médicos, delegados, professores, pois então se preferem os nomes.
Os tais nomes pomposos a que nos referimos, por exemplo, Imadal-Dawis, esteio do Império, teriam sido importados da China pelos maometanos do Irã. Aliás, embelezam, poetizam um prenome. Metáforas. Esta criança é a luz dos meus olhos, dir-vos-á o primeiro sírio que conhecerdes. Já o nosso povo é menos metafórico... e talvez mais eufórico.
As crianças árabes tinham o seu berço, mas, no verão, a sua rede onde as faziam dormir, cantando e embalando, e faltava a gaze por amor dos mosquitos e até o talismã. Confere. Em lugar do talismã, figurinhas, corais, amuletos. Festas de circuncisão, festas de batizado.
Crescendo, vestiam-se conforme pai e mãe. Combinou, outrora. Ouviam histórias da avozinha. Tal e qual.
Os pedidos de casamento, quase sempre feitos pelo pai do pretendente, têm a sua semelhança com os nossos costumes antigos, bem como os cortejos a cavalo, os banquetes. Mas tudo isso é universal.
Quanto aos funerais, interessam-nos a semelhança dos lençóis mais ou menos ricos envolvendo o defunto, lançado diretamente à cova pouco mais funda que os clássicos sete palmos.
E os túmulos altos, quase torres, de certos italianos tradicionais, talvez reminiscência do Islã. estes visitam mais vezes o cemitério do que parecia preciso: os árabes, todas as semanas.
O harém quer apenas dizer o santuário, e pode o muçulmano ter uma só esposa, se for pobre. É muito comentada a situação da família e das mulheres em suas prisões atrás das rótulas e mantilhas. Porém, quanto excesso de interpretação! Tal como no Islã, as mulheres do campo e do trabalho na cidade, no sítio e nas fazendas, e no artesanato dos povoados, e em geral entre a gente pobre, não usavam mantilhas, nem clausura. Conhecemos, em Sorocaba e Itapetininga, de visu, rótulas em casas pobres, porém. Menos para prender alguém do que para evitar olhares indiscretos de fora, mesmo porque os antigos não construíam casas com jardim fora do alinhamento. Saudosa "instituição", a da porta do meio.
Em São Paulo antigo, em Santos, Campinas, Sorocaba, Itu, Itapetininga, Taubaté, Mogi, quando uma pessoa passava da porta do meio para dentro, era da intimidade. As reformas obrigadas pelas repartições de higiene, às vezes, tiravam o telhado sobre o corredor da porta do meio para dentro, nasceu a área e as alcovas laterais ganharam janelas. A porta do meio era uma necessidade, visto que a da rua, ficando sempre aberta, não resguardava. Nesse primeiro corredor, as salas de fora, com suas portas fronteiras.
Nada de campainha. Batem palmas os bem-educados.
O que a gente acha curioso nos costumes islâmicos é as damas se enfeitarem e se exibirem umas às outras em suas festas internas e nos salões de beleza que eram os banhos públicos.
Saíam de liteiras ou montadas em mulas, veladíssimas as damas, com a sua gaze ou renda. E as nossas cadeirinhas, com suas cortinas? As maometanas apreciavam muito as jóias, principalmente os braceletes e o tinido destes entre si.
A paixão dos orientais pelos jardins interiores, eis outro traço cultural que talvez nos veio deles. Tais jardins podem ainda ser estudados no Alhambra, em Granada, e misturam árvores, como laranjeiras e palmeiras, aos canteiros de flores e folhagens, por sob as quais correm fios de água dissimulados.
Já tenho lido que os nossos prefeitos cortadores de árvores plantadas pelos antecessores imitam os árabes. Hão de ser os da Arábia Pétrea... Que generalização absurda!
Curioso capítulo é o que descreve aquilo que nas cidades do Corão substituía a rede de esgotos. Eles estavam mais adiantados que nós em os tempos coloniais, com o seu sistema de encanamentos. Nem sempre. Quando havia falta de água, recorriam às fossas, onde periodicamente deitavam cinzas e cal. Havia desses estabelecimentos junto às mesquitas, os judeus os dirigiam. Além disso, mesmo nas grandes cidades a água encanada em tubos de barro entrava nas casas, ao contrário do nosso sistema de chafarizes nas praças tão somente. Mas os encanamentos eram semelhantes, e até piores, de tijolos, não nos referindo ao célebre aqueduto da Carioca.
Os árabes e os orientais usavam em excesso os tapetes, substituídos pela palha nas casas dos proletários, pois os calçados serviam apenas para as ruas. Todavia, é bem muçulmano o costume de outrora dos assentos baixos, dos estrados com tapetes para as senhoras, e até mesmo a maneira de se assentarem. Na igreja, usavam o estrado que se forma entre o assoalho do corpo principal e os laterais, técnica de construção que foi anotada por Saint-Hilaire, e os tapetes levados pelas escravas, assentando-se como as mulheres do Islã.
A nossa técnica e o gosto para a confecção das redes — que são tapetes suspensos — têm mais de oriental do que de indígena.
E a pastelaria, doçaria, confeitaria! Que refinamentos! O almofariz de pedra, bronze ou ferro, é árabe, até de nome. E até o pilão de madeira, objeto infalível na cozinha de antanho, tem o seu irmão maometano. E o feijão seco e o verde! Aconselhava-se que deitassem fora a primeira água do cozimento do primeiro, por causa dos gases. As especiarias, canela, pimenta, cravo etc., estavam ali mesmo, na Índia.
Graxa de carneiro, coisa fina. O pilaf era o arroz cozido a vapor e colorido com açafrão, viera do Turquestão lá pelo século XIV. Aqui carece lembrar que o cuscuz, típico manjar norte-africano, parece algo diverso do nosso, que se baseia na mistura de farinha de milho, carne ou peixe etc. cozida no vapor, como se sabe.
Após o repasto, os convivas passavam à sala (de visitas ou salão) e desde o século XIII aparecia o delicioso moca, verdadeiro café. Ou o chá da Índia. Certas seitas permitiam o vinho. Não parece que os islamitas, que introduziram o açúcar na Europa, e cujos canaviais duravam três anos, destilassem a aguardente de cana.
Dos muçulmanos, recebemos o almanaque, nome e objeto, o calendário, a paixão pela astrologia judiciária. Livro indispensável, o almanaque falava dos eclipses e das conjunções lunares, dos dias e até das horas nefastas, o momento melhor para uma sangria. O Lunário perpétuo sentiu-lhe as influências, é o livro espanhol ou português de que nos falam os inventários antigos. As artes da adivinhação e da feitiçaria estavam em franco progresso, e no Egito descobriam até os tesouros de pirâmides, antes dos nossos arqueólogos. Mágicos, magnetizadores e até usavam uma espécie de hipnotismo.
As cidades grandes do Islã ofereciam aos seus habitantes e turistas muitas distrações em todos os cantos. Aqui, uma briga de galos ou de carneiros, ali, um contador de anedotas, além, um palhaço... Mais adiante, uma casa onde se paga para ver a luta de dois homens, que termina quando um vai ao chão e ambos se beijam, tal como os candidatos vencidos enviam parabéns aos vencedores... A natação, o remo, as justas ou torneios. E há também o triste lucro do fisco nas casas do vício, coisa que, às vezes, se insinua nesta terra de cristãos.
Água de rosas, água de flor de laranjeiras, todas as essências e perfumarias, tudo isso é tipicamente muçulmano ou mourisco. Tecidos de seda e ouro, tecidos de algodão estampado.
O único maometano com quem falamos diretamente há tempos nos garantiu que à meia-noite as águas do rio param de correr.
E os nossos velhos acreditavam que nesses horas mortas ao menos as cachoeiras param de retumbar, "o mar e as ondas jazem".