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Pescar no lago já é profissão

Pescar no lago já é atividade lucrativa para muita gente, cuja renda ultrapassa, às vezes, o salário mínimo vigente no Distrito Federal.

A nota lamentável do caso é o uso indiscriminado da "tarrafa" pelos que pretendem viver da pesca, burlando a lei, prejudicando a vida do lago e fazendo sombra aos que tem paciência de lançar o anzol e a isca.

Os amadores lançam a conta dos homens da tarrafa seus maus dias de peixe e afirmam inexistir qualquer fiscalização contra os mesmo, caso contrário não se atreveriam a lançar suas redes em pleno dia e a qualquer hora.

Amadores

Anzol, linha, chumbada, minhoca ou boró que também se chama tapuru e dose grande de paciência são os principais instrumentos do pescador improvisado, que com três a quatro horas de labor consegue duas fieiras com cerca de 30 a 40 peixes cada.

Alguns levam para casa carás e lambaris que depois de fritos são ótimos tira-gosto. Outros ganham freqüentemente de 5 a 6 cruzeiros novos, em casas de família ou em alguns bares da W-4 e da L/2, mas restaurantes e bares pechincham e pagam menos.

Nem sempre o amador e o semi-amador pegam muitos peixes, e explicam o malogro como dia de pouca sorte ou culpa dos tarrafeiros. Mas há quem explique o fato como imperícia apenas.

Mini-pescador

Pescador animado é Ricardo Mainel, de 12 anos, aluno da 308 e da Escola Parque e amigo da beira d'água. É ele quem explica, muito entusiasmado, certos macetes da pesca. O boró ou tapuru esclarece, é uma espécie de minhoca que dá no lixo. Encontra-se em quase toda lixeira e quem não tem lixeira cava um buraco, enche de lixo e espera apodrecer para tirar os borós. Além disso, é costume do pessoal lançar porções de cupim dentro d'água para atrair piabas e outros.

Ricardo, acompanhado de seu pai, o senhor Conrado Mainel tinha tido um dia de pouca sorte. Pegara somente dez exemplares. Para ele além de muita paciência o pescador deve conhecer as manhas dos peixes. Os grandes, por exemplo, puxam para trás e os menores para o lado. Os grandes tapeiam antes de engolir o anzol e se a pessoa bobeia, ele vai embora com isca e tudo.

Lino Pereira do Nascimento solteiro, residente na W-4 por exemplo, leva peixe para casa, todas vezes que vai ao lago e isto acontece duas vezes por semana. Ele é um dos que vendem o produto da pescaria e acha quem queira.

Explica que não gosta do que pesca, mas de pescar tem manha. Para ele não há pouca ou má sorte. Sabe-se ou não sabe-se jogar o anzol. E a arte de pescar depende da isca, da vara, da linha e sobretudo do modo de puxar a presa.

Pesca há dois anos e sempre ajuntou umas duas fieiras de carás e lambaris. Quando a reportagem o abordou ele juntava uma segunda corda enquanto a primeira, amarrada a um toco, submerso, mantinha vivas as tilápias apanhadas.

Já Osório Figueiredo Rosa, morador do Acampamento de Mendes, apanha quase sempre de um quilo a um quilo e meio toda vez que lança a isca, mas segundo sua opinião, certos dias, o lago só dá peixe de "tarrafa". Acredita também no acaso, como fator decisivo.

Sucuri

Osório, que anda comodamente numa canoinha de zinco fala sobre a placidez das águas e da falta de perigo em atravessar a península. Que ele saiba, só existe uma coisa para ter medo. É a sucuri. E conta um estranho encontro com uma quando se encontrava bem no centro do Paranoá, os remos parados, levado pela correnteza. Ouviu um barulho, uma coisa arranhando o fundo do barco e de repente a sucuri começou a deslizar para dentro da canoa. Avançou para os peixinhos no fundo do bote e Osório não viu o resto, porque se jogou na água com roupa e tudo e só parou na outra margem. Mais tarde pegou a canoa vazia que a maré encalhou na praia. Depois disso continua a lançar sua linha sem ver coisa nenhuma.

Profissionais

Com esses não se pode falar, por uma razão muito simples. Eles lançam "tarrafa", coisa proibida, e vendem o produto em latas de querosene, a 5 e 6 cruzeiros cada, principalmente nas cidades satélites, Núcleo Bandeirante e Taguatinga.

Muitos dedicam-se a isso somente e escolhem seus pontos do outro lado, onde podem agir com mais liberdade, porque a "tarrafa" é mais rápida e menos demorada. A fiscalização por enquanto não os molesta e pessoas que não quiseram declarar o nome disseram que não há repressão de espécie alguma e que os tarrafeiros agem despreocupados e às claras, a partir das oito horas da manhã.

Folclore

Falando de pescaria ouvem-se fatos demonstrativos de que aos poucos se forma o folclore do lago. A sucuri tem o papel principal e as histórias e crendices sobre ela começam a crescer. De acordo com o tamanho do barco e do número de pessoas a bordo, dizem, ela pode virá-lo com a cauda para apanhar melhor suas vítimas. Não se tem notícia de caso semelhante, mas há quem jure que ela já tentou virar canoas.

Alguns se referem a um tipo de caranguejo com picada de escorpião e peixe magnético como explicação para certos afogamentos inexplicáveis e estranhos de nadadores eméritos.

Osório, entretanto, acha muita invencionice nessas histórias. Para ele há é muita sujeira em baixo d'água: tocos de pau, lascas de pedra, fragmentos de objetos perdidos, pedaço de lata, isqueiros, facas, canivetes e anzol à vontade e até resto de bicicleta existe.

 

("Pescar no lago já é profissão". Correio Braziliense. Brasília, 12 de novembro de 1967)
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