Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Folclore do cachorro

Marina de Andrade Marconi

Entre os animais domesticados, o cachorro figura como o amigo leal do homem. É seu guia, seu guarda, seu companheiro de caçadas — veados, pacas, capivaras, perdizes, codornas etc. — e ainda o ajuda na lida com o gado.

Para guardar a casa geralmente são empregados policiais, foxes, bassês e vira-latas, "porque são bem implicantes", isto é, latem muito. Os de caçadas são adestrados e entre eles temos o mestiço de dinamarquês com cão de fila, o americano, o nacional e o policial. Nunca são muitos puros. Os cães de fila, os policiais e os mestiços, por serem grandes, pesados, são melhores para lidar com o gado. Nesse caso, o cachorro deve pegar a rês pelo focinho e derrubá-la, para que o campeiro possa chegar perto e colocar o laço em seus chifres. Os bassês e foxes participam das caçadas às pacas; sendo pequenos, podem entrar nos buracos com facilidade. Para caçar perdizes e codornas utilizam-se dos chamados perdigueiro; para as capivaras, qualquer cão serve.

Os cachorros são tratados, alimentados, com restos de comida, com angu (fubá cozido com água), leite ou carne crua. Geralmente os donos cortam o rabo do cachorro fox, logo ao nascer, três dias depois (porque não sangra), "para não parecer cachorro à toa".

Os nome variam quanto ao tamanho e função: cachorros de caçada ou policiais são denominados Brasil, Índio, Combate, Bugre, Rajá, Cigano, Danúbio. Os pequenos recebem nomes como esses: Pipoca, Bolinha, Toquinho, Boneca. Os pobres vira-latas apenas são chamados de Tiu e os que lidam com o gado, Leão, Fera, Jagunço, Sultão, etc. Nomes pitorescos são os que um certo caboclo pôs em sua cachorrada: Seu Nome, Já Falei, Eu Disse, Qualé e outros desse tipo.

Superstições

Cachorro quando uiva, está agourando o seu dono. Deve-se virar o chinelo de borco para ele ficar quieto. Se estiver cavoucando (escavando) o chão na porta da casa, está escavando a sepultura do dono.

Morre alguém da família, se chorarem quando o cachorro da casa morrer. Cachorro que revira lata de lixo, morre com o rabo na boca.

Dar comida para o cachorro no chinelo, ele não foge.

Quando a moça encontra um padre, deve virar a manga da blusa e dizer: "Peguei, tá bem pegado". Deverá desvirá-la ao encontrar um cachorro e falar: "Soltei, tá bem soltado". Se fizer isso, encontrará com o namorado.

Se a moça encontrar um carro de chapa branca, cujo o último número seja sete, deve fechar a mão direita, formular um desejo, e só abri-la ao encontrar um cachorro. Assim seu desejo será satisfeito.

Ao anoitecer, se alguém olhar o céu e vir a primeira estrela, deve dizer: "Primeira estrela que vejo, fazei o meu desejo: se ele me ama, um cachorro late; se ele me odeia, a porta bate; se ele me for indiferente que eu ouça um assovio".

Simpatias

Para curar cachorro louco pegam-se sete sabugos, tiram-se sete gominhos de cada um deles, torra-os na cinza e dependure no pescoço do cachorro.

Quando o cachorro não quer parar em casa, corta-se a ponta de seu rabo e coloca-a debaixo do pilão.

Ditados populares

O que é do homem, nem o cão come

Cachorro que late, não morde

Quem não tem cão, caça com gato

Cão que ladra, não morde

Quem ama beltrão ama seu cão

Quem dá pão ao perro alheio, perde o pão e o perro

Cachorro rajado, baiano e cigano, sai algum bom por engano

Expressões

Amarrar cachorro com lingüiça: o mesmo que nada fazer.

Brigam feito cão e gato: não combinam.

Vida de cachorro: vida muito ruim.

Lavando cachorro: vadiando.

Adivinhas

Por que o cachorro abana o rabo?
Porque o rabo não pode abanar o cachorro.

Por que o cachorro entra na igreja?
Porque encontra a porta aberta.

Dísticos de caminhão

Vale mais um cão amigo do que um amigo cão. (Franca)

Cachorro picado de cobra tem medo de lingüiça. (Ribeirão Preto)

Medicina folclórica

Rabugem: Cura "rabuge de rosas": limão com pólvora; flor de enxofre com banha de porco sem sal; óleo queimado.

Tosse: Dar para o cachorro comer, pele sapecada no borralho e misturada com cinza.

Quadrinhas

Na rua do meu amor
Não se pode namorar
De dia, velhas à porta
De noite, cães a ladrar

Cachorrinho está latindo
Lá no fundo do quintal,
Cala a boca cachorrinho
Deixa o meu amor passar.

 

(Marconi, Marina de Andrade. "Folclore do cachorro". Comércio de Franca. Franca, 28 de setembro de 1967)
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