Do homem que vendia alegria, ilusão e fantasia às moças "casadoiras" de outrora, ninguém mais ouviu falar. O realejo sumiu com o tempo... Porém, dessa poética profissão e deste toque brejeiro ainda resta o vendedor ambulante.
Uma profissão que, pelas esquinas, com barracas ou tabuleiros de madeira e vidro, uniforme branco, colares, sininhos e mil outros jeitos peculiares, ainda faz parte natural da paisagem cotidiana da cidade.
Em pé ou sentado, sorrindo quase sempre, o vendedor ambulante desperta um sentimento de ternura, nestes tempos de massificação. Como a modinha popular, a profissão ambulante surgiu assim dentro do mais tradicional estilo anônimo. Surgiu para ficar no meio do coração da gente. São figuras que animam o preto-e-branco do dia-a-dia, são relíquias e até folclore, são o toque interiorano na cidade grande.
Há os que definem o ambulante como camelô. As donas-de-casa o vêem
como um "serviço de utilidade pública". Parece que somente a sociedade
industrial, a era eletrônica, decidirá a sua morte. Por enquanto,
porém, na busca da sobrevivência, ele está ai. O ambulante surge a
qualquer momento, onde menos se espera. As crianças sentem-se
atraídas pelo fascínio que exercem sobre todos.
Santa Baiana
Uma imagem gorda, negra e sorridente faz ponto, diariamente, das
11 às 18 horas, entre as avenidas Graça Aranha e Almirante Barroso.
É Aidê Fagundes de Araújo, a Baiana, como é bem mais conhecida por
sua vasta freguesia. Natural de Liberdade, cidade da Bahia, folclórica
como ela só, a Baiana começou como vendedora ambulante desde mocinha,
nas feiras livres do Forte de São Pedro, perto de sua terra. Conta
atualmente 54 anos de muita vida e amor, com mais sete somente de
profissão na Guanabara, Baiana tem uma família de 21 filhos, todos — sem exceção de nenhum
— criados na base da cocada, cuscuz, acarajés,
quitutes vendidos por ela. Igualmente, todos se dedicam à venda
ambulante de comidas baianas. E faça sol ou faça chuva, lá está
aquela figura jovial e alegre, atendendo aos glutões com bolinho de
estudante, doce-de-coco, balas, bolinho de aipim ou milho, acarajé
etc. Para Baiana, o quitute mais vendido por ela é o bolinho de
estudante — frito em fogaréu e que "o carioca se acostumou a
comer bem baiano". Sua feriazinha, "quando está mais pra inverno",
é de até Cr$150. O calor na sua opinião, é que atrapalha tudo,
"a gente vende mesmo muito pouco". Mesmo assim, lá está ela, sempre
no mesmo lugar, com suas roupas brancas, santa e rezadas, colares,
pano na cabeça. Baiana faz jus ao título de ser uma das mais antigas
filhas de santo do Terreiro de Joãozinho da Goméia onde ela, em
linguagem do candomblé, é simplesmente "da Oxum" e "Onegob".
Lambe-lambe
— Quer tirar o retratinho, amigo?
Máquina de tripé e caixão — a tão conhecida máquina dos fotógrafos ambulantes, que fica sempre num jardim — eis o ponto de partida, a diversão e o esporte encontrado por Mário Rianelli, 49 anos dedicados com amor, sensibilidade e arte à profissão.
Seu ponto preferido do dia-a-dia, é na praça Quinze. O tom de voz, a distinção e a cortesia são sempre a mesma para qualquer um.
"Seu" Mário afirma que a profissão do lambe-lambe existe já há mais de 50 anos.
— E a sua máquina, "seu" Mário, também não é muito antiga?
— Antiga não! A gente usa o mesmo material que os fotógrafos usam hoje em dia, filme caro, papel mais ainda etc. Até o modo de revelar mudou!
De segunda a sexta, até às 17 horas, quem quiser tirar o seu retratinho, de qualquer tamanho e em qualquer quantidade, encontra aquele senhor branco e alto, pacato pai de família, morador da Penha. Segundo ele, entretanto, esse tipo de profissão vem acabando, já não constitui grande atração: só existe de fato, mesmo, no subúrbio ou no interior. Nem mais no Passeio Público. A espécie dos lambe-lambe parece em extinção.
Se tal acontecer, "seu" Mário, apesar de ser um fanático por fotografia, vai por em prática a sua habilidade como motorista profissional, cuja carteira de habilitação foi tirada há muito tempo.
É com muita pena e tristeza que vejo uma arte de rua, uma distração
pública, uma alegria que contagia quando se tira um foto, morrer em plena
rua como se fosse um nada, simples coisa do passado.
Emergência
Para as donas-de-casa e as domésticas em geral uma barraquinha de lona, onde se pode encontrar de tudo um pouco e, também, onde se pode comprar apenas um tomate ou uma cenoura, sem grandes preocupações financeiras, é um verdadeiro "serviço de utilidade pública", a salvação nas horas mais urgentes.
Enfim, o vendedor ambulante desse tipo é um "posto de emergência". O carioca Antônio Simões, com 39 anos de idade, mais dez de profissão, faz ponto na rua Cândido Mendes e ainda na Benjamin Constant. Todo mundo que mora ali só quer em sua barraca comprar.
— Minhas mercadorias são fresquinhas, limpas, e a gente vende honesto.
Quando não é dia de feira nas imediações, geralmente às quintas e domingos, "seu" Antônio vende tudo pra valer e "dá muito bem pra ir enganando o estômago e a vida".
Fora disso, o lema da barraca do "seu" Antônio é Fiado, só conversa. E lá vai ele, Antônio Simões, cidadão brasileiro, vendedor ambulante, no dia-a-dia da cidade, esperando as coisas melhorarem, a vida se "mancar", para poder, também, ser um pouco mais feliz. Um trabalhador como outro qualquer.